Ana Moura. “Há um interesse dos luxemburgueses pela nossa música”
Radio Latina 10 min. 07.02.2020 Do nosso arquivo online

Ana Moura. “Há um interesse dos luxemburgueses pela nossa música”

Ana Moura

Ana Moura. “Há um interesse dos luxemburgueses pela nossa música”

Ana Moura
Foto: Frederico Martins
Radio Latina 10 min. 07.02.2020 Do nosso arquivo online

Ana Moura. “Há um interesse dos luxemburgueses pela nossa música”

A cantora atua já este domingo no Casino 2000, em Mondorf-Les-Bains, pelas 16h, e promete levar ao palco os seus sucessos de carreira e versões de temas que não se esgotam no fado.

  Visita regular ao Luxemburgo, Ana Moura volta ao Grão-Ducado, no domingo, para apresentar um novo espetáculo, no Casino 2000, em Mondorf-Les-Bains. Com um best of lançado em 2017 e a preparar novo disco, a fadista trará, para o alinhamento do concerto, os seus êxitos de carreira e versões de temas que fazem parte do seu universo musical e que têm influenciado o seu percurso e a sua história como artista.

Sobre o novo registo de originais que está a preparar - o sucessor de 'Moura', editado em 2015 -, a cantora não adianta ainda grandes detalhes, até porque, justifica nesta entrevista, começou "a escrever outras músicas", que fazem mais "sentido neste momento da [sua] vida e que acabam por dirigir o disco para outra direção".

O novo álbum conta com a participação do produtor americano Emile Hayne, que já colaborou com nomes maiores da cena internacional, de Beyoncé a Lana del Rey, e deverá refletir uma diversidade de estilos, mantendo o fado como base. Um caminho que a fadista já tem trilhado e que está plasmado na canção 'Vinte Vinte', recentemente editada e onde a Ana Moura se juntaram Conan Osíris e o produtor de eletrónica Branko. 

O tema, que sublinha o interesse cada vez maior da fadista em cruzar diversos géneros da lusofonia, é definido pela própria como "uma mistura entre esta herança histórica que tem o nosso fado, que tem a música angolana e que tem a música cabo-verdiana". "Isso representa a nossa cultura e representa-me a mim também", acrescenta Ana Moura, que nos últimos meses ainda arranjou tempo para se estrear no mundo das jóias e conquistar a diva da pop, Madonna.  

Leia, abaixo, a entrevista na integra.

Está de regresso ao Luxemburgo, este domingo. O que é que este espetáculo traz de novo?

Uma vez que ainda não saiu o meu novo disco, estou a revisitar temas antigos e também a fazer versões de músicas que fazem parte do meu universo musical, mas que nunca gravei - canções que são parte da minha história e que contribuíram para aquilo que eu faço na música e que me influenciaram. São versões adaptadas à minha linguagem e à dos meus músicos, com novos arranjos.

Considerando que tem um universo musical abrangente, são versões só de fados ou também de outros géneros musicais?

São também músicas fora do universo do fado.

Sobre o novo disco, que chegou a ser avançado como mote da nova digressão, mas que ainda está a preparar, o que é pode adiantar?

Posso adiantar muito pouco. Aliás, quase nada, porque só as bases é que ainda estão gravadas e neste momento estou à espera que o produtor acrescente novos instrumentos. Inclusivamente, eu já tinha pensado num nome e chegado a divulgar na comunicação social, mas até em relação ao nome já estou em dúvida se vai ser esse ou não.

O nome inicialmente avançado era “Atlântico”.

Exatamente, inicialmente seria “Atlântico”, mas entretanto eu comecei a escrever outras músicas - quando o tempo é alargado acontece muitas vezes isto -, músicas que fazem imenso sentido neste momento da minha vida e que acabam por dirigir o disco para outra direção. Por isso não sei se “Atlântico” será o nome [definitivo]. 

O produtor de que fala é o americano Emile Hayne, que tem trabalhado com muitos e grandes nomes da pop internacional.

Sim, tem trabalhado com a Lana del Rey, de cujo o universo musical eu gosto imenso, Bruno Mars, Florence and The Machine. São sonoridades bastante distintas, mas tem sido incrível estar a trabalhar com ele em estúdio.

O conceito musical do novo disco, refletirá também essa diversidade sonora, tanto do trabalho do produtor, como das suas influências? Ou seja, é um disco que vai além do fado, ou um disco de fado mais próximo dos que nos tem habituado, de fado com algumas influências ?

Será um disco de uma fadista porque isso é indissociável daquilo que eu sou, mas que canta também outras coisas e é influenciado por outras coisas, que fazem parte daquilo que eu oiço e da minha geração. Não será um disco só de fado tradicional, isso não será. Mas será um disco com fado tradicional e com a interpretação de uma fadista.

Recentemente lançou o tema ‘Vinte Vinte’, que cruza vários estilos e intervenientes de outras áreas musicais, como o Branko (ex-Buraka Som Sistema) e o Conan Osíris. Esse tipo de projetos é algo que gostaria de aprofundar mais.

Sim, sem dúvida. Eu, o Branko e o Conan somos muito amigos e isso surgiu assim de uma forma muito espontânea. Aliás, nem sequer era uma música para ser editada, era uma música para ser cantada num desfile do Luís Carvalho e entretanto nós fomos para estúdio. Eu fiz a melodia, o Conan, que se chama Tiago, fez a letra e o Branko fez o beat. Gostámos tanto da música e a reação das pessoas que estavam no desfile foi tão grande, com a quantidade de stories [no Instagram] que foram partilhadas, que nós pensámos em editar a música. Porque as pessoas pediam-nos isso e perguntavam quando é que a música ia sair. Inicialmente, a música era só cantada por mim, mas eu desafiei o Conan para cantar também e acabou por resultar numa coisa muito gira, porque o ouvimos num registo muito diferente daquele que as pessoas estão habituadas e que funciona belissimamente nesta música. E é um universo que me interessa explorar, sim. Tanto o Conan como o Branko são músicos que espelham aquilo que representa Lisboa neste momento, mas não só Lisboa, [representam] os portugueses. Uma mistura entre esta herança histórica que tem o nosso fado, que tem a música angolana e que tem a música cabo-verdiana, e isso representa a nossa cultura e representa-me a mim também.

Além de essa música ter sido criada para o desfile do Luís Carvalho, na ModaLisboa, onde a interpretou, a sua ligação ao mundo da moda também se materializou recentemente ao nível criativo, mas neste caso através do design de joias com a Portugal Jewels. Que balanço faz dessa experiência?

Tem sido incrível, até porque nunca pensei ter jeito para desenhar. A minha mãe desenha, é a área dela mesmo, o meu irmão desenha muito bem e eu, que dizer...eu não tenho escola [de desenho] absolutamente nenhuma, mas adoro jóias e sempre fui habituada a usar jóias e a ver a minha mãe e a minha avó sempre com jóias e a transformá-las, inclusivamente, porque a minha mãe quando se fartava de uma jóia ia muitas vezes às joalharias que frequentava e transformava-as noutras coisas. Eu achava esse processo criativo apaixonante e também passei a fazer o mesmo com as minhas próprias jóias. Quando este desafio me foi proposto pela Portugal Jewels, eu disse que aceitava não só dando a cara mas sendo eu a desenhá-las, mas nunca acreditei mesmo que fosse capaz de fazer uma coleção tão extensa. E conto ainda alargá-la, confesso. Por isso, o balanço é muito positivo, as pessoas têm gostado da coleção, porque é inspirada também na joalharia tradicional portuguesa, mas com elementos que fazem parte da minha vida, das minhas crenças e ideologias. Estou muito feliz com o resultado.

E foi um resultado que agradou também à Madonna, que usou um dos colares da sua coleção na altura dos concertos do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, da “Madame X Tour”. Como é que isso aconteceu?

Pois é [risos]. A Madonna já tinha ido ver o meu concerto ao Coliseu, o ano passado, e agora quando esteve em Lisboa convidou-me para ir a uma jam session que ela fez com os músicos dela e a equipa dela. E eu levei-lhe uma jóia para lhe oferecer e ela adorou e pô-la logo ao pescoço. E eu fiquei felicíssima, não é? No dia seguinte ela foi também fazer o Coliseu e disse em palco que estava a dar os concertos no Coliseu porque me tinha visto em palco lá e eu fiquei mesmo feliz por ouvir essas palavras.

Voltando à sua digressão e ao Luxemburgo, a Ana tem uma relação já longa com o país. Inclui sempre o Grão-Ducado nas suas tournées europeias. Por que faz questão de visitar sempre o Luxemburgo com as suas digressões?

Sempre que tenho ido ao Luxemburgo as salas estão sempre cheias. E as pessoas são tão generosas comigo que faço sempre questão de passar pelo Luxemburgo. Aliás, eu até acabo por vir ao Luxemburgo mais do que uma vez por ano. Já não tenho disco novo há algum tempo e mesmo assim as pessoas vêm e gostam do que o que eu lhes tenho para oferecer e isso deixa-me extremamente feliz.

Tem notado diferenças, algum tipo de evolução, no tipo de público que assiste aos seus concertos aqui no Luxemburgo?

Sim, cada vez são mais conhecedores das minhas músicas. Sinto que conhecem o meu repertório, não só os últimos álbuns, mas também os mais antigos.

E não é um público somente português. Creio que tem cada vez mais luxemburgueses e pessoas de outras nacionalidades a assistir aos seus espetáculos.

Sim, sim. Há um interesse dos luxemburgueses pela nossa música. Creio também que seja pela grande comunidade portuguesa que existe no Luxemburgo. Já estão familiarizados com a nossa cultura e deixa-me muito feliz que procurem a nossa música.

Tem sítios especiais que goste sempre de visitar, algum restaurante preferido ou memórias que goste de reavivar quando vem ao Luxemburgo?

Confesso que, de facto, há um restaurante que eu adoro – não é português – mas eu sou péssima com nomes.

E há alguma história que guarde, em particular, das suas visitas ao país?

A história que guardo é a de um reencontro que tenho com a mãe de uma grande amiga minha de infância que emigrou para o Luxemburgo. Eu já tinha vindo aqui imensas vezes atuar e ela já estava aqui a viver há muitos anos e ela nunca tinha conseguido vir ver um concerto meu. Só mesmo agora, há pouquíssimo tempo, é que a mãe da minha amiga veio assistir ao meu concerto e as palavras dela...Fartei-me de chorar! Porque eu dedico-me muito ao trabalho e acho que todos nós, os portugueses, somos assim. E esta senhora disse-me que nunca tinha conseguido ver um concerto meu porque estava sempre a trabalhar. Aos anos que ela aqui estava e nunca tinha conseguido ver um concerto meu e já não me via desde miúda. E então ela disse -me: “Ana, tenho visto que estás em tournée constantemente, sempre a trabalhar. Olha para mim e usufrui da tua juventude, da tua vida. Não trabalhes, só”. E eu fiquei mesmo emocionada. Mas isso é o espelho mesmo da nossa identidade, somos um povo tão trabalhador que deixamos que esses momentos passem ao lado nas nossas vidas e esse momento marcou-me imenso. E penso que muitas pessoas que estão imigradas aqui se identificarão.  


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