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Vitor Constâncio. "As taxas negativas não devem durar muitos mais anos"
Economia 3 min. 20.12.2019

Vitor Constâncio. "As taxas negativas não devem durar muitos mais anos"

Vitor Constâncio. "As taxas negativas não devem durar muitos mais anos"

Foto: Gerry Huberty
Economia 3 min. 20.12.2019

Vitor Constâncio. "As taxas negativas não devem durar muitos mais anos"

O português que foi vice-presidente do BCE está preocupado com uma possível crise económica e afirma que as taxas de juros negativas não estão a funcionar para reestruturar as economias. Tudo isso numa entrevista exclusiva dos nossos colegas do Luxembourg Times, que o Contacto dá aqui uma pequena parte como aperitivo.

Vitor Constâncio parece gozar da liberdade que tem agora por já não ser o segundo nos comandos do BCE. A partir da sua conta no Twitter, ele debate alegremente com outros sobre uma vasta gama de temas económicos - algo impensável para um banqueiro central activo. Numa entrevista exclusiva aos nossos colegas  Douwe Miedema e Pierre Leyers do Luxembourg Times falou, aos 76 anos de idade, dos condicionalismos que existem desde de 2000 e das consequências da intervenção do banco central europeu na fixação de taxas de juro negativas. Políticas que conheceu de perto, já que foi primeiro chefe do banco central de Portugal e depois vice-presidente do BCE, cargo do qual se reformou em maio de 2018. 

O antigo quadro dirigente do BCE manifestou-se contra a manutenção por muito mais tempo das taxas de juro negativas.  " Já há algum tempo que digo que sou contra a continuação da utilização desse instrumento de política monetária. As taxas negativas não devem durar muitos mais anos. Devido a várias razões, a primeira delas é a rentabilidade das empresas financeiras. E por causa dos fundos de pensão, que enfrentam problemas de futuros níveis de renda para os aposentados. E finalmente, as taxas negativas duradouras permitem que as empresas fracas continuem a existir, o que afecta negativamente a produtividade."

Vitor Constâncio sublinha, no entanto, que pode não ser o momento de reverter essa política devido às nuvens negras que se avizinham na economia mundial.  "O problema é que a partir de há quase um ano, há uma preocupação crescente no mundo com a possibilidade de uma nova recessão económica. Portanto, não é o momento de reverter esta política. "

Um dos aspetos negativos que o economistas português refere, é que apesar do dinheiro ser quase dado a determinados Estados está-se a fazer muito pouco para reestruturar a economia.  "Alguns países são pagos para emitir dívidas durante 30 anos. Deviam fazer investimentos que são necessários no seu país. Mas eles não estão a tirar partido disso. E depois, claro, outros países, também precisariam de reformas estruturais. Certamente o poderiam fazer se os países emitissem mais dívida que elevasse as taxas de juros, mesmo que estivessem oferecendo ativos que são muito procurados. 

Para o economista o BCE tem um papel para combater as alterações climáticas, até porque elas podem enfraquecer o próprio sistema financeiro, mas o papel principal deve caber aos Estados.  "Aa mudanças climáticas são uma questão real, muito crucial para o futuro da humanidade. Alguns ativos que os bancos detêm estão ligados a setores que contribuem muito para a poluição. Esses ativos podem-se tornar menos atrativos e mais fracos no futuro, e assim podem criar um problema de estabilidade financeira para esses bancos e seguradoras", argumenta, para concluir:  "Espera-se que as instituições públicas dêem um bom exemplo para o resto da sociedade. Assim, os bancos centrais não devem investir em ativos de empresas poluidoras e não devem comprar obrigações de setores que contribuem para a poluição. Mas o que eles podem fazer não é a parte mais importante da solução. A solução está relacionada com a regulamentação ambiental, impostos e subsídios e com alguns investimentos públicos em infraestrutura. Todas estas quatro coisas estão nas mãos dos governos, não dos bancos centrais."

O economista e antigo líder do PS defendeu que o aumento das desigualdades coloca grandes problemas às economias e à própria democracia.  "Uma consequência do aumento da desigualdade após a crise financeira foi uma perda de credibilidade da política. Precisamos de mudanças significativas na tributação para resolver essa questão. Se olharmos para os impostos de renda nos últimos 30 anos, vemos uma grande queda em todos os países das taxas de impostos mais elevadas. Isso teve consequências, é claro. Felizmente, há uma diferença entre os EUA e a Europa a este respeito. Se olharmos para os números da distribuição do rendimento antes e depois dos impostos e outras transferências, na Europa, a desigualdade é significativamente reduzida. Nos EUA essa desigualdade é muito menos atenuada.", disse.  

 

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