Clervaux, uma abadia com alma portuguesa
Radio Latina 10 min. 24.06.2020

Clervaux, uma abadia com alma portuguesa

Os lusos José Lourosa, Rosa Brinca e António Pessoa trabalham na Abadia de Clervaux há várias décadas.

Clervaux, uma abadia com alma portuguesa

Os lusos José Lourosa, Rosa Brinca e António Pessoa trabalham na Abadia de Clervaux há várias décadas.
Foto: Álvaro Cruz
Radio Latina 10 min. 24.06.2020

Clervaux, uma abadia com alma portuguesa

António Pessoa, Rosa Brinca e José Lourosa são portugueses e trabalham na Abadia de Clervaux há várias décadas. Muito apreciados pela comunidade beneditina, que consideram família, são fundamentais nas rotinas monásticas dos religiosos e garantem que trabalham no 'paraíso'.

"Ainda não cheguei ao céu, mas devo estar muito perto", diz Rosa Brinca com um sorriso sereno que espelha a felicidade e paz de espírito que transmite à chegada à Abadia de Clervaux.

As badaladas vigorosas dos sinos da torre assinalam exatamente oito horas da manhã, altura em que Rosa entra ao serviço, mas sem stresse nem qualquer tipo de pressão que hoje atingem grande parte dos trabalhadores nos mais diversos setores da sociedade.

Esta portuguesa, natural de Santa Comba Dão, faz a limpeza da abadia e dos quartos reservados a hóspedes há quase duas décadas e diz que não quer outro trabalho. Há 19 anos veio substituir uma cunhada que se cansou do que Rosa chama hoje 'o paraíso' e lá pretende continuar até ir para a reforma.

"Este trabalho caiu-me do céu", precisa, com um suspiro. "A minha cunhada, dona do snack-bar onde eu trabalhava antes, perguntou-me se estava interessada em ficar com o lugar que ela ocupava aqui na abadia, e eu aceitei. E em boa hora o fiz porque foi o que melhor me podia ter acontecido", garante.

"O excelente ambiente que aqui se vive é fundamental. Quando chego, de manhã, é uma paz imensa. Trabalho sozinha e não há qualquer tipo de pressão. Aqui não há autoridade, ordens ou imposições. Tudo acontece normalmente e com tranquilidade", vinca. "Dizem-me se há alguma coisa urgente para fazer e eu faço tudo ao meu ritmo, ao contrário de muita gente que no trabalho sofre todo o tipo de pressões, vivendo na angústia de ter que manter o emprego a todo o custo", recorda, e precisa: "Comigo, é o contrário. Isto é como no paraíso. Aqui, são todos pessoas extraordinárias e isso não tem preço."

Católica por convicção, mas nem por isso praticante assídua, Rosa Brinca chegou ao Luxemburgo em finais de 1993, país onde diz sentir-se muito bem. Sobre as dificuldade no trabalho, admite que "há alturas em que se torna mais pesado do que noutras", mas não se queixa, porque faz tudo na paz do Senhor.

O chefe de Rosa é o padre Bernard Boulanger. Um monge que considera profundamente sábio e como um "pai" no Luxemburgo, lembrando que a comunidade beneditina de Clervaux, hoje composta por 13 monges, é a sua segunda família. "Afeiçoei-me muito a esta gente porque todos eles são pessoas extraordinárias e muito carinhosas. Preocupam-se comigo e com a minha família. Por exemplo, há cerca de três anos, tive alguns problemas com a minha filha e eles [monges] deram-me sempre todo o apoio necessário. Entrava quando queria, saía quando era preciso e deram-me sempre toda ajuda para resolver a situação… não podia ter feito isso em mais nenhum trabalho", recorda.

"Em qualquer coisa que necessito, eles estão sempre disponíveis para me ajudar. A uns, vejo-os quase todos os dias, mas um ou outro, passam-se meses que não os vejo. De qualquer forma, se Deus quiser, pretendo ficar aqui até à minha reforma", diz, com um sorriso.

Toma o pequeno almoço na Abadia, muitas vezes ao som do canto gregoriano, tradição entre os beneditinos, e quase se sente nas nuvens. Faz o horário das 8:00 às 14:00, seguido, e depois vai para casa, em Wincrange, onde reside. Sobre a pandemia, diz que a comunidade inicialmente não estava bem a par do que se estava a passar lá fora, mas depois, assegura que todos passaram a tomar as devidas precauções.

"Devido à sua condição de clausura quase permanente, pode dizer-se que eles vivem praticamente em confinamento contínuo, mas depois foram-se inteirando da realidade e agora já cumprem todas as recomendações de segurança. Às vezes brincamos e rimos com o facto de usarmos máscaras. Apesar de manterem a distância de segurança, possuem um grande sentido de humor e humanidade, reforçada pelas suas vocações religiosas."

Sente–se feliz e considera-se uma privilegiada por trabalhar na abadia. Gostava de cumprir as oito horas e ganhar melhor, mas contenta-se com as seis que faz, considerando que o dinheiro não é o mais importante na vida. "Sei que poderia encontrar um emprego a tempo inteiro, a receber mais, mas há coisas que o dinheiro não paga. Aqui, estou como em casa. E tudo o que eles têm feito por mim e pela minha família não tem preço. Não podemos pensar só no dinheiro, porque o bem-estar é fundamental e eu, aqui, estou na paz do Senhor. Quantos não gostariam de estar no meu lugar?", questiona.

Confessa que tem aprendido muito com os monges sobre as prioridades da vida e lembra que a abadia foi o seu porto de abrigo em alguns dos momentos mais delicados da sua vida. "Quando chegava aqui, parecia que tudo passava. A sensação de paz era e continua a ser muito reconfortante. Ao contrário de muitas outras pessoas que estão desejosas de chegar a casa para descansar e libertar-se de más energias, problemas e preocupações que encontram no trabalho, eu sinto-me feliz aqui e é assim quero continuar", conclui.

Os dois primos de Tondela

António Pessoa e José Lourosa são primos, e estão, como Rosa Brinca, intimamente ligados à vida quotidiana da abadia de Clervaux. Ambos naturais de Sabugosa, perto de Tondela, António vai a caminho do 28° ano consecutivo a trabalhar para a comunidade beneditina, enquanto José cumpre o seu 16° ano.

"Vim fazer uns trabalhos de reparação à abadia com uma empresa na qual trabalhava e os monges convidaram-me para ficar. Experimentei e gostei tanto que por cá fiquei até hoje", conta António, que de certa forma também foi responsável pela vinda do primo.

"Eu cheguei aqui por mero acaso", esclarece José. "Vim ajudar o meu primo a fazer um teto falso, num sábado, porque estava no desemprego. Como nessa altura um dos cozinheiros estava doente e eu percebia do assunto, eles [monges] perguntaram-me se eu não queria vir substitui-lo durante uns meses e eu aceitei. Entretanto, ele morreu e eles propuseram-me ficar a trabalhar na cozinha e na manutenção. E aqui estou há quase 17 anos", resume.

Sentem-se felizes por trabalhar na abadia, lembrando que estão "perto do céu e do trabalho" porque residem em Eselborn, a cerca de dois quilómetros do mosteiro. "Somos primos e vizinhos e arranjar um trabalho destes foi uma conjugação perfeita", dizem em uníssono com uma gargalhada, desfazendo-se em elogios à congregação que é muito apreciada por ambos.

"Trabalhar com os monges é estar em família. Somos católicos e falamos com eles como se fossem dos nossos. São pessoas maravilhosas e compreensivas. Sempre existiu grande amizade e respeito entre nós. Há muita gente que deseja chegar a casa o mais rapidamente possível para desanuviar os problemas do trabalho, mas connosco é ao contrário, é quando aqui chegamos que ficamos mais tranquilos", lembra António que em 27 anos garante nunca ter vindo trabalhar contrariado.

"Chego todas as manhãs com um sorriso e grande motivação. Aqui não existe pressão nem metas especiais. Fazemos tudo o que eles nos pedem e cumprimos sempre a nossa missão. No fundo, podemos considerar-nos uns privilegiados. Comemos e bebemos na abadia e em ocasiões especiais também somos convidados como se fizéssemos parte integrante da família", vinca.

António é o responsável dos trabalhos de manutenção fora e dentro da abadia e é considerado um 'faz tudo'. Quando chegou, a comunidade era composta por cerca de 40 monges, mas hoje apenas restam 13, facto que lamenta.

"É pena já serem tão poucos. Eram uns 40 quando vim para cá. Ao longo dos anos fui criando verdadeiros laços de amizade com quase todos eles, e quando algum morre é como se fosse uma pessoa de família", recorda. O coordenador dos trabalhos da abadia é o padre de origem dinamarquesa, Michael Jensen. reconhecido por António e José como uma pessoa espetacular, com grande coração e extremamente compreensivo.

"Se precisarmos de férias ou qualquer outra coisa, está sempre disponível para nos ajudar. Mesmo nas questões relacionadas com o trabalho, nunca houve qualquer problema. Diz-nos o que há para fazer e o resto é da nossa responsabilidade", lembra José que estabilizou a sua vida desde que veio para a abadia.

Em Portugal, viveu em Almada desde os seis anos. Jogou futebol no Sporting e Almada e depois trabalhou no Arsenal do Alfeite, Lisnave e Setenave, tendo feito ainda uns biscates como taxista em Lisboa. Inicialmente veio para o Grão-Ducado com a intenção de ficar só por dois anos, mas já cá está há 27.

"Vim para o Luxemburgo com a minha mulher para trabalharmos e ganhar dinheiro em dois anos e pagar o meu apartamento em Portugal. Hoje, já vão quase 30 anos e ainda cá estamos. Temos casa aqui e lá e agora pretendo ficar até à reforma, já que tenho o privilégio de trabalhar num local que gosto tanto", explica.

António também está perto da reforma, mas vinca que a abadia ficará para sempre ligada à sua vida. "Assim que a minha mulher tiver idade para ir se reformar, também vou. Mas sempre que puder, venho aqui visitar os monges porque eles também farão parte da minha família para sempre."

"Estamos muito contentes com os portugueses que aqui trabalham"

O padre Bernard Boulanger, segundo abade na hierarquia de São Maurício, em Clervaux, congratulou-se pela capacidade de trabalho que António, Rosa e José têm demonstrado ao longo de tantos anos, a par de uma dedicação que considera exemplar.

O monge beneditino que cumpre os seus votos na abadia há meio século, considerou o trio lusitano uma mais-valia para a comunidade abacial e louvou a atitude de todos eles, considerando-os, também, como família.

"A Rosa, o António e o José são muito importantes para nós, não só pela qualidade e capacidade de trabalho que têm revelado, mas também pela dedicação e atitude responsável e irrepreensível que todos têm demonstrado para com os membros desta abadia. Nunca se registou qualquer problema com qualquer um deles e todos trabalham com alegria, espírito de sacrifício e extrema competência. Não me lembro de nenhuma reclamação por parte deles sobre o que quer que fosse", disse, recordando um episódio onde as capacidades de António Pessoa foram destacadas.

"Um dia, tivemos um problema num dos órgãos da igreja, e deslocou-se um perito à abadia para a reparação. Ao que parece, a solução implicava a soldadura de duas peças que o referido perito não conseguiu fazer e então foi o António que acabou por resolver a situação, demonstrando ser um verdadeiro artista em qualquer tipo de trabalho", recorda.

Os monges vivem fora da sociedade e dedicam-se totalmente à religião. A sua vida é quase sempre simples, voltada para as preces, o trabalho e sacrifícios. Normalmente, não têm muitos pertences e renunciam a qualquer riqueza, mas a congregação beneditina de Clervaux não abdica daquela que representam António, Rosa e José, os três portugueses que para além de assegurarem os trabalhos de manutenção da abadia, conferem-lhe uma alma lusitana.

Álvaro Cruz

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