André Letria: "Alguns ilustradores portugueses são estrelas no estrangeiro"
Radio Latina 10 min. 17.10.2019 Do nosso arquivo online

André Letria: "Alguns ilustradores portugueses são estrelas no estrangeiro"

André Letria: "Alguns ilustradores portugueses são estrelas no estrangeiro"

Radio Latina 10 min. 17.10.2019 Do nosso arquivo online

André Letria: "Alguns ilustradores portugueses são estrelas no estrangeiro"

O convite ao ilustrador português André Letria, para vir ao Luxemburgo, começou com o propósito de este realizar atividades pedagógicas com crianças, em Ettlebruck. Mas rapidamente se estendeu à publicação de uma edição bilingue - em português e luxemburguês - da obra infantil, "Se Eu Fosse Um Livro".

Publicado pela primeira vez, em Portugal, no ano de 2011, o livro conta com desenhos seus e texto de José Jorge Letria. Já a versão luxemburguesa ("Wann Ech e Buch Wier") chega este mês, através da editora Kremart, no âmbito do 10ª. aniversário da biblioteca de Ettelbruck - o local escolhido para o seu lançamento, esta quinta-feira, 17 de outubro, com a presença do autor.

Além de ilustrador, André Letria é também fundador da editora portuguesa Pato Lógico. Porém, o seu percurso profissional começou nos jornais, aquela que designa como a sua primeira escola, por influência do pai, o escritor e jornalista José Jorge Letria, com quem cria muitos dos seus livros.

Em entrevista à Rádio Latina, o ilustrador, que foi recentemente distinguido, em Portugal, com dois prémios, explica como surgiu a oportunidade ver editado este livro no Luxemburgo, fala da evolução do estatuto dos ilustradores e da cada vez maior projeção internacional de nomes portugueses.

Como é que surgiu a possibilidade de fazer a edição luxemburguesa de "Se Fosse Um Livro "e que semelhanças e diferenças tem, além da língua, da edição original portuguesa? 

É uma edição bilingue, que nos foi proposta como uma forma de celebrar os 10 anos da biblioteca de Ettelbruck. Fomos contatados por uma associação que trabalha com a  biblioteca e o convite incluía a minha vinda cá, para fazer atividades associadas ao livro. Nós, na editora Pato Lógico, temos sempre este hábito de criar workshops e oficinas pedagógicas com as crianças, a partir dos livros que editamos. E este é um dos livros que trabalhamos há mais tempo. O título já tem oito anos e, por isso, temos um conjunto de atividades que facilmente se aplicam em escolas ou bibliotecas, seja em Portugal ou no estrangeiro. E como o livro também celebra os livros como objeto mágico, pareceu ideal que ele pudesse ser usado para promover essas atividades. Os contactos acabaram por se estender à editora [luxemburguesa] Kremart, que acabou por publicá-lo aqui.

Estas atividades pedagógicas, que aqui realizou com crianças da escola do ensino fundamental d’Ettelbruck, consistem em quê?

São atividades em que se explora o trabalho da linguagem escrita e da linguagem visual, e que serve, principalmente, para que os participantes percebam que têm essa capacidade que, muitas vezes, acaba por ser reprimida, porque o trabalho da escola acaba por ser um trabalho de respostas certas, que deixa, por vezes, esquecida essa capacidade de sonhar e de imaginar coisas diferentes que todos temos e que se vão perdendo à medida que crescemos. E, portanto, o que faço com as crianças é um jogo em que lhes peço para escolherem dois cartões que tenham um grupo de cartões com uma palavra e outro grupo com uma imagem e que, a partir desse material que escolhem depois consigam trabalhar frases poéticas que mais tardam ilustram. E com isso fazemos algumas experiências que retratam um bocadinho a forma como trabalham os autores do livro.

O texto de "Se Eu Fosse Um Livro" é do seu pai, o escritor e jornalista José Jorge Letria. De resto, são vários os livros em que o André é o ilustrador e o seu pai, o autor do texto. Como é vosso processo criativo? Falam muito, discutem, não precisam de dizer nada porque já se conhecem bem?

Há sempre uma discussão. Temos a vantagem de, por nos conhecermos, saber como é que pensamos, quais são os nossos interesses e as nossas linguagens, mas há sempre uma discussão inevitável que é a discussão de construir um projeto conjunto. Cada um de nós tem as suas ideias, mas no caso desse livro, em particular, ele nasce de um texto que existia já há alguns anos e que pedi ao meu pai para me dar. Isto aconteceu numa altura em que eu já sabia que queria criar a editora Pato Lógico e este texto pareceu-me excelente para iniciar o meu catálogo. Mas o texto acabou por ser trabalhado, porque a partir do momento em que ele estava feito começou a entrar na equação a minha visão como editor e ilustrador. O objeto que eu comecei a imaginar obrigava a uma discussão e a moldar a matéria-prima, que era o texto, para que se conseguisse criar um livro sem uma fronteira entre as duas linguagens. E quando trabalhamos em conjunto também queremos que aconteça algum espaço vazio para que o leitor o possa completar. Para que isso aconteça de uma forma eficaz tem de se perceber quais são os limites do texto e os da ilustração, onde podem e não podem sobrepor-se e qual o ritmo que queremos. E depois há todo um trabalho de produção que é preciso ter igualmente em conta.

Quando é que começou a ter gosto pela ilustração?

Sempre gostei de tudo o que era a linguagem visual. Na altura em que andava na escola não fazia ideia do que era ilustração. Nós, em Portugal, não tínhamos até há pouco tempo uma tradição de ensino da ilustração, não se encarava como uma disciplina que pudesse ser ensinada como se ensina pintura, gravura... E, portanto, sempre fui aprendendo as várias linguagens visuais a pensar que iria para a faculdade de Belas-Artes, mas não fazia ideia do que era ser ilustrador. E, a certa altura, por influência do meu pai e do meio em que ele trabalhava, o meio dos jornais, dos editores e da cultura, fui conhecendo os aspetos técnicos da produção e acabei por ter uma escola, que não sabia que estava a ser uma escola, que estava a ter um efeito em mim. E quando já estava na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, a tirar o curso de pintura, eu percebi que havia uma coisa que se chamava ilustração, mesmo que se desdobre em muitas coisas diferentes, como a ilustração editorial, para jornais e revistas, ou a ilustração para livros, que é o que eu acabo por fazer de forma mais regular. Nessa altura, percebi que isso estava a revelar-se como uma possibilidade para uma atividade que eu viria a fazer mais tarde.

Além de ilustrador é editor. Como é que hoje a realidade da ilustração, em Portugal? Mudou muito?

Sim, mudou muitíssimo. Então se tivermos como ponto de referência este período em que comecei a trabalhar, de facto, é uma revolução enorme.

O que é que mudou mais?

Na altura, os ilustradores tinham até um papel menor na comparação com os escritores. Desde logo, na forma como o trabalho era encomendado, nos seus aspetos práticos, como os pagamentos ou os contratos. Dificilmente os ilustradores ficavam com os direitos dos livros em que participavam, muitas vezes nem sequer viam os seus originais devolvidos. Também havia diferenças na importância que lhes era dada , por exemplo, os seus nomes não apareciam nas capas. Não existia uma visão que considerasse os ilustradores como autores. E isso foi uma das grandes mudanças que aconteceram. Hoje em dia, os ilustradores são, de facto, autores e têm um papel preponderante na construção do tal objeto que falava antes, ou seja, as suas ideias são tidas em conta. E aconteceu também uma certa reviravolta e hoje nota-se que são muitas vezes os ilustradores o motor da criação dos livros. Nós hoje trabalhamos num formato que era praticamente inexistente há 20 anos, em Portugal, que é o formato do álbum ilustrado, em que a relação entre o texto e imagem é completamente diferente daquilo que se sente em muitos livros de há algumas décadas, em que os textos são maiores e a ilustração acaba por ser muitas vezes decorativa. E no formato de álbum ilustrado tem de dar necessariamente ao ilustrador um papel que ele não tinha nessa altura: o papel de autor. Isso faz com que hoje consigamos ter ilustradores portugueses reconhecidos internacionalmente.

Nos últimos anos, parece ter havido mesmo uma evolução crescente desse reconhecimento internacional do trabalho dos ilustradores portugueses.

Sim, e isso acontece também por outro aspeto importante, na evolução do panorama da ilustração em Portugal, que tem a ver com o papel das editoras independentes. Algumas delas, como a minha a minha, como a Planeta Tangerina, foram criadas por pessoas que vêm da área visual - sejam designers, sejam ilustradores - e que começaram a criar livros que têm características diferentes daqueles que víamos antes, que tratam o texto com o mesmo respeito com que as ilustrações são tratadas e oferecendo aos leitores uma forma diferente de encarar os livros. Não sei se é só isso que contribuiu, se é também algo que deve ser tido em conta que é o facto de essas editoras independentes estarem a insistir nessa promoção [internacional] como nunca antes outras editoras fizeram.

De que forma?

Desde que as editoras independentes vão à feira do livro de Bolonha, Itália, que os autores portugueses deste setor são mostrados além-fronteiras, o que não acontecia com as editoras mais antigas, porque muitas vezes não iam sequer a esse tipo de feira. Iam, provavelmente, à feira de Frankfurt. Mas esta não é dedicada, exclusivamente, aos livros infanto-juvenis. Portanto, a ausência de editoras na feira de Bolonha foi também uma das razões para que muitos dos autores portugueses se mantivesse na sombra em termos internacionais. E é por causa destes editores independentes que agora se sente esta vitalidade e isso nota-se nos convites que são feitos. Temos alguns ilustradores portugueses que são, de facto, estrelas reconhecidas e admiradas no estrangeiro.

Recentemente conquistou dois prémios de relevo em Portugal, na área da ilustração:  Prémio Nacional de Ilustração e o Prémio Nacional da Bienal de Ilustração de Guimarães, com o livro "A Guerra" (2018). Que importância têm para si estas distinções, atribuídas a um livro que pretende combater o esquecimento e alertar contra os totalitarismos e o controlo do poder?

Pois, o livro começa por ser importante, para mim e para o meu pai, que é o autor do texto, por causa disso. Nós fizemo-lo porque sentimos essa necessidade de exteriorizar uma preocupação que sentimos, crescente. Basta ver as notícias e perceber como o mundo está a mudar, para sentirmos esta necessidade de fazer qualquer coisa. Não porque seja uma missão artística, mas no fundo porque é o nosso papel como cidadãos. E a nossa linguagem é esta, por isso é a que usamos para falar daquilo que nos preocupa. E o livro, para nós, é importante por isso. Para mim é importante também pela forma que o livro tem, pelo facto de ser um livro perturbador, de certa maneira, que ao mesmo tempo está a ser reconhecido artisticamente. E até pelas vendas internacionais que já fizemos e pelas traduções que estão previstas, sentimos que pode ser eficaz como objeto para alertar consciências. Portanto, o livro começa a mostrar que valeu a pena ser feito, que pode falar com um público muito alargado sobre essas preocupações, um sinal de alarme para chamar a atenção dos leitores para a importância da memória, para que não esqueçam aquilo que é a História recente. E as distinções acabam por ser um reconhecimento útil também, porque o livro levou três anos a ser concluído. O facto de ser premiado acaba por ser uma recompensa que sinto como artista.

Disse que estão previstas traduções. Para que línguas será traduzido esse livro? Haverá também uma edição luxemburguesa?

Bom isso não sei. Não sei se ja chegaram a conhecer o livro cá, mas talvez a minha vinda aqui possa proporcionar isso. O que posso dizer é que neste momento existem traduções a serem preparadas para francês - coreano, já está publicado - chinês, italiano, alemão, inglês, polaco. De memória, são estas as línguas para que estão a ser traduzidas e há sempre expectativa de poderem ser mais.    

Ana Tomás 


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