Bullying na escola. O testemunho de uma mãe portuguesa
Radio Latina 5 min. 10.10.2022
Luxemburgo

Bullying na escola. O testemunho de uma mãe portuguesa

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Bullying na escola. O testemunho de uma mãe portuguesa

Foto: dpa
Radio Latina 5 min. 10.10.2022
Luxemburgo

Bullying na escola. O testemunho de uma mãe portuguesa

Foi agredido por seis colegas, na escola e no transporte escolar. O caso repetiu-se e os pais abordaram os professores, a comuna e a até a empresa dos autocarros. Desesperados, apresentaram queixa à polícia em março. Sentem que as autoridades competentes nada fizeram. O novo ano letivo arrancou há menos de um mês e o pesadelo recomeçou.

Cláudia Reis e Bruno Lopes imigraram para o Luxemburgo há nove anos, vivem em Wiltz há dois e têm três filhos. O mais velho, agora com dez anos, foi vítima de bullying no último ano escolar na escola Schoulkauz, em Wilwerwiltz. A primeira agressão de que têm conhecimento aconteceu em janeiro de 2021. Mas a situação repetiu-se. Agrediram-no ao ponto de ficar com nódoas negras e chamavam nomes à mãe.

Cláudia, de 32 anos, falou à Rádio Latina no final das férias de verão. Contou que as agressões foram sofridas na escola e no transporte público, que leva os alunos à escola. A situação fez com que o menino começasse a apresentar sintomas de ansiedade. Dores de barriga, noites mal dormidas, choros frequentes e nervos, que levaram o pediatra prescrever duas semanas de baixa.

Após a baixa, a criança começou a recusar-se a entrar no autocarro. Face à situação e depois de a escola explicar que o autocarro não era da sua responsabilidade, os pais decidiram fazer uma reclamação na comuna. Aqui foi-lhes dito que a autarquia nada podia fazer por se tratar de uma linha normal e não de um transporte escolar. Cláudia e Bruno não baixaram os braços e seguiram para a empresa dos autocarros. Mais uma vez ninguém pôde fazer nada.

Cláudia Reis viu-se assim obrigada a ir levar e buscar o filho à escola diariamente. Dezenas e dezenas de quilómetros de carro por dia, numa altura em que estava já no final de uma gravidez. Uma fase muito complicada, conta.

Pais decidem levar caso à polícia

Desesperados, os pais do menino decidiram recorrer à polícia. Levaram fotografias das nódoas negras provocadas pelas agressões e apresentaram queixa. Sabem apenas que o processo foi enviado para o tribunal de Diekirch. Desde então, não ouviram mais nada.

Mais de um mês após esta entrevista, Cláudia Reis confirmou à Rádio Latina que a família continua à espera de resposta por parte da polícia. Também a rádio contactou a esquadra de Wiltz, onde a queixa foi apresentada, mas, até agora, não obtivemos qualquer explicação.

Numa reunião já neste novo ano letivo, os professores informaram a família de que a polícia foi à escola, embora a mãe do principal autor de bullying tenha dito à portuguesa que nunca foi abordada pelos agentes.


“100% das crianças passam por situações de bullying” – Associação
A presidente da associação Amazing Kids alerta que, no bullying, todos são vítimas. Os agressores também.

Uma faca na mochila. “Quando é que vão fazer alguma coisa? Quando for tarde demais?”

Cláudia Reis está convicta de que a escola pouco ou nada fez para ajudar o seu filho. Algum tempo depois de apresentar queixa na polícia, a família da vítima recebeu uma visita em casa: a mãe do principal autor do bullying. Uma criança que, juntamente com um irmão, já eram conhecidos por outros “problemas na escola”.

Nessa interação entre as duas mães, que se seguiu a um desacato entre filhos das duas famílias, na “maison relais” que frequentam, Cláudia ficou a saber que nem a escola, nem a polícia contactaram a família do alegado agressor. Ficou também a saber, pela própria mãe, que a criança chegou a levar uma faca para a escola. “Que escola é esta? Que polícia é esta?”, questiona-se, temendo que o caso acabe numa tragédia.

A portuguesa descreve os “dias horríveis” que passou, numa fase muito difícil em que, grávida, com diabetes e com dois filhos, chegou a pensar em opções como mudar de escola ou mesmo de local de residência. No seu entender, não há dúvidas. Crianças que levam armas para a escola e que já têm historial, deveriam ser expulsas do estabelecimento escolar.

Escola falha em garantir acompanhamento psicológico

Cláudia lembra que não foi uma nem duas vezes. Foram várias as ocasiões em que foram à escola falar com os professores, diretor e até com o presidente do estabelecimento escolar. Pediram acompanhamento psicológico para o menino. Mas a única ajuda que receberam foram sessões com uma professora que, segundo a portuguesa, não é psicóloga e costuma apenas dar explicações aos alunos.

Sentindo-se desamparados, Cláudia e Bruno decidiram recorrer a um psicólogo, que pagaram do seu bolso. O menino chegou a precisar de duas consultas por semana. Noventa euros por consulta.

Ministério assegura estar a acompanhar o caso

A Rádio Latina contactou a escola, que remeteu o pedido de esclarecimento para o Ministério da Educação. Num primeiro e-mail enviado à nossa redação, em meados de setembro, o diretor do Ensino Fundamental da região de Wiltz, Marc Schreiner, adianta que, “por razões de confidencialidade, nem a escola, nem a direção podem divulgar informações sobre a situação pessoal de um aluno”.

Marc Schreiner garante no entanto que “a situação é efetivamente conhecida e que a escola e a direção reagiram”. “A situação continua a ser vigiada com vista à implementação, se necessário, de medidas que se imponham em função da sua evolução”, lê-se ainda.

Questionado novamente sobre o assunto, na semana passada, o responsável insiste mais uma vez que, “infelizmente, é impossível fornecer detalhes sobre a situação de um determinado aluno”, reiterando que “tanto a escola como a direção [regional de ensino] estão a seguir de perto toda a situação de assédio e/ou agressão no âmbito das escolas do ensino fundamental da região de Wiltz”. Acrescenta ainda que “uma comunicação direta e transparente entre os pais e a escola é primordial”.

Apesar das garantias do Ministério da Educação, um dos medos desta família tornou-se realidade: o caso voltou a repetir-se. A mãe do menino de 10 anos revelou entretanto à Rádio Latina que desde que o ano letivo começou a criança voltou a ser agredida no autocarro.

Família equaciona deixar o Luxemburgo

A Rádio Latina falou uma vez mais com Cláudia Reis, antes da divulgação desta história. Após a agressão ocorrida já neste ano letivo, a família sente que as autoridades continuam sem fazer nada. Todos os dias o menino pede para não ir para a escola e a família começa a equacionar um regresso a Portugal, país que trocou pelo Luxemburgo há nove anos.

Diana Alves

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