Casamentos entre familiares deformaram rosto de reis espanhóis
Radio Latina 4 min. 02.12.2019

Casamentos entre familiares deformaram rosto de reis espanhóis

Carlos II de Espanha

Casamentos entre familiares deformaram rosto de reis espanhóis

Carlos II de Espanha
Museu do Prado/DR
Radio Latina 4 min. 02.12.2019

Casamentos entre familiares deformaram rosto de reis espanhóis

Geneticistas e cirurgiões concluíram que os matrimónios consanguíneos provocaram deformações nos monarcas entre os séculos XVI e XVII

O prognatismo mandibular, também conhecido por maxilar de Habsburgo, que caracteriza vários reis da história de Espanha, tem, afinal, uma razão genética: os casamentos entre familiares. 

Geneticistas, cirurgiões e historiadores analisaram o perfil e os registos de estados físicos e de saúde dos reis espanhóis entre os séculos XVI e XVII e concluíram que os casamentos de consanguinidade, ao longo de gerações, provocaram deformações no rosto dos monarcas, notícia o 'El País', que ouviu vários especialistas envolvidos no estudo. 

Com base num retrato a óleo de Carlos II, o último rei da Áustria, do ramo espanhol dos Habsburgos, pintado em 1680 - teria o rei 19 anos -, o geneticista Francisco Ceballos assinala que não é apenas a mandíbula saliente que marca essa deformação genética. "Carlos II tinha um nariz, os olhos e as maçãs do rosto muito descaídos", descreve àquele jornal.  

O cientista é um dos 14 investigadores, de vários países, que concluíram haver uma relação direta entre a deformidade típica dos reis dessa linhagem e a endogamia que praticaram durante séculos. O estudo é publicado esta segunda-feira, 2 de dezembro, na revista científica 'Annals of Human Biology'. 

Da equipa de especialistas fazem também parte 10 cirurgiões maxilofaciais que conseguiram determinar o grau de deformação resultante dessa prática endogâmica de séculos, através de 66 retratos de reis, desde Felipe I (1478-1506) até Carlos II (1661-1700), que se encontram nos acervos, sobretudo do Museu do Prado, em Madrid, e no Museu de História de Arte de Viena, na Áustria.  

Incesto de séculos

Carlos II era filho de Filipe IV e Mariana de Áustria, "tio e sobrinha", começa por lembrar Francisco Ceballos. À partida esse laço de parentesco não seria invulgar nos casamentos das monarquias e aconteceria noutras casas reais europeias, sem que causasse o mesmo defeito físico nos descendentes. 

Retrato de Carlos II, datado de 1680, propriedade do Museu do Prado, em Madrid.
Retrato de Carlos II, datado de 1680, propriedade do Museu do Prado, em Madrid.
Museu do Prado/DR


A explicação para a especificidade dos Habsburgos estará, de acordo com o mesmo especialista, na "consanguinidade acumulada ao longo de gerações". Apesar dos pais de Carlos II serem tio e sobrinha, do ponto de vista genético, "era como se fossem irmãos, como se fosse incesto", sublinha. 

O investigador da Universidade de Witwatersrand, em Johanesburgo, África do Sul, lembra que os casamentos entre familiares era uma estratégia política dos Habsburgos, da linhagem da Casa de Áustria, para dominar parte da Europa. 

Em vez de guerras, promoviam o casamento de familiares regentes em países diferentes, mas com laços sanguíneos entre si, o que implicava, muitas vezes, relações sexuais entre primos ou tios e sobrinhas. 

 Gene recessivo 

Como acontece nos casamentos de consanguinidade, ocorre uma maior probabilidade de os genes recessivos se combinarem, o que se acentua quanto maior for o grau de proximidade do parentesco entre os elementos do casal. Uma pessoa recebe versões de cada gene, dos seus progenitores, uma da mãe, outra do pai, explica Francisco Ceballos. 

Em circunstâncias de não consanguinidade essas cópias genéticas serão diferentes e a tendência é para se reproduzir o gene dominante de cada uma das partes, ficando secundarizada a informação proveniente do gene recessivo. 

No caso dos Habsburgos, o prognatismo mandibular é um traço do gene recessivo que se manifestou em várias gerações de monarcas porque os casamentos endogâmicos aumentaram as probabilidades de herdar - via pai e via mãe - duas cópias genéticas igualmente defeituosas. 

 Deformações e saúde débil 

 Numa árvore genealógica com 6000 membros e 20 gerações de Habsburgos, os graus de genes recessivos presentes em cada monarca dessa linhagem foram variando e reforçando-se, com os séculos. 

Retrato de Felipe I
Retrato de Felipe I
DR


Se em Filipe I, o coeficiente de consanguinidade era de 0,025 em Carlos II ele era de 0,25. Ou seja, 25% dos seus genes eram repetidos, por ter recebido as mesmas cópia da sua mãe e do seu pai. 

 Fancisco Ceballos e o geneticista Gonzalo Álvarez, da Universidade de Santiago de Compostela, analisaram durante mais de uma década essa linhagem real, tendo em 2009 descoberto duas perturbações graves de origem genética no rei Carlos II: a deficiência combinada de hormonas hipofisárias (glândula pituitária) e acidose tubular renal. 

Segundo os cientistas, essas teriam sido as duas principais responsáveis pela sua saúde frágil, incluindo dos seus problemas de infertilidade, que resultaram no fim da dinastia.     


Ana Tomás