"Nunca vi algo tão desastroso". As reações à entrevista do príncipe André
Radio Latina 1 6 min. 19.11.2019

"Nunca vi algo tão desastroso". As reações à entrevista do príncipe André

"Nunca vi algo tão desastroso". As reações à entrevista do príncipe André

AFP
Radio Latina 1 6 min. 19.11.2019

"Nunca vi algo tão desastroso". As reações à entrevista do príncipe André

Na entrevista ao programa BBC NewsNight, o príncipe André negou qualquer envolvimento com Virginia Roberts-Guiffre, uma das vítimas do escândalo sexual que envolve Jeffrey Epstein. No entanto, as respostas pouco coerentes não convenceram a opinião pública e a imagem da família real pode ter saído prejudicada após o encontro.

O príncipe André aceitou falar, pela primeira vez, sobre o escândalo sexual que envolveu o seu amigo, o empresário norte-americano Jeffrey Epstein, que foi encontrado morto na prisão, em agosto passado. 

A conversa com a BBC tinha como objetivo 'limpar' a reputação do duque de York e esclarecer as acusações que recaem sobre si, nomeadamente, sobre os encontros sexuais com  Virginia Roberts-Guiffre. A mulher acusa o príncipe de 59 anos de abuso sexual quando esta tinha apenas 17 anos. Virginia assegurou que foi forçada "em repetidas ocasiões" a ter relações sexuais com o duque de York, entre 1999 e 2002. 

O príncipe garante que não se lembra de ter conhecido Guiffre - apesar de haver uma fotografia dos dois juntos - e que não poderia ter estado com ela, em dada ocasião, porque  estava com a filha mais velha, Beatrice, numa festa no 'Pizza Express', em  Woking, arredores de Londres, e que depois foi para casa. 

"Porque a Duquesa estava fora, temos uma regra simples na família: quando uma está fora, o outro está lá. Acrescentou que se lembra da ocasião "distintamente" porque foi uma das poucas vezes que esteve em Woking, e ir ao Pizza Express foi "uma coisa muito incomum que eu fiz".

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Entrevista "excruciante"

As respostas pouco coerentes do príncipe não só não convenceram, como parecem ter criado um problema ainda maior. A onda de indignação vem de todos os lados, dos especialistas em assuntos da família real às vítimas do caso de Esptein. E até o FBI poderá intervir. 

"Nunca vi algo tão desastroso", afirmou o consultor de Relações Públicas Mark Borkowski ao jornal britânico The Guardian, acrescentando que a entrevista é uma lição para estudantes sobre "o que não se deve fazer".

Nicholas Witchell, especialista da BBC nos assuntos da família real garante que a entrevista do príncipe e o documentário de Meghan e Harry revelam "que a rainha perdeu o controlo da família real". Aos 93 anos de idade, a monarca “não está a exercer um controlo forte já que nem os conselheiros da rainha não foram envolvidos na entrevista”.     

Robert Perry/PA Wire/dpa

De acordo com o jornal 'Express', o ex-assessor de imprensa do Palácio de Buckingham, Dickie Arbiter, descreveu a entrevista do Príncipe Andrew na noite de sábado como 'excruciante'. Arbiter garante que se os conselheiros tivessem sido ouvidos, teriam aconselhado o duque a não falar.  

Pedido de desculpa às vítimas 

O 'The Guardian' avança que os advogados que representam 10 vítimas do caso que envolve o milionário Jeffrey Esptein ficaram chocadas com a falta de remorsos demonstrada pelo príncipe, mas também com a defesa incoerente que este apresentou. 

Por isso mesmo, exigem que fale com o FBI sobre o caso.  Na entrevista com a BBC, o príncipe garantiu que vai procurar assessoria jurídica antes de prestar declarações sob juramento nos EUA.   

O príncipe chegou a dizer que não se arrepende da amizade com Epstein já que lhe trouxe "alguns resultados muito benéficos", num momento em que André tinha deixado uma carreira na Marinha e começou a trabalhar como representante especial da indústria e comércio. "As pessoas que conheci e as oportunidades que me foram dadas para aprender, por ele ou por causa dele, foram realmente muito úteis". 

Jeffrey Epstein foi condenado em 2008 a 18 meses de prisão por prostituir uma menor. Em julho de 2019, o milionário voltou a ser detido por suspeitas de tráfico sexual e abuso de menores. A aguardar julgamento, Epstein foi encontrado sem vida na sua cela. No entanto, o caso continua a ser investigado. 

Gloria Allred, advogada que representa cinco vítimas de Epstein, afirmou que a ação “mais certa e honrosa” a tomar por parte do duque é tomar a iniciativa de falar com o FBI e pelos procuradores do distrito sul de Nova Iorque, que estão a dar continuidade às investigações apesar de Epstein se ter suicidado na prisão em agosto. 

“O príncipe André decidiu entrar no tribunal da opinião pública ao dar esta entrevista e as pessoas podem decidir se acreditam ou não nele. O mais importante disto são as vítimas e muito pouco se disse sobre elas nesta entrevista. Elas foram quase ignoradas por completo”, reiterou Allred.  

Lisa Bloom, também advogada de outras cinco vítimas, disse que a entrevista foi "dececionante". “Ele tem o direito a negar as alegações e a defender-se. Mas onde está o pedido de desculpas por ter estado tão intimamente ligado a um dos pedófilos mais prolíficos da história?”, perguntou. 

Ao jornal 'The Telegraph', Spencer Kuvin, advogado de três das vítimas de Epstein, garante que "as declarações de André podem ser usadas contra ele num interrogatório".  

Fim dos patrocínios 

Joe Castro/AAP/dpa

A consultora KPMG não renovou seu patrocínio à iniciativa de empreendedorismo do Duque de York, o Pitch@Palace. A polémica sobre os laços do príncipe com o agressor sexual condenado Jeffrey Epstein é entendida como sendo uma das razões para esta decisão. 

A notícia foi dada após a entrevista ao programa BBC Newsnight. O projeto de empreendedorismo foi fundado pelo príncipe, em 2014, e envolve empresários que competem pela oportunidade de apresentar as suas ideias de negócio a empresários influentes. O projeto opera em 64 países e afirma ter criado mais de 6.300 postos de trabalho. 

Duque de York ofusca a campanha eleitoral 

O escândalo que envolve o príncipe André chegou à campanha eleitoral no Reino Unido, que vai a votos no dia 12 de dezembro. 

Boris Johnson, o primeiro-ministro, e o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, foram confrontados com perguntas sobre o duque de York, durante compromissos eleitorais. 

Num evento do CBI, o principal 'lobby' britânico do setor empresarial, perguntaram ao primeiro-ministro se também ele partilhava a "incredulidade da nação" a respeito da entrevista do príncipe. "Não serei induzido a comentar questões relativas à família real", respondeu, fugindo à questão. 

Resta saber se o príncipe André vai voltar a falar sobre o caso ou optar pelo silêncio para não piorar a sua já manchada reputação. 

Ana Patrícia Cardoso 


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