"Já consigo perceber melhor como se vai gerir a saudade do Zé Pedro"
Radio Latina 1 11 min. 23.10.2019 Do nosso arquivo online

"Já consigo perceber melhor como se vai gerir a saudade do Zé Pedro"

"Já consigo perceber melhor como se vai gerir a saudade do Zé Pedro"

Radio Latina 1 11 min. 23.10.2019 Do nosso arquivo online

"Já consigo perceber melhor como se vai gerir a saudade do Zé Pedro"

Diogo Varela Silva realizou um documentário sobre a vida do seu grande amigo, o guitarrista dos Xutos, que estreia esta quinta-feira, 30 de julho, nos cinemas em Portugal. Recorde a entrevista à Radio Latina, na qual o realizador confirma aquilo que, no fundo, já sabíamos: "não há ninguém que não goste dele".

‘Zé Pedro Rock n'roll’ podia ter sido o resultado do projeto falado, durante algum tempo, entre o guitarrista e fundador dos Xutos & Pontapés e o realizador e seu amigo de longa data, Diogo Varela Silva. Mas a morte de Zé Pedro, a 30 de novembro de 2017, já não permitiu que ele fosse desenhado a dois. Diogo Varela Silva acabou por fazer sozinho o documentário, que se estreou no DocLisboa, com sessão esgotada, na passada sexta-feira, 18 de outubro.

Veja o trailer do documentário.

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 A decisão de avançar com o projeto depois da morte do guitarrista, aos 61 anos, não foi a de criar uma obra que servisse de homenagem póstuma, mas o realizador admite que desenvolver este filme ajudou a fazer o luto do amigo e músico que ele, como tantos outros, admiravam.

"Fiz o processo de luto com este documentário", confessa em entrevista à Rádio Latina. Com ele, diz, já conseguiu "perceber melhor como é que se vai gerir a saudade do Zé Pedro". E é isso mesmo que se pretende com este filme, para o qual foram reunidas imagens de arquivos públicos e pessoais, bem como testemunhos de amigos e familiares e dos companheiros da sua banda de sempre, os Xutos & Pontapés, entre outras raridades. 

O realizador Diogo Varela Silva que também foi um grande amigo de Zé Pedro.
O realizador Diogo Varela Silva que também foi um grande amigo de Zé Pedro.

"É um processo de gerir saudades", reforça Diogo Varela Silva. Saudades de uma figura unânime, na sua generosidade e humildade, para a generalidade dos portugueses, fãs ou não do rock. "Não conheço ninguém que não goste dele, ou não simpatize com ele", sublinha o realizador.

 E há muitas razões para isso, como revela, ou relembra, Diogo Varela Silva nesta conversa.

Segundo li, em entrevistas que deu, a ideia deste documentário começou por ser um desejo partilhado entre si e o próprio Zé Pedro.

Sim, quer dizer, era uma coisa que íamos falando, assim ao de leve. Na altura, nem ele, nem eu, fizemos muita força. Era um projeto que tínhamos para se fazer um dia. Infelizmente, esse dia não chegou a tempo de o podermos fazer juntos.

 Decidiu avançar com o projeto como forma de homenagem póstuma ao Zé Pedro ou já tinha planeado começar com ele nesta altura?

Não foi uma coisa que quisesse fazer logo a seguir à morte dele. Este ano assinalam-se os 40 anos dos Xutos & Pontapés e lembrei-me que talvez fosse uma boa ideia tentar executar este documentário, que era a ideia que eu tinha. Mas depois estas coisas...Não basta só a vontade, é preciso apoios. Este filme, é bom que se note, não teve apoio do ICA [Instituto do Cinema e do Audiovisual]. Os apoios que teve foram da RTP e da Câmara Municipal de Lisboa, e graças a carolice nossa, da equipa e minha, e a investimentos próprios. Os filmes, infelizmente, não podem ser só feitos de amor.

"O Zé Pedro vivia na nossa casa"

 Tendo em conta esses constrangimentos financeiros, quanto tempo é que demorou a concluir esta produção?

 Nós tivemos mais ou menos um ano a trabalhar no filme. Havia uma pesquisa que já tinha sido feita, [resultante] da vivência de uma vida inteira, de amizade com o Zé [Pedro] e de conhecimento próximo. Quando os Xutos começaram, o Zé Pedro vivia connosco, na nossa casa, com a minha tia Mizé. A primeira morada dos Xutos foi a casa da minha avó Celeste [Rodrigues; fadista e irmã de Amália Rodrigues], onde vivíamos todos. Portanto, havia um conhecimento e uma amizade grande. E um conhecimento das histórias que eu achei que eram interessantes poder contar ou utilizar para mostrar de onde é que vem este Zé Pedro. Esta figura unânime e incontornável do rock e da música.

 Que histórias foram essas que quis contar?

Quis contar de onde é que vinha a paixão dele pela música, porque, acima de tudo, foi pelo amor e pela paixão que ele tinha à música que tudo aconteceu: que ele aprendeu a tocar, que formou a banda que formou, que foi radialista, crítico de música, que abriu o Johnny Guitar [em Lisboa], que foi palco divulgador de grande parte das bandas novas que apareceram nos anos 1990, em Portugal. Tudo isso ajuda a explicar melhor a pessoa, e o ser humano extraordinário que o Zé Pedro era. E de onde ele vem também. Ele vem de uma boa família, estruturada...Todos muito unidos...E eu acho que esse lado de amor que ele tem, não nasce apenas nele, vem da maneira como foi criado e de como ele viveu toda a sua vida. Penso que esse é o segredo de nós todos gostarmos da maneira que gostamos do Zé Pedro. Não conheço ninguém que não goste dele, ou não simpatize com ele. Se calhar, há, mas eu ainda não conheci.

 Entre aquilo que se dizia do Zé Pedro, era frequente a referência ao facto de ser realmente aquilo que aparentava: uma pessoa humilde, educada, disponível e generosa. Houve algum lado que o músico tenha preferido resguardar ou que não tenha sido tão conhecido do grande público, durante a vida, e que agora seja mostrado neste documentário?

Não. Acho que se houve coisas que ele não quis revelar, também não seria eu que as iria revelar. A privacidade das pessoas também tem de ser mantida. Mesmo assim, neste documentário mostramos muitas coisas que, quem gosta e é fã do Zé Pedro, vai ver, se calhar, pela primeira vez. Temos material mais antigo, do arquivo familiar, dele em miúdo, coisas pessoais que a Cristina, a sua mulher, nos facultou. Há várias coisas que quem gosta do Zé Pedro vai gostar de ver. Mas o que é privado, privado deve ficar. O lado humano está lá.

A mulher e muitos amigos

A que outro material recorreu para fazer este documentário? Há testemunhos, de elementos dos Xutos & Pontapés, de familiares, por exemplo?

 Há. Há testemunhos dos Xutos, de familiares, da mulher, a Cristina, de outros colegas e de amigos - amigos de infância e de juventude -, de pessoas que conheciam bem o Zé e que fizeram parte ou estiveram, de alguma maneira, ligados ao percurso e à vida dele. Não estarão todos, porque o Zé devia ser o maior coletor de amizades que eu conheço, mas estão alguns.

 Além desses testemunhos e de elementos de arquivo que mencionou antes, o que é que podemos encontrar neste documentário? Sem revelar muito, claro.

Temos acesso a imensas imagens, algumas que julgo que as pessoas não conhecem, imagens de fotografias, do arquivo da RTP, arquivo que a [revista] Blitz forneceu, arquivo pessoal da família Santos Reis, arquivo pessoal dele, e, inclusivamente, algum arquivo pessoal meu, de coisas antigas que tínhamos lá em casa. Podemos ver algumas dessas imagens e ficar a saber - quem não o sabe ao certo - o porquê dele ter ido parar à música e o porquê da partilha.

 A frase que escolheu para o trailer, resume isso. Ouve-se a voz do Zé Pedro a dizer que assim como ele recebe, ele também dá. Ele, apesar de ser músico profissional, nunca deixou de ser melómano e de promover o que ouvia. Isso também era uma forma de generosidade...

Era imenso. Aliás, ele não concebia esta coisa da música se não fosse pela partilha. O Zé Pedro era um colecionador enorme de discos. Esta vertente de DJ que ele tinha vinha disso, de querer partilhar as coisas novas que descobria. Lembro-me sempre que a primeira vez que ouvi Smashing Pumpkins foi numa viagem que fiz à América e em que vinha incumbido, por ele, de arranjar um disco da banda. Nunca tinha ouvido falar dela. Quando comprei o disco para lho levar, pedi-lhe autorização para abrir e ouvir. E, realmente, ele tinha essa capacidade de descobrir coisas, de estar à frente do que se passava, de estar bastante informado. E depois de querer partilhar essas informações que tinha conseguido.

Crédito: Facebook Xutos

 O grande segredo de Zé Pedro

Ele também nunca abdicou da sua condição de fã de outros músicos. Poucos anos antes da sua morte, ele foi com a revista Blitz conhecer o guitarrista Jimmy Page (ex-Led Zeppelin), a Londres. E o que foi mostrado depois na reportagem é que ele se comportava como um fã comum, como outros seriam dele.

 Eu acho que esse é o grande segredo do Zé Pedro: a maneira como ele era afável e recebia todos os fãs. Porque ele nunca deixou de ser fã! Ele conseguia sempre pôr-se na pele dos fãs que iam ter com ele, porque faziam aquilo que ele queria fazer às pessoas que ele admirava [risos]. Eu acho isso de uma beleza enorme. Apesar daquele estrelato todo, ele nunca deixou de ter os pés bem assentes na terra e nunca deixou de ter esse lado humano, que todos temos. Ele nunca foi deslumbrado. Eu acho que isso é o grande segredo destes afetos todos à volta dele - ele conseguia estar no lugar do fã.

 Apesar de ter conhecido e privado durante muitos anos com o Zé Pedro, houve alguma coisa na pesquisa que fez que o surpreendesse?

 Na verdade, acho que não abordei nada que não tivesse já conhecimento - umas coisas melhor, outras pior. Mas não, não houve.

"Fiz o processo de luto com este documentário"

 Como foi, para si, o processo de realizar este documentário, após a morte do Zé Pedro. Como é que geriu as suas emoções, considerando a proximidade que tinham?

 Fiz o processo de luto com este documentário. Por um lado, foi importante para mim, porque obrigou-me a aceitar que não posso fazer nada, ele já cá não está. Posso lembrar-me dele, preservar ou ajudar a preservar a memória dele. E essa é a nossa maneira de continuarmos a dizer que o amamos, que gostamos dele e que sentimos a sua falta. Acho que foi importante para mim, e até acho que foi importante para o resto das pessoas que ajudaram recolher o material de arquivo. Tivemos que remexer, que mergulhar nisto. A mim ajudou-me realmente a tentar arrumar e a perceber melhor como é que se vai gerir a saudade do Zé Pedro. É um processo de gerir saudades.

 Ainda hoje, e apesar de já terem passados muitos mais anos, continuamos a gerir as saudades de músicos como o António Variações, que também foi recentemente objeto de um filme, com grande sucesso nas bilheteiras portuguesas.

Claro. Nós estamos sempre ligados a eles. É impossível esquecermos-nos do António e eu acho que também não nos vamos nunca esquecer do Zé Pedro, pelo carisma e pelo lado humano que eles tinham.

Crédito: Facebook Xutos

 A admiração da nova geração

O Diogo é pai do jovem guitarrista de fado Gaspar Varela, que tem andado em tournée com a Madonna, a convite da própria. Como é que os mais jovens olhavam para o Zé Pedro?

 Olhavam com admiração, com aquele sentido de ver no Zé Pedro alguém humano, não era só a estrela, não era só o músico. Era alguém que transmite um lado humano e um lado de carinho que era impossível não gostar dele. Se calhar, musicalmente falando, ele nem sequer era o mais dotado dos Xutos. Contudo, acho que é difícil não estarmos de acordo que será o mais carismático deles todos.

 Está, de resto, a dar esta entrevista a partir de Chicago, onde está com o seu filho. O que é que acha que o Zé Pedro diria desta colaboração de músicos portugueses, como o Gaspar ou o Dino d'Santiago, com estrelas da pop internacional, como a Madonna?

 Ele ia adorar, de certeza. O Zé Pedro sempre ficou muito orgulhoso de ver os colegas bem e estava sempre lá para apoiar. O Zé Pedro tinha essa coisa também: não era invejoso. Não sofria desse mal, pelo contrário, ficava feliz de ver que as coisas aconteciam aos outros também e incentivava-os. Aliás, ajudava a que as coisas acontecessem. Ele foi um grande promotor e grande divulgador de imensas bandas que apareceram. Ele e os Xutos deram sempre a mão e trouxeram sempre para cima projetos que ainda hoje cá estão. Lembro-me perfeitamente dos Ornatos Violeta e até dos Capitão Fausto, que andaram a fazer as primeiras partes deles. Eles sempre tiveram essa coisa de apadrinhar e puxar por quem merecia ser puxado.

Ana Tomás


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