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Sofrer de lucros extraordinários
Opinião Economia 5 min. 02.12.2022
Portugal

Sofrer de lucros extraordinários

Opinião Economia 5 min. 02.12.2022
Portugal

Sofrer de lucros extraordinários

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Muitas empresas estão a sofrer de lucros extraordinários. Dizem não saber bem o que são. Tem sido um magnífico forrobodó de sonsice.

Tenho coleccionado pérolas. Confesso que me dá prazer sentar-me a ler os jornais pela manhã e fazer "recortes da imprensa". Gosto dos económicos. São, em geral, bem feitos – lamento não ter capacidade para uma assinatura do Financial Times (350 euros/ano pelo melhor jornal do mundo). Mas também porque nos mostram e ensinam praticamente tudo sobre a cabeça (e o mundo) dos poderosos.

O Expresso, o Observador e o Público também lá andam sempre: entrevistas de vida de x em x meses a banqueiros/CEOs/presidentes de Confederações, Associações da grande concentração; soundbytes do relatório & contas anual, daquela conferência patrocinada pelo jornal onde todos parecem estar numa jantarada, ou na reacção a uma medida (ou ameaça) do governo que tenha quaisquer laivos de esquerda, i.e., de distribuição da riqueza. O confronto e a responsabilização do poder dos mais fortes pela imprensa desaba facilmente diante destes senhores e senhoras de tailleur e camisa engomada que são, efectivamente, quem manda nisto tudo.

Sofrem muito, os poderosos. Nem dormem. Mantêm-se alerta não vá o governo mais à esquerda de sempre taxá-los. E têm chorado muito. Sofrem tanto que este ano estão a sofrer de lucros. Extraordinários. Dizem não saber o que são – lucros extraordinários ou excessivos. Tem sido um magnífico forrobodó de sonsice.

Vejamos: Vitor Bento, Presidente da Associação Portuguesa de Bancos: "O facto de os lucros aumentarem não os torna excessivos. Não sei o que são lucros excessivos" (Expresso). Não seja por isso, nós explicamos como: "Comissões disparam e margens recuperam. Como os bancos em Portugal estão a ganhar 7 milhões ao dia em 2022" (CNN).

Há mais. João Dolores, administrador financeiro da SONAE: "Não reconhecemos o conceito de lucros anormais ou excessivos. Não vemos lucros extraordinários em nenhum dos nossos negócios como possível resultado de estarmos a tirar vantagem do contexto inflacionista. Pelo contrário."

Pelo contrário: os preços no Continente só não estão mais elevados porque "nós" (os dos lucros) é que pomos um travão nisto, senão iam por aí acima. Como diz Gonçalo Lobo Xavier, presidente da APED, "temos estado ao lado do país" (Expresso). Ou como disse antes, de forma mais explícita: "Os preços ainda têm espaço para aumentar" (Negócios).

Também há mulheres. Paula Franco, Bastonária da Ordem dos Contabilistas, em entrevista ao Nascer do Sol: "Temos que perceber que as empresas existem para dar lucro. Existem para trazer rentabilidade, quer no pagamento de salários aos seus trabalhadores, criando riqueza, quer na distribuição de dividendos aos seus investidores. Se os investidores não tiverem retorno, não investem. Por isso é que as empresas criam riqueza. Não nos podemos esquecer – e aí não penso da mesma maneira que os partidos de esquerda – que quem traz riqueza aos países são as empresas com a criação de emprego."

Não pensa da mesma maneira que "os partidos de esquerda" porque estes pensam, e bem, que "quem traz riqueza aos países" são os trabalhadores com o seu trabalho. Com a deficiente "distribuição" destes lucros não só produzem a riqueza, não a recebem de volta, como têm visto o pouco que recebiam agravado pela inflação galopante e descontrolada. E ainda se dão "ao luxo" de contribuir para uma excessiva (lá está, extra-ordinária) transferência dessa riqueza do trabalho para o capital.

Sabemos que esta inflação não começou em 2022, vinha de meados de 2021 na recuperação pós-pandemia, com o papão da "escassez" na voracidade da retoma, sobretudo nas energéticas. E foi fortemente agravada pela invasão da Ucrânia e as sanções à Rússia. Primeiro na energia, depois em todo o consumo. Ela não existe só em Portugal. No entanto: "Portugal é terceiro país europeu onde a comida sobe mais que a inflação" (ECO) e "inflação em Portugal acima da média dos países do euro" (Público).

Num escrutínio algo raro, a Sábado trazia um excelente tema de capa com 9 páginas sobre lucros extraordinários de empresas na distribuição, conhecidas pela exploração laboral, baixos salários, chantagem sobre fornecedores e cartelização de preços. Daí a multa de 706 milhões de euros que a Autoridade da Concorrência vai aplicar ao Continente, Pingo Doce, Auchan, Intermarché e Lidl, e a marcas como Superbock, Unilever ou Sumol, no que chama de "conspiração equivalente a um cartel" "que elimina a concorrência, privando os consumidores da opção por melhores preços".

Mas parecem continuar a sofrer, como explica João Dolores da SONAE (Observador): "Estamos a sentir uma pressão tremenda na nossa base de custos e uma deterioração das margens, acho que devemos desmistificar esta ideia [de lucros excessivos]." "Continuamos a trabalhar num mercado extremamente competitivo, todos os concorrentes lutam por quota de mercado e tentam oferecer a melhor relação custo-benefício aos consumidores." Dito assim, depois de sabermos da "conspiração", fica mais claro quem é que cria esta riqueza e quem paga estes "lucros extraordinários".

(Autora escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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