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Uma recuperação em K
Opinião Economia 5 min. 30.12.2020

Uma recuperação em K

Uma recuperação em K

Foto: AFP
Opinião Economia 5 min. 30.12.2020

Uma recuperação em K

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
O impacto desequilibrado da pandemia vai tornar-se ainda mais claro: os mais vulneráveis são os mais infectados.

O título acima não era suposto ser este. Ao começar a escrever sobre 2021, tentei várias combinações que incluíssem conceitos como “progresso”,“oportunidade” e até mesmo “primavera”. 

Só que no fim de contas apercebi-me que estava a cair na falácia de querer transmitir um otimismo pouco credível. Não obstante os charlatães da autoajuda, que praticamente nos proíbem de formular pensamentos negativos, ou os astrólogos que, baseados nas rotações de Saturno, nos prometem um 2021 cheio de maravilhas (curiosamente o mesmo que tinham feito em 2020), a verdade é que este vai ser outro ano muito complicado no planeta Terra.

Estratégia de saída

Há um problema premente a resolver: a pandemia global. 2020 terminou com o fortíssimo sinal de esperança dado pelo início das campanhas de vacinação, mas também com a angústia de descobrir uma variante “inglesa” do vírus ainda mais contagiosa. Assumindo que a vacina também é eficaz sobre as mutações do vírus e que os diferentes países são eficazes na sua compra e distribuição – dois enormes “se” -, podemos esperar que no início do verão um número suficiente de pessoas (ou seja a maioria da população, incluindo os grupos de risco) já esteja imune, condição essencial para que possamos sair do fundo do poço e dedicar-nos à recuperação.

L, W, U ou V? K

Uma forma visual de explicar os diferentes tipos de recuperação económica é dar-lhes a aparência de letras, de acordo com o formato apresentado pelo gráfico de crescimento do PIB (o indicador mais utilizado). As crises de 1929 ou 2008 parecem um L, ou seja uma linha vertical de queda a pique e depois uma linha horizontal que significa uma longa estagnação lá no fundo. Ao final de algum tempo a atividade económica acaba por reacelerar, e o gráfico por parecer-se mais com um U. O que os economistas desejam conseguir é que a recuperação tenha a forma de um V: uma subida rápida depois de uma queda profunda, mas curta. O receio é que a crise causada pela pandemia se pareça muito mais com um W: uma descida, uma subida e nova descida, caracterizando uma recessão dupla causada por novos confinamentos que mandem ainda mais empresas à falência.

A este jogo particular está a chegar uma nova letra. Do traço vertical à esquerda do K saem duas pernas divergentes: uma sobe, a outra afunda-se. A linha que sobe representa os poucos sectores que recuperam rapidamente (ou até beneficiam) da crise provocada pela pandemia, enquanto que no traço descendente a maior parte da sociedade continua o seu inexorável declínio. Aumentará assim o flagelo do nosso capitalismo tardio, uma desigualdade que contém em si mesma as sementes das próximas crises.

Na mó de cima estão os que já lá estavam, a pequena minoria que detém ações ou propriedades. O preço mediano de uma casa subiu 16% em 2020 nos EUA, e os números em vários mercados europeus, incluindo o Luxemburgo, não devem ficar muito aquém. Os mercados financeiros acabam 2020 a bater todo o tipo de recordes, sobretudo depois da descoberta da vacina anti-covid. As grandes empresas de tecnologia acumulam quantidades obscenas do vil metal – a Amazon de Jeff Bezos (que já era o homem mais rico do mundo) atingiu 6 mil milhões de euros de lucros em apenas três meses, enquanto Elon Musk viu a “sua” Tesla valorizar-se em 7 mil milhões em um único dia.

Na mó de baixo estarão (ainda mais) em 2021 todos aqueles, e são a maioria, que vivem apenas do seu trabalho – sendo que para muitos deles esse trabalho desapareceu, está em vias de desaparecer, ou só se mantém à tona porque artificialmente ligado à máquina de apoios estatais. PME – sejam de serviços ou industriais -, restaurantes, hotéis estão a falir em catadupa. E pessoas sem emprego não têm rendimentos para pagar rendas da casa, nem prestação do carro, nem outros consumos que façam girar a economia, o que vem agravar o problema inicial. O impacto desequilibrado da pandemia vai tornar-se ainda mais claro: os mais vulneráveis são os mais infectados, os empregos com menos qualificações são os que mais desaparecem, o funcionamento improvisado das escolas afeta sobretudo os jovens de famílias mais pobres. O descontentamento geral só pode crescer, e com ele os votos em partidos extremistas.

Há vida para além do défice

2021 não se esgota na economia, por muito que esta só beneficie alguns. As profundas e rápidas mudanças desencadeadas pela pandemia, por um lado, e o limbo em que se encontra grande parte da Humanidade, por outro, constituem uma genuína e dificilmente repetível janela de oportunidade para abraçar mudanças significativas no nosso modo de vida que nos permitam enfrentar e minimizar a emergência climática. 2021 será o ano em que a Europa disponibiliza uma “bazuca” (de dinheiro) para investir em investigação, transição energética, infraestrutura “verde” e tecnologia. A revolução digital entrou em modo turbo e pode ajudar naquele desígnio – viagens de negócios em aviões poluentes e trajetos casa-trabalho em carros intoxicantes deixaram, da noite para o dia, de ser tão necessários. Faremos mais desporto – jogging ou bicicleta – e valorizaremos mais a família e os bons amigos. 

Para quem gosta de desafios, 2021 apresenta-se cheio deles.

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