Uma viagem às raízes em nome do amor

Uma viagem às raízes em nome do amor

Foto: DR
Radio Latina 4 min. 22.11.2018

Uma viagem às raízes em nome do amor

Lúcia de Carvalho veio na semana passada ao Luxemburgo apresentar o seu trabalho, um longo percurso musical que nos mostra como a música pode explicar a nossa história melhor que qualquer coisa.

A cantora angolana Lúcia de Carvalho deu o nome de Kuzola ao seu projeto. Em kibundo, a língua da sua mãe, significa “amar”. “Kuzola, o canto das raízes” é uma viagem que permite a Lúcia perceber o que canta, entender a história da sua vida e chegar ao interior de si mesma. Esta educação sentimental que passa por Angola, Portugal, Brasil e França expressa-se num disco, com a participação de 30 músicos, e ainda num documentário.

Neste filme, vemos Lúcia procurar a explicação das razões que levaram a sua mãe a dá-la para adopção, bem como às suas irmãs, ao mesmo tempo que vai reconstruindo o percurso e os significados escondidos naquilo que canta. Em que medida as melodias brasileiras que escolheu cantar não são uma reapropriação de uns ritmos que nasceram e cresceram nos homens e mulheres livres que foram escravizados e levados de Angola para o Brasil?

Lúcia é negra, é africana, passou a infância em Portugal, canta música com sabor do Brasil e vive na Alsácia francesa. A cantora sonhou que todos os pontos da sua geografia particular faziam sentido.

Num momento dessa viagem, Lúcia pede à avó que lhe ensine a cozinhar kizaca, um prato angolano, porque ela só sabe cozinhar os pratos franceses da sua pequena aldeia que faz fronteira com a Alemanha. Quando lhe pergunto se depois desta viagem aprendeu a cozinhas kizaca, Lúcia ri e confessa: “ainda não sei. Vi a minha mãe a fazer, mas ainda não consegui aprender. Cresci a cozinhar coisas da culinária alsaciana, a região de França onde vivo. Pratos com muitas natas e chucrute ”.

Porquê essa necessidade de voltar a Angola? “Para mim era uma coisa importante. Pensava que ao voltar ia ser uma outra pessoa, mas afinal fiquei a mesma. Mas permitiu-me perceber o sonho que tive em que me aparecia uma árvore que, provavelmente era eu, tinha raízes angolanas, um caule português, flores brasileiras e a terra que tudo alimenta era francesa. Percebi que havia uma certa harmonia nas culturas que conviviam dentro de mim”.

Quando aterrou em Angola sentiu que fazia parte da terra. “Senti que voltei. Tive um pouco medo de não ser aceite, mas quando decidi regressar, estava pronta para que acontecesse o que acontecesse”, relembra.

Lúcia e as suas irmãs foram dadas para adoptar. Algo que mesmo assim não rompeu com o passado. “ A princípio não houve um choque muito grande, porque sabíamos que era para termos uma vida melhor”. Dez anos depois, as saudades pesavam muito para Lúcia e as irmãs. “Voltei para Portugal porque umas amigas disseram que a minha mãe tinha andado à nossa procura e estava muito triste. Apenas sabia que tinha sido vista várias vezes numa farmácia, que se chamava Maria e morava em Lisboa. Procurei nas páginas amarelas e encontrei uma Maria que trabalhava numa farmácia na Rua dos Fanqueiros. Fiquei lá o dia inteiro. Não vi ninguém. Um ano depois soube que estava no lugar certo, só que a minha mãe não tinha ido lá nesse dia”, recorda.

Vai reencontrar a mãe em Angola. A sua terra e a sua herança musical. “Foi a minha mãe que me transmitiu o primeiro amor pela música. A música faz bem, faz chorar e faz rir. Talvez por isso, estou sempre a cantar”, diz Lúcia a sorrir.

Por estranho que pareça o seu amor pelas sonoridades brasileiras traduz também uma história de heranças e viagens. “Uma coisa que me faz sentir tão próxima da música brasileira é saber que vários dos primeiros escravos que foram para o Brasil vinham de Angola. Há canções que dizem algo como isto: “eu vim de Angola, eeehh, eu vim de angola eehh”. E conclui: “Quando ouvi isso senti mesmo essa ligação. Na comunidade afro-brasileira está muito presente esse amor pela mãe África. O mais tradicional da música africana até está mais presente no Brasil que em Angola, onde se houve mais o kuduro e coisas mais ocidentalizadas”.

E qual o lugar de Portugal na vida da cantora? “Para mim Portugal está muito presente na língua, canto sobretudo em português. Vivi em Portugal, apesar de ter sido naquela espécie de aldeia de crianças africanas, em Almada. Portugal deu-me, também, a palavra saudade, que não é melancolia, mas expressa uma dor alegre. Que é o que torna tão difícil explicar ’saudade’ na cultura francesa, porque é uma dor com uma pontinha de alegria”.

No fim da viagem aprendeu muita coisa, tocou com mais de 30 músicos, gravou um disco, reencontrou a mãe e pode-nos dizer o que é a kisaca? “É um prato com folhas de mandioca pisadas, temperadas com molho de ginguba (amendoim) ”.

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