José Cid. “É muito injusto as pessoas terem de emigrar"
Radio Latina 10 min. 26.12.2019 Do nosso arquivo online

José Cid. “É muito injusto as pessoas terem de emigrar"

José Cid. “É muito injusto as pessoas terem de emigrar"

Radio Latina 10 min. 26.12.2019 Do nosso arquivo online

José Cid. “É muito injusto as pessoas terem de emigrar"

Fora do circuito de concertos nas comunidades portuguesas, é preciso ir a Portugal para ver José Cid ao vivo. Quem regressar à terra para passar as festas natalícias, pode ver o cantor ao vivo já no próximo dia 30 de dezembro, gratuitamente, na Praça do Comércio, em Lisboa.

Com uma carreira de mais de meio século, o seu nome dispensa apresentações para os portugueses. José Cid marcou a trajetória do pop rock em Portugal, tanto no Quarteto 1111, como a solo. E, aos 77 anos, não dá sinais de abrandar, mesmo que recentemente tenha recebido uma distinção que simboliza um coroar de todo seu percurso: o Grammy Latino de Excelência Musical. O cantor partilhou o prémio com nomes como Joan Baez e Omara Portuondo, a quem ofereceu brincos em filigrana. “Na conferência para os prémios, [a Joan Baez] entrou mais tarde e quando entrou olhou para mim, piscou-me o olho, apontou para os brincos e sorriu. Desvaneceu-se aquele gelo inicial”, conta, em entrevista. De Las Vegas, onde recebeu o galardão, trouxe, além do reconhecimento e boas recordações dos encontros proporcionados, um medo de andar de avião ainda por superar. Lá deixou, num discurso feito em português – “já chega o Jorge Jesus e o Mourinho a falarem mal 'espanhuel’ ou 'inglesiu’ -, a garantia de que vai continuar a fazer música. Parte dela já foi cumprida com o recém-lançado ’Fados, Fandangos, Malhões… e uma Valsinha’. A caminho está um outro disco, ’Vozes do Além’, que marca o seu regresso ao rock sinfónico, depois do aclamado ’10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte’. Aos novos registos somam-se ainda as colaborações com as gerações mais novas de cantores e os espetáculos.

Ganhou o Grammy Latino de Excelência Musical há pouco mais de um mês. Mudou alguma coisa para si desde então?

[Risos]Sim, algumas pessoas que gostavam de mim, mas estavam esquecidas de que eu existia têm ligado insistentemente, rádios também, imprensa...E vou ter muito trabalho até ao final do ano. Vou atuar ao vivo no dia 30 na Praça do Comércio, em Lisboa, onde são esperadas mais de 100 mil pessoas e no dia 31, na passagem de ano no Hotel Marina Vilamoura.

Há previsão de concertos para a Europa, a seguir?

Não, não há. Passei muito de moda na emigração e também devo dizer que a maior parte das produções que me fazem pela Europa e pela América são produções minimalistas, com som e produção muito reduzidos, que já não são o meu patamar. Além disso, os cachês não são assim grande coisa [risos]. Ganho mais numa vila em Portugal, do que em Paris, Londres ou Toronto. Para ganhar os cachês que me são oferecidos, e compreendo que é com muito sacrifício que o oferecem, na emigração, não preciso de sair de casa. E eu tenho um medo enorme de andar de avião...

E como é que superou esse medo para ir receber o Grammy a Las Vegas?

Foi um horror, a coisa que mais me custou – uma viagem de 10 horas. O que vale é que tomei um calmante e dormi a viagem quase toda. Mas [voltando atrás] adoro e tenho o maior respeito pelas pessoas que trabalham fora de Portugal. Tivesse Portugal condições para albergar todo a gente que aqui nasce. É muito injusto as pessoas terem de emigrar para países onde há neve 10 meses por ano, quando têm 10 meses de sol no seu país.

O que é que guarda da viagem a Las Vegas, de ter ido receber este importante prémio de carreira?

Foi fantástico. Gostei muito das cerimónias e falo de cerimónias porque fiquei amigo da Joan Baez e da Omara Portuondo, que é a Amália Rodrigues de Cuba. Depois foi tudo muito bem organizado. Foram extraordinariamente simpáticos comigo, de tal maneira que, finda a primeira celebração dos Grammys de Excelência Musical, que foi o que eu recebi, me convidaram para no dia seguinte ser eu a apresentar os Grammys da música brasileira. Tive o privilégio de entregar o prémio do Melhor Álbum de Música Popular Brasileira a um grande amigo meu, o Gilberto Gil, que é outro encanto de pessoa. O Zeca Baleiro [outro dos nomeados à mesma categoria] quer gravar dois temas meus. Foi muito positivo. Quanto à cidade de Las Vegas não faz muito o meu género. Prefiro Lisboa, Porto ou Coimbra, Aveiro... Cidades mais simpáticas, onde as pessoas quase se conhecem e não aquela selva de cimento que, francamente, mete um bocadinho de medo.

Levou brincos de filigrana para oferecer à Joana Baez e à Omara Portuondo. Como foi o encontro com elas as duas e como receberam esse presente?

A Omara Portuondo foi logo no hall do hotel, e foi de uma simpatia... A Joan Baez disse que não queria contactos, nem fotografias, nem imprensa, até que a organização lhe disse que havia uma pessoa que ia receber o mesmo Grammy que ela, um português, e que lhe trazia uns brincos em prata para lhe oferecer. E ela aí abriu uma exceção e acedeu a que eu lhe entregasse os brincos. E ficou encantada – os brincos em filigrana ficavam-lhe lindamente.

Ela usou-os, de resto, quando foi receber o Grammy dela.

Usou-os logo. No dia a seguir, na conferência para os prémios, ela entrou mais tarde e quando entrou olhou para mim, piscou-me o olho, apontou para os brincos e sorriu. Desvaneceu-se aquele gelo inicial. Depois tivemos uma grande conversa, disse-lhe que admirava imenso a sua luta contra a guerra do Vietname e que eu também, como muito poucos, tinhamos lutado, debaixo de uma ditadura, pela descolonização e contra a segregação racial que havia ainda em Portugal. E sabia que ela tinha gravado o ’Grândola, Vila Morena’, do Zeca. Ela ficou encantada por perceber que estávamos na mesma barricada. E agora só falta mandar-lhe um email a convidá-la para fazer um dueto comigo no próximo álbum [risos].

E vai fazê-lo?

...Se calhar, vou.

Ficou surpreendido quando lhe disseram que ia ganhar? Como é que a academia dos Grammys Latinos chegou à sua carreira?

Eles dão-me o prémio, basicamente, pelo meu álbum [de rock progressivo] ’10.000 Anos Depois entre Vénus e Marte’, que é cotadíssimo a nível mundial, e também por um álbum meu que não se conhece muito em Portugal, que é o ’Ode a Frederico Garcia Lorca’, baseado na poesia dele e cantado em castelhano, com guitarras de Coimbra. E acabaram por ir ao meu Facebook e ver as transmissões que eu faço dos meus concertos. Tudo isso se juntou para que reconhecessem que eu era uma figura no meu país. Também consultaram a Sociedade Portuguesa de Autores que me confirmou como um dos grandes nomes da música portuguesa, com mais de 70 anos, que enche salas, continua a fazer grandes concertos e tem uma capacidade vocal ainda muito, muito boa. E eles convidaram-me e fiquei muito, muito contente.

Fez questão de falar em português no discurso de aceitação. Porquê?

Claro! Era o que faltava. Já chega o Jorge Jesus e o Mourinho a falarem mal “espanhuel” ou “inglesiu”.

E foi bem compreendido pelos presentes?

A verdade é que tive muitos aplausos, porque também fiz um a capella que os surpreendeu. Foi o que teve de ser. Se eles têm grandes poetas e nomes da literatura mundial, nós também temos e, além disso, temos uma língua que é falada em muitos países do mundo. No dia a seguir, quando entreguei os Grammys brasileiros também falei em português. Não há cá “espanhuel”[risos]. E foi muito bom.

Nesse discurso sublinhou que ia continuar a fazer música e já lançou um disco entretanto. O que é que o move a continuar a fazer música nova?

A minha inspiração, o meu signo Aquário, o meu trabalho e aquilo que eu gosto de fazer, que é cantar e cantar ao vivo. Eu preservei a minha voz, está cá toda. Canto duas horas e meia em qualquer sítio, sem hesitações. É a minha vida. Sou cantor e poeta. E isso não tem idade. Claro que as grandes rádios passam menos os cantores com mais de 30, 40 anos. Mas se não passo na rádio, o público vai-me ouvir aos concertos. As autarquias quando só podem levar um cantor, escolhem um que seja transversal e José Cid é absolutamente transversal e com grande qualidade instrumental, musical e vocal.

’Fados, Fandangos, Malhões… e uma Valsinha’, o disco que acabou de lançar, tem essas sonoridades e muito mais. Por que as quis misturar todas num só disco?

Porque Portugal é isso. E ainda tem mais, tem Viras, tem Chulas e outras coisas. Este álbum vem trazer a lembrança que estava a ser muito, muito esquecida de que Portugal tem um som. E esse som está todo explícito neste disco.

O album traz alguns duetos: com Marisa Liz, vocalista dos Amor Electro, com o fadista Ricardo Ribeiro e com a Matilde Cid, também fadista. Porque escolheu estes três cantores?

A Marisa Liz tinha de ser porque temos uma ligação de amizade fortíssima. Eu sou o ’Ti Zé’, e ela adora-me, respeita-me e admira-me. E o tema prestava-se muito, porque ela tem uma voz meio rouca e meio grave. O Ricardo Ribeiro disse logo que sim e tem uma interpretação absolutamente incrível. Aliás, esta é a praia em que ele devia estar sempre a cantar. Este tipo de música fica-lhe muito bem, um fado andaluz. Para o [tema] ’Que Bem Que Baila a Moura’, confesso que tinha convidado duas divas. Uma fui ouvi-la e achei que não era o tipo de voz que queria e a outra disse-me redondamente que não, que agora vai gravar coisas da Amália, o que eu acho péssima ideia, porque a Amália é a Amália. Então fui para a minha “primita”, uma artista emergente, que canta que se farta e ia ser muito mais giro.

Nos últimos anos, também tem colaborado nos discos de artistas da geração mais nova do pop rock português. O que é que eles procuram no José Cid?

Procuram, obviamente, o meu talento [risos]. Ainda agora o Salvador Sobral fez uma versão de um tema meu [e dos Quarteto 1111], de 1970, o ’Pigmentação’. Depois, procuram um pouco a minha rebeldia, porque quando não gosto digo. Quando sinto que há pouca seriedade e pouca honestidade, digo. Quando há segregação na música, aponto o dedo, não tenho medo.

Antes do Grammy, a sua música já tinha ultrapassado fronteiras, tendo chegado a um músico de escala mundial como o Jay -Z que usou um sample de ’Todo o Mundo e Ninguém’, dos Quarteto 1111. Como é que isso aconteceu?

Achei muito interessante e já me ri várias vezes, porque o Jay-Z nem sabe o que é que fez. Ouviu uns sons que lhe soaram bem e optou por ali, mas ele não percebeu que estava a meter um sample no disco dele de uma pessoa que é tão importante como Shaskespeare, só que não nasceu em Inglaterra, nasceu em Portugal, que é Gil Vicente. Não percebeu nada disso! Ouviu uns sons e meteu-os lá, como uma espécie de vírus, no tema dele. Achei piada, até porque aquilo é-me pago, é um dinheirico que se ganha. Mas não achei piada nenhuma ao facto de ele não ter percebido sequer o que é que estava a fazer.

Sente que diminuiu o significado e a importância da música?

Completamente. Mas o tema é brutal e eu vou gravá-lo [novamente], muito provavelmente, em 2021. Vou recuperar ’Todo o Mundo e Ninguém’, gravado pelo Quarteto 1111, pelo Tozé Brito e pelo José Cid.

Esta a preparar um outro disco. O que podemos esperar dele?

O álbum que vem aí é completamente diferente deste [lançado este ano]. É um disco de rock sinfónico, anos depois de ’10.000 Anos Depois entre Vénus e Marte’. Já está pronto e vai surpreender muito, porque é um arco-íris de canções.

Já tem título?

Sim, chama-se ’Vozes do Além’. São 15 poemas, todos eles de poetas diferentes, como Frederico Garcia Lorca, Sophia de Mello Breyner, Natália Correia, poetas meus amigos e eu, que também escrevo. É a opinião poética de cada um sobre a vida depois da morte e o regresso à vida depois da morte. Com esses poemas na mão, fiz um álbum de rock sinfónico.


Ana Tomás














 

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

É a primeira vez que Miguel Araújo vem ao Luxemburgo
Catia de Oliveira acompanhada por Rui Pedro Claro na guitarra portuguesa e Joaquim Caniço na viola