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Super quarta-feira
Editorial Economia 3 min. 28.05.2020

Super quarta-feira

Super quarta-feira

Foto: Etienne Ansotte/European Commiss
Editorial Economia 3 min. 28.05.2020

Super quarta-feira

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Esta crónica é um pouco diferente porque se debruça sobre algo que está a acontecer... a 27 de Maio: a “super quarta-feira” em que a Europa descobre o seu futuro próximo.

Os americanos chamam “super terça-feira” ao dia com maior número de eleições primárias, onde cada grande partido escolhe quem vai nomear para mais tarde se vir a bater pelo cargo de presidente. Em 2016, foi nessa terça-feira fatídica que se tornou claro que Trump e Hillary estavam lançados para ser a escolha final dos republicanos e democratas; este ano, o dia 5 de Março coincidiu com os inícios da pandemia pelo que o drama abandonou a corrida eleitoral. Sanders voltou a perder e Trump, como incumbente, não tem rival no seu campo.

Esta crónica é um pouco diferente porque se debruça sobre algo que está a acontecer... a 27 de Maio: a “super quarta-feira” em que a Europa descobre o seu futuro próximo.

Ou dizendo-o de forma menos grandiloquente: o dia em que, depois de três adiamentos sucessivos, a presidente da Comissão apresenta em Bruxelas o seu plano de recuperação económica e as prioridades da UE para os próximos anos. O primeiro de vários momentos da verdade para a Europa na luta, que se adivinha feia, contra a depressão económica.

A ausência ensurdecedora no combate médico à epidemia já foi suficientemente danosa; agora o combate económico é uma luta que a Europa unida não se pode dar ao luxo de perder, sob pena de deixar de ser unida – na verdade, sob pena de deixar de ser Europa. A recessão afectará de forma muito desigual os diferentes Estados-membros; a título de exemplo, especula-se que a economia espanhola poderá cair (percentualmente) tanto como em 1936, ano de início da guerra civil no país – algo que demorou 17 anos a recuperar. Sem auxílio, alguns países ficarão irremediavelmente para trás, destruindo qualquer veleidade de coesão. Essa é uma das duas grandes veredas para a saída da crise: mais proteccionismo, mais nacionalismo, cada um por si e se possível lucrando com a desgraça do vizinho, emprestando-lhe com juros o suficiente para que a sua economia não afunde – e aprisionando-o numa armadilha de dívida persistente e controladora. Já foi feito antes e é esse o remédio caduco que acabam de receitar os países do próprio umbigo, a saber Holanda, Suécia, Dinamarca e Áustria.

Nas entrelinhas desta proposta, no entanto, vislumbra-se a prevalência da solução ambiciosa, afinal o caminho que (tenho toda a esperança) será claramente apontado hoje: uma resposta ao mesmo tempo comum e potente, na linha do apresentado por França e Alemanha na semana passada, e que equivale a 500 mil milhões de euros adicionais para os fundos comunitários – ou seja, transferências e não empréstimos – que, através de engenharias financeiras, podem chegar ao triplo desse valor. Provavelmente não chega ainda, mas significa a viragem refundadora para a Europa, o seu “momento hamiltoniano”.

Hamilton foi o primeiro ministro das Finanças de uns EUA recém-independentes. Os então 13 Estados eram muito pouco unidos e estavam arruinados pela guerra. Hamilton, que anos antes tinha escrito “uma dívida federal, se não for excessiva, será para nós uma bênção nacional, um poderoso cimento da nossa União”, insistiu em que o governo central assumisse as dívidas contraídas por cada Estado e as pagasse na totalidade aos credores, acreditando que eles iriam reutilizar essas verbas investindo na recuperação. Ganhou em ambos os campos, económico e político, e contribuiu de forma decisiva para criar a superpotência que conhecemos hoje.

Esta super quarta-feira saberemos quanto dinheiro estará disponível para a reconstrução, como vai ser obtido e distribuído, e também onde será ele gasto. A ideia da Comissão passa por uma espécie de fusão entre os antigos planos do Pacto Verde e da Agenda Digital; numa primeira fase, os investimentos vão ser concentrados nos sectores da construção (por exemplo para maior eficiência energética) e do digital. Mas tão importante como isto será passar a ideia do relançamento, uma mensagem de esperança: a possibilidade de sairmos disto tudo talvez até um pouco melhor do que entrámos.



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