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"Queremos colocar noutro patamar as relações económicas entre Portugal e o Luxemburgo"
Economia 4 12 min. 09.05.2022
Embaixador de Portugal

"Queremos colocar noutro patamar as relações económicas entre Portugal e o Luxemburgo"

Embaixador de Portugal

"Queremos colocar noutro patamar as relações económicas entre Portugal e o Luxemburgo"

Foto: Chris Karaba/Luxemburger Wort
Economia 4 12 min. 09.05.2022
Embaixador de Portugal

"Queremos colocar noutro patamar as relações económicas entre Portugal e o Luxemburgo"

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
António Gamito, embaixador de Portugal no Luxemburgo, diz que a dimensão económica e empresarial da visita do Grão-Duque Henri, a 11 e 12 de maio, é muito importante. A entrevista ao Contacto.

Qual a importância da primeira visita do Grão-Duque, depois da pandemia, ser a Portugal? 

Esta visita de Estado esteve agendada para 2020. A pandemia obrigou a adiá-la duas vezes, o que foi frustrante para quem queria, o mais cedo possível, organizá-la como instrumento chave para alavancar o relacionamento bilateral entre os dois países. Vamos ter os Grão-Duques em Portugal com um programa intenso, que tem uma parte política importante, porque acompanham os Grão-Duques quatro ministros luxemburgueses. Por outro lado, tem uma vertente em que coloquei um acento tónico, desde o princípio, que foi a dimensão económica e empresarial. 

Neste sentido, vamos ter uma missão económica luxemburguesa em Portugal. Uma missão organizada pela Câmara de Comércio do Luxemburgo e pela Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) , naturalmente com o apoio da Embaixada portuguesa. O objetivo é o de aproveitar a visita de Estado a Portugal dos Grão-Duques, aliás julgo ser a primeira vez que um soberano luxemburguês se desloca ao mesmo país duas vezes.

O que tem uma grande importância...

Há uma intimidade grande forjada ao longo do tempo, dos 130 anos de relações diplomáticas, muito consolidadas pela passagem da Grã-Duquesa Charlotte em fuga quando os nazis ocuparam o Luxemburgo e que esteve temporariamente em Portugal refugiada. Depois pela atitude do seu filho, o Grão-Duque Jean, que abriu as portas do Luxemburgo a muitos portugueses que fugiam da falta de condições económicas em Portugal, do regime político da altura e da guerra colonial, nos finais dos anos sessenta. Veio para aqui muita gente que foi bem acolhida pelos luxemburgueses que lhes deram outras condições de vida, o que lhes permitiu poupar e sustentar os entes queridos deixados no país de origem. Hoje, há aqui cerca de cem mil portugueses. 

(...) continuamos a ter muitos portugueses com problemas ainda por resolver, como os que encontrei quando aqui cheguei.


O casal João e Anabela, com os filhos, Iuri, Iara e Lara são uma família portuguesa que se diz "muito feliz" no Luxemburgo.
Os Portugueses Felizes no Grão-Ducado
Portugueses que vieram para o Luxemburgo em busca de um sonho, de um trabalho ou de uma vida melhor. E que hoje voltariam a fazê-lo.

Do ponto de vista geracional, verificam-se mudanças profundas na textura da comunidade. Os primeiros emigrantes eram menos qualificados. Hoje há muitos portugueses qualificados. São quadros que trabalham nas instituições europeias ou que vieram para o Luxemburgo aliciados pelo poder de compra e pelos salários que o Luxemburgo paga e que estão, por exemplo, em multinacionais. São muito discretos. Mas continuamos a ter muitos portugueses com problemas ainda por resolver, como os que encontrei quando aqui cheguei. Questões relacionadas com as pensões, as duplas tributações… Mas felizmente isso já entrou em velocidade cruzeiro. Continuamos, no entanto, a ter aqui assuntos para tratar, no domínio da segurança social, como prestações sociais, no domínio do desemprego, em particular no de longa duração, que nos preocupam.

Os mais afetados são os trabalhadores com mais baixas qualificações? 

A pandemia afetou o desemprego dos portugueses que trabalhavam em diversos setores mais expostos, como por exemplo a restauração, ou que tinham situações precárias. Surgiram casos de exploração, que o Contacto divulgou e que segui atentamente, levando-me a intervir junto da Inspeção de Trabalho e Minas. O que levou ao encerramento de algumas empresas de engajadores de trabalhadores portugueses que eram depois explorados. Vinham de Portugal à procura do El Dourado e o que encontravam aqui era um inferno. Mas no domínio da língua e cultura fizeram-se muitos progressos. 

Neste momento temos mais de 3.000 alunos nos cursos de língua e cultura portuguesas. E a minha filosofia tem sido sempre fazer com que a presença portuguesa neste país dê um caráter mais multicultural e plural ao Luxemburgo, o que é importante. Mas por outro lado, empoderar também a comunidade portuguesa. Portugal deve olhar para o Luxemburgo como o hub da Grande Região. Começou como um país agrícola, tendo-se transformado num país do carvão e do aço e depois dos serviços financeiros que são muito importantes na economia. Mais recentemente está a diversificar para o digital, tecnologias da informação, espaço e satélites. É preciso que Portugal olhe para este país, não só pela presença da comunidade portuguesa, que é extremamente importante, mas também pelos ativos que o Luxemburgo tem na economia do futuro.

O que espera desta visita? 

Uma das coisas muito importantes que esta visita vai trazer a Portugal, para além da sinalização política que a visita dos Grão-Duques conferirá, com a ida de vários ministros luxemburgueses na comitiva, é a parte económica. É preciso dar a conhecer as ferramentas e ativos que temos no Portugal moderno, em áreas como o turismo, as tecnologias de saúde, o digital, as startups, o audiovisual, os serviços financeiros, a automobilidade, as cidades inteligentes e a construção sustentável. Cascais é um projeto piloto de cidade inteligente. a nível europeu, que poderá interessar ao Luxemburgo. Também o turismo é uma área em que somos líderes, assim como nas tecnologias da saúde. Há interesse do Luxemburgo em conhecer os nossos ativos e vice-versa. 

Queremos passar de uma relação económica tradicional, que importa também reforçar, para uma mais tecnológica e no quadro da economia de futuro, onde há grandes oportunidades quer na Grande Região, quer em Portugal. A missão económica começa com uma ida ao Porto onde se falará de automobilidade e mobilidade elétrica que interessa ao Luxemburgo e em que Portugal dá cartas. Por exemplo, o maior grupo automóvel do Luxemburgo, que é a Losch, tem um laboratório no Porto, nas instalações da incubadora da Universidade do Porto (UPTEC). Depois haverá uma deslocação à Salvador Caetano, que fabrica autocarros com tecnologia limpa que podem interessar ao Luxemburgo. 

Sabemos que há portugueses que vivem no limiar da pobreza. Sabemos também que há portugueses que já não têm vencimentos para pagar rendas de casa elevadas.

No ano passado Portugal continuou a ser o país de onde vieram mais emigrantes para o Luxemburgo. Quase 4 mil pessoas…

Não conheço bem a segmentação desses 4 mil portugueses que vieram. Mas espero que tenha vindo gente qualificada, porque a vida no Luxemburgo para quem não tem rendimentos elevados gera complicações. Sabemos que há portugueses que vivem no limiar da pobreza. Sabemos também que há portugueses que já não têm vencimentos para pagar rendas de casa elevadas. A questão da habitação está a afetar a comunidade portuguesa e outras, levando-os a ir muitas vezes para países transfronteiriços, a reemigrar ou até a regressar a Portugal. Uma realidade que não é nova no Luxemburgo, mas que está a acentuar-se. 


Quase quatro mil portugueses mudaram-se para o Luxemburgo em 2021
Os portugueses dominam a comunidade estrangeira residente no Grão-Ducado.

São pessoas que vão procurar em França e na Bélgica casas mais baratas, mas isso desenraíza essas famílias e prejudica o ensino da língua e cultura portuguesa aos seus filhos. São problemas que afetam a comunidade portuguesa. Mas os relatórios do Statec (Instituto de estatísticas do Luxemburgo) revelam que as entradas são agora inferiores às do passado. Um sintoma que a maior parte das pessoas já não olham para o Luxemburgo como o El Dourado. Mas muitos continuam a ver o país como destino de emigração. Há gente que continua a emigrar à "toa", sem se informar e preparar, e normalmente não têm o sucesso esperado. O que depois cria problemas de situações de portugueses que vivem abaixo do limiar de pobreza.

Um relatório recentemente divulgado sobre o racismo revela que um em cada três portugueses se sente discriminado no acesso ao emprego, habitação e trabalho. São números preocupantes? 

São sempre números preocupantes, sejam poucos ou muitos. O problema não se coloca apenas em relação à comunidade portuguesa, mas também em relação a outras comunidades. O Luxemburgo faz um grande esforço para que essas situações não aconteçam. Mas julgo que as novas gerações compreenderão estes problemas de outra maneira e que essa situação tenderá a ser mitigada. Por outro lado, o quadro mental e educacional das pessoas que para aqui emigraram, com alguma dificuldade de integração por não falarem o luxemburguês e o alemão, o que eu compreendo, tem também que ser alterado. 


Alemão continua a ser o maior problema dos alunos portugueses no Luxemburgo
A pandemia veio agravar ainda mais as dificuldades nas competências orais e escritas da língua alemã pelos filhos dos imigrantes lusos das classes mais desfavorecidas, revela um novo relatório nacional.

Em suma, caberá à administração luxemburguesa e a elementos da comunidade portuguesa fazer esforços no sentido de ultrapassar as questões em apreço, uns promovendo, por exemplo, o francês como língua de integração – já há um projeto piloto anunciado nesse sentido para o próximo ano letivo – e outros exercendo os seus direitos de cidadania e participação cívica. Em matéria de integração todos temos a aprender uns com os outros. 

Em matéria de integração todos temos a aprender uns com os outros. O Luxemburgo faz um esforço considerável no sentido de tornar a sociedade luxemburguesa multicultural. É preciso continuar a trabalhar nesse sentido.

António Gamito, embaixador de Portugal no Luxemburgo

O Luxemburgo faz um esforço considerável no sentido de tornar a sociedade luxemburguesa multicultural. Não escondo que por vezes recebo queixas de discriminação na escola, em matéria de segurança social e no trabalho e isso prende-se, sobretudo, com o choque de culturas e falhas de comunicação. Há um ponto que é preciso continuar a explorar – trabalhar na multiculturalidade – que é a única forma de apoiar a comunidade portuguesa. Acredito que o Luxemburgo ganha em ser mais plural e multicultural. 


Um terço dos portugueses sente-se vítima de racismo no Luxemburgo
Um em cada três portugueses diz que já foi vítima de racismo ou de discriminação na procura de uma habitação, no emprego ou na sala de aula. São indicadores alarmantes que constam do primeiro estudo nacional feito no Luxemburgo sobre racismo e discriminação.

Porque o Luxemburgo precisa, como nós também precisamos em Portugal, de trabalhadores dado que as nossas sociedades estão a envelhecer. Daí a importância da imigração. Mas é preciso também que Portugal sinta que a sua comunidade está bem integrada e isso só se pode fazer se ela estiver disposta a integrar-se. Conheço muitos que vêm para aqui, sobretudo jovens, só para ganhar dinheiro. Não se inserem na sociedade, porque estão aqui quatro, cinco anos e trabalham em multinacionais e a seguir são colocados noutros países do mundo. E não sentem necessidade de integração porque são cidadãos do mundo. Mas depois há as gerações mais antigas e os seus descendentes que se enraizaram aqui, que não esquecem o seu país de origem, que têm no coração, mas que devem beneficiar da integração na sociedade de acolhimento. Acho que este é o caminho correto. 

Em matéria de integração todos temos a aprender uns com os outros. O Luxemburgo faz um esforço considerável no sentido de tornar a sociedade luxemburguesa multicultural. É preciso continuar a trabalhar nesse sentido. Não escondo que por vezes recebo queixas de discriminação na escola, em matéria de segurança social e no trabalho e isso prende-se, sobretudo, com o choque de culturas e falhas de comunicação.  Há um ponto que é preciso continuar a explorar - trabalhar na multiculturalidade - que é a única forma de apoiar a comunidade portuguesa. Acredito que o Luxemburgo ganha em ser mais plural e multicultural. Porque o Luxemburgo precisa, como nós também precisamos em Portugal, de trabalhadores dado que as nossas sociedades estão a envelhecer. Daí a importância da imigração. 


Nova escola europeia terá opção de português como terceira língua no secundário
O ministro da Educação apresentou esta quarta-feira a Escola Internacional Gaston Thorn, que abre em setembro na cidade do Luxemburgo. As inscrições para a nova escola europeia abrem já em março.

Mas é preciso também que Portugal sinta que a sua comunidade está bem integrada e isso só se pode fazer se ela estiver disposta a integrar-se. Conheço muitos que vêm para aqui, sobretudo jovens, só para ganhar dinheiro. Não se inserem na sociedade, porque estão aqui quatro, cinco anos e trabalham em multinacionais e a seguir são colocados noutros países do mundo. E não sentem necessidade de integração porque são cidadãos do mundo. Mas depois há as gerações mais antigas e os seus descendentes que se enraizaram aqui, que não esquecem o seu país de origem, que têm no coração, mas que devem beneficiar da integração na sociedade de acolhimento. Acho que este é o caminho correto. As gerações mais velhas, talvez pelas suas qualificações, têm mais dificuldade em aprender línguas, porque nasceram em Portugal. Julgo que essas dificuldades desaparecerão ou serão mitigadas com as gerações mais novas. Mas há uma realidade, que não podemos escamotear, que é a de muitos portugueses ainda não se terem conseguido integrar.  

Na escola há também dificuldades de integração dos portugueses…

O Ministério da Educação luxemburguês está a fazer um esforço, criou uma direção de integração que pode ter um papel importante. Os jovens que aqui chegam e entram no pré-escolar já são formatados em matéria de línguas, o que facilita a sua vida. (...) Acho que as gerações antigas tiveram mais problemas do que as mais novas têm de enfrentar, até porque a cultura está a mudar.  É um fenómeno geracional. Estou convencido de que, com políticas da parte do Luxemburgo adequadas a uma sociedade multicultural que se pretende promover, o 'mindset' acabará por mudar. Neste contexto, para além do sistema tradicional de ensino luxemburguês, é preciso desenvolver um ensino multicultural com oportunidades iguais para todas as crianças. 


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Projeto em quatro escolas abrange os falantes de português e outras línguas de origem latina. Tem início já a partir do próximo ano letivo.

A comunidade portuguesa, pelo seu peso, tem especificidades próprias, mas julgo que essa multiculturalidade tem que ser tratada da mesma forma em todos os jovens estudantes estrangeiros. E os pais também devem participar neste processo. Julgo que o Luxemburgo está a dar alguns passos nesse sentido com esta nova direção de integração e com as dúvidas que colocam em relação à alfabetização dos imigrantes, se deve ser em alemão ou em francês, avançando com um projeto-piloto nesta língua a partir do próximo ano letivo. 

Pessoalmente defendo que seja em francês porque é uma língua mais acessível a quem vem de fora. Mas os filhos da imigração e as gerações vindouras naturalmente aprenderão o alemão com grande facilidade. Mas também têm que se manter estruturas, como a da língua portuguesa.


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Mas como disse "há ainda um caminho a percorrer" para o ensino do português no Luxemburgo… 

O que pode passar por um maior reconhecimento dos cursos de língua e cultura portuguesas dados pelos Instituto Camões, pela modalidade do ensino complementar, pela admissão de que o ensino da língua materna ajuda na integração, como ajuda a compreender a aprendizagem de outras línguas estrangeiras. É um processo quotidiano, de conversações com as autoridades luxemburguesas, que estão atentas a estes assuntos e percebem que têm de desenvolver políticas dirigidas às comunidades migrantes, que no caso são 100 mil cidadãos com filhos a estudar. Isso passa por uma colaboração intensa. Como vimos durante a pandemia, a solidariedade funcionou. E isso é o que importa registar. 

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