"Sou mulher, sou negra e, como se não bastasse, ainda gaguejo"
Radio Latina 3 min. 10.10.2019

"Sou mulher, sou negra e, como se não bastasse, ainda gaguejo"

Cristina Ferreira entrevistou Joacine Katar Moreira.

"Sou mulher, sou negra e, como se não bastasse, ainda gaguejo"

Cristina Ferreira entrevistou Joacine Katar Moreira.
Radio Latina 3 min. 10.10.2019

"Sou mulher, sou negra e, como se não bastasse, ainda gaguejo"

Mas no 'Programa da Cristina' a recém-eleita deputada Joacine Moreira deixou o aviso: "a minha gaguez nunca me impediu de falar"

A recém-eleita deputada do Livre, Joacine Katar Moreira que prepara para se estrear no parlamento, esteve no programa de Cristina Ferreira, da SIC,  onde falou sobre a sua gaguez e o seu percurso.

"Sou mulher, sou negra, venho de uma família com dificuldades económicas e, como se não bastasse, ainda gaguejo impecavelmente". 

É assim que a recém-eleita deputada do Livre se apresenta e foi essa a deixa usada por Cristina Ferreira para lançar a conversa Joacine Katar Moreira. 

A nova deputada nasceu na Guiné, veio para Portugal com 8 anos e é uma das três primeiras mulheres negras a serem eleitas deputadas, juntamente com Beatriz Dias, pelo Bloco de Esquerda, Romualda Fernandes, pelo Partido Socialista.

Ansiedade sobre a gaguez

Joacine ficou conhecida, ainda antes, durante a campanha, pela sua gaguez, acabando por colocar na agenda não só os temas políticos, como esta condição que afeta milhares de pessoas e é pouco falada.

Na entrevista com Cristina Ferreira sublinhou isso mesmo: "Há uma ansiedade enorme: 'Ela gagueja, ela não gagueja. Eu gaguejo! Obviamente que sim. Mas há épocas em que vou gaguejar muitíssimo menos e a seguir há épocas em que vou gaguejar imensamente".

Os nervos, a iluminação são fatores que podem contribuir para essa oscilação referiu a deputada, mas não há uma causa específica. 

"Não é útil andarmos com uma ansiedade de arrumar a gaguez na ala A, na ala B, na ala C", afirmou, lembrando que 99% das pessoas não gagueja e quando o faz, aí sim, é porque ou está ansioso, a mentir ou nervoso.

"As pessoas que gaguejam não estão sucessivamente nervosas, não são mentirosas (...) Portanto, é isto e eu olhando-me a mim, aceitando-me a mim, avançando e especialmente não omitindo isto, não escondendo isto...E em vez de andarem com imensas teorias, devem olhar e respeitar alguém que está a assumir as suas fragilidades".

Gaguez como arma eleitoral?

"Mas há alguém que vá eleger alguém pelo facto de a pessoa fechar os olhos e dizer 'cacacacaca?'" 

Cristina Ferreira confessou a Joacine: "Vou-lhe dizer isto, que a Joacine deve saber, nós vemos os seus primeiros vídeos e dá-nos vontade de rir. Mas a Joacine está aqui comigo e eu não vontade nenhuma de rir".

"Na net é só ódio. É óbvio que isto iria originar imensas teorias de conspiração, é óbvio que isto não ia ser algo minimamente fácil. Mas é necessário educarmos a sociedade", alerta Joacine.  

 Tanto na entrevista no 'Programa da Cristina', como ainda durante a campanha vários foram os internautas que chegaram a duvidar da condição de gaguez de Joacine Katar Moreira, com alguns a insinuarem que se trataria de uma arma eleitoral, como forma de chamar a atenção mediática e de potenciais votantes.

Foto: LUSA

A questão levou mesmo o site português Polígrafo a tirar a limpo as dúvidas se Joacine só tinha começado gaguejar na presente campanha eleitoral? A conclusão foi de que essas insinuações eram falsas, com exemplos de intervenções da deputada, que é também presidente e fundadora do INMUNE - Instituto da Mulher Negra em Portugal, em programas de televisão em que participou muito antes de ser candidata.

Bandeira da Guiné-Bissau

Outra das polémicas que têm envolvido a deputada é o facto de nas celebrações da sua eleição, no passado domingo, 6 de outubro, ter alegadamente erguido uma bandeira da Guiné, quando foi eleita pelos portugueses para o parlamento português.

A deputada desmente que tenha segurado numa bandeira daquele país - o seu país de origem -, esclarecendo que foram apoiantes e simpatizantes seus, guineenses ou de origem guineense, que levaram a bandeira. 

Apesar disso, Joacine não rejeita o "orgulho enorme" que tem nas suas origens. "Não vejo de errado em estar lá uma bandeira do país onde o meu cordão umbilical foi enterrado", refere.

Batalha pelo feminismo

O feminismo é outra das bandeiras de Joacine. Na entrevista a Cristina Ferreira a deputada foi peremptória: "Nenhuma mulher vai auferir um ordenado inferior a um homem se estiver na mesma hierarquia", defendeu.