Editora americana resgata banda cabo-verdiana luxemburguesa Pilon

Editora americana resgata banda cabo-verdiana luxemburguesa Pilon

Foto: Facebook Pilon
Radio Latina 2 5 min. 15.04.2019

Editora americana resgata banda cabo-verdiana luxemburguesa Pilon

O grupo Pilon foi fundado no Luxemburgo em 1986 e os grandes sucessos viriam nos anos 1990.

A editora norte-americana Ostinato Records, que no passado fez uma compilação de funaná pela diáspora cabo-verdiana, 'resgata' agora o grupo Pilon, com três álbuns editados nos anos 1990, na expectativa de lhes dar outros palcos e visibilidade.

A história do encontro entre o responsável da Ostinato Records, Vik Sohonie, e os Pilon, uma banda formada em 1986 por jovens cabo-verdianos a viver no Luxemburgo, começou quando o editor norte-americano fazia trabalho de pesquisa para a compilação de funaná "Synthesize the Soul: Astro-Atlantic Hypnotica from the Cape Verde Islands" (editada em 2017) e encontrou um CD "todo esgravatado" do grupo, junto da comunidade cabo-verdiana de Nova Inglaterra, nos Estados Unidos.

"Era uma produção 'do it yourself' [faz tu próprio, em português], muito bem feita, mas com uma capa que não fazia crer que a música fosse boa", descreveu Vik Sohonie em declarações à agência Lusa.

Foto: Facebook Pilon

Dessa descoberta, o responsável pela Ostinato Records editou um 'single' de sete polegadas com as músicas "S'ta Contente" e "Rabés" em 2017. Desde então, ficou com vontade de editar um disco inteiro dos Pilon, que, nos anos 1990, lançaram três discos com uma sonoridade que se distingue do funaná feito no arquipélago e fora dele .

"Esta é a segunda geração de músicos. São filhos da geração de Paulino Vieira, Bana e Pedrinho e foi muito fácil entrar em contacto com eles, porque estão nas redes sociais", explica.

Nos contactos com um dos elementos da banda, Antonino "Tony" Furtado, procurou perceber se ainda tocavam e o que havia para além do álbum de estreia, "Tradição", editado em 1993.

Do outro lado do Atlântico, Tony Furtado recebeu com surpresa o interesse de um jovem americano em editar a banda.

"Não esperávamos isto, fazemos música para a comunidade cabo-verdiana, não sabíamos que podia ser um estrangeiro a interessar-se pela nossa música, com tanta banda, artista e música moderna por aí", contou à Lusa, a partir do Luxemburgo, onde trabalha como técnico de eletromecânica.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

Tony Furtado acabou por enviar a Vik Sohonie os outros dois discos da banda, editados 1995 e 1997, bem como vídeos de concertos ao vivo, depois de o grupo ter reatado em 2015.

No entanto, a história do 'encontro' improvável também se faz de desencontros.

A maioria dos vídeos enviados eram de músicas mais lentas, quase baladas, mas a Vik chamou a atenção uma espécie de 'lado B' dos três álbuns, em que os Pilon tocavam "um estilo cru de cola-zouk e funaná". "Algo que não consigo descrever, porque só poderia ter sido feito por cabo-verdianos na Europa, nos anos 90", disse.

Este ano, Vik decidiu encontrar-se com os Pilon no estúdio de um cabo-verdiano em Roterdão, na Holanda, para perceber se estariam aptos para tocar ao vivo.

No estúdio, "tocaram esse estilo mais lento muito bem, mas nas músicas que escolhi para a compilação pareciam um pouco enferrujados", refere Vik, recordando que os Pilon lhe explicaram que "é esta a música que os cabo-verdianos gostam".

"Essas músicas que o Vik gosta não tocávamos há mais de 20 anos. Surpreendeu-nos que ele gostasse, porque nós gostávamos muito dessas músicas, mas a comunidade crioula não gosta. É aquela coisa: se ofereces um produto e o público diz que não quer, vais tocar o que eles querem", explicou Tony, que tem várias músicas desse género na gaveta, à espera de serem gravadas.

Para o responsável da editora, que já editou bandas e grupos do Senegal, Sudão ou Somália, foi "muito interessante essa desconexão entre aquilo que a comunidade cabo-verdiana gosta" e aquilo que via como "um estilo que pode chegar a uma comunidade muito maior".

A banda arrancou em 1985, a partir do impulso de uma associação cabo-verdiana, e eram 12 rapazes, entre os 14 e os 20 anos, a tocar, recorda Tony Furtado, que era o mais novo da formação.

"Nós não sabíamos tocar e, com o tempo, fomos aprendendo, os menos interessados saíam e a banda acabou apenas com cinco. E, desde o início, como não sabíamos música, criámos originais porque não tínhamos a capacidade para copiar as músicas que ouvíamos e isso deu-nos um ritmo diferente", relembra, salientando que as suas grandes referências eram os Bulimundo e os Tulipa Negra.

Nas músicas, além de temas de amor, relatam a emigração, o dia-a-dia da comunidade, os problemas de delinquência, da sua história de crioulos a viver na Europa.

Os Pilon tocaram pela primeira vez em Cabo Verde em 1996, um momento especial para a banda: "Foi muito importante tocar lá e sermos bem recebidos. Também éramos crioulos, tomaram-nos como seus filhos que regressavam da Europa".

Com a música sempre como 'hobby', acabaram por parar no final dos anos 1990, regressando em 2015 para um festival em Cabo Verde e desde então têm tocado ao vivo para a comunidade cabo-verdiana espalhada pela Europa.

Da banda original, restam Tony Furtado (bateria) e o irmão Ambrósio Gomes (baixo), juntando-se a eles Vitinho (teclas), que vive na Bélgica, e Carlos 'Skonche' Soares (guitarra), a morar na Holanda.

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A compilação da Ostinato, que junta duas músicas de cada um dos três álbuns dos Pilon, sai a 14 de junho e a banda está à procura de um vocalista dedicado para poder subir a outros palcos, e ver abertas portas que não sabiam sequer que existiam, salienta Tony.

"Eles apenas precisam de praticar e de ter um vocalista, porque já houve alguns álbuns reeditados com este tipo de som, com ritmos fantásticos, mas não há uma banda que represente esse som, que possa levar isto para cima dum palco. A esperança é que cheguem a um bom nível e possam tocar pela Europa, pelos Estados Unidos ou até pela Ásia", vinca Vik.

 Com este disco, com a Ostinato e com o Vik acho que podemos atingir um outro patamar", afirma Tony, hoje com 49 anos, que está a sentir um recuo no tempo com todo este interesse.

"É como voltar a ter 20 e tal anos. Temos a mesma motivação, a mesma energia. É como se fôssemos adolescentes outra vez. Voltámos à juventude", conclui.

Depois do disco dos Pilon, a Ostinato irá também reeditar uma compilação com vários artistas de funaná a viver em Cabo Verde que gravaram nos anos 1990, por forma a concluir o segundo capítulo da editora americana pelo arquipélago.

Lusa

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