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Putin "falhou" na chantagem. UE aprova 15% nos cortes do gás
Economia 7 min. 26.07.2022 Do nosso arquivo online
Segurança energética

Putin "falhou" na chantagem. UE aprova 15% nos cortes do gás

A Gazprom (a companhia estatal russa) anunciou que vai manter o fornecimento através do Nord Stream 1 (que fornece a Alemanha) a apenas 20 por cento da capacidade.
Segurança energética

Putin "falhou" na chantagem. UE aprova 15% nos cortes do gás

A Gazprom (a companhia estatal russa) anunciou que vai manter o fornecimento através do Nord Stream 1 (que fornece a Alemanha) a apenas 20 por cento da capacidade.
Foto: AFP
Economia 7 min. 26.07.2022 Do nosso arquivo online
Segurança energética

Putin "falhou" na chantagem. UE aprova 15% nos cortes do gás

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Todos se comprometeram a fazer o máximo, mas há seis exceções. Portugal é um dos Estados-membros que por não estar conectado à a rede europeia pode não cumprir a meta. O acordo deu-se uma semana após a Comissão apresentar o plano para enfrentar um provável corte do gás russo no inverno e já quando se temia que um consenso fosse impossível.

A Comissão Europeia lançou na semana passada a proposta de os países cortarem todos o consumo de gás em 15%, segundo o lema “Poupar gás para salvar o inverno”, na eventualidade, cada vez mais óbvia, de Putin fechar a torneira da Gazprom e lançar o caos na União Europeia.

Depois de ter assinado acordos com vários parceiros – no Golfo, nos EUA e na Noruega – a Comissão conclui que mesmo assim faltavam 45 bcm de gás para manter as casas minimamente aquecidas e as economias a funcionar durante o próximo inverno. Foi este o pedido de Von der Leyen: pouparmos todos os mesmos 15% no consumo de gás entre agosto de 2022 e 31 de março de 2023 (em relação à médio dos cinco anos anteriores).


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Andaram a viver acima das suas possibilidades energéticas. Agora há um risco moral em resgatá-los.

Vários países reclamaram – incluindo Portugal e Espanha, alegando que não há conectividade do gasoduto ibérico com o resto da Europa e portanto não teriam como contribuir – e os países ilha (Malta, Irlanda e Chipre) que também não poderiam enviar o gás que poupassem para os países que mais vão precisar – presumivelmente a Alemanha, a Itália, a Áustria e os países bálticos. Outros salientaram que Berlim estava agora a pedir solidariedade aos “pequenos” quando foi implacável nas crises das dívdas soberanas. 

Mesmo assim, e depois de na noite passada os embaixadores junto da União Europeia terem estado a montar o puzzle de como poupar 45bcm de gás natural, atendendo às especificidades de cada Estado, o Conselho Europeu assinou hoje o acordo político para o plano da Comissão seguir em frente, com algumas alterações, mas com a meta de reduzir 15% ainda em vigor.

Nord Stream 1 a 20% e pressão perigosa no gasoduto na Ucrânia

A Gazprom (a companhia estatal russa) anunciou que vai manter o fornecimento através do Nord Stream 1 (que fornece a Alemanha) a apenas 20 por cento da capacidade - invocando obscuros problemas técnicos - a partir de quarta-feira. E a autoridade de controlo de gás da Ucrânia detetou esta terça-feira um aumento extraordinário na pressão do gasoduto que atravessa a Ucrânia, o Urengoy-Pomary-Uzhhorod - o que poderá provocar danos no pipeline e risco de situações de emergência. 

A comissária europeia da Energia, Kadri Simson, salientou que estes acontecimentos, esta terça-feira, são a prova de que o Kremlin está a usar a energia como arma de guerra.


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O plano e a estratégia serão apresentados no início da próxima estação, adiantou esta terça-feira o Ministério da Energia e do Ordenamento do Território.

Simson salientou também que o corte do gás russo “pode acontecer a qualquer altura” e “temos que nos preparar o quanto antes”. Sobre o que se passou na reunião entre os líderes europeus disse: “Houve um consenso dos países para  estarmos preparados para o pior e isto envia um sinal para o mercado e para os cidadãos e para os que estavam à espera do desacordo dentro da UE”.

Medidas voluntárias que serão obrigatórias em caso de crise

No fim do conselho especial dos ministros da Energia, o ministro checo da Indústria, Jozef Síkela, salientou que “hoje a União Europeia confirmou a sua unidade, solidariedade e capacidade de prevenção”. Síkela salientou: “Demos um passo gigante para assegurar os fornecimentos para os cidadãos e para a indústria. As negociações não foram fáceis e devo agradecer a todos os meus colegas que trabalharam sem parar. A decisão também não foi fácil, mas todos percebemos que temos que partilhar o sofrimento”. 

Como coordenador do conselho, em nome da presidência checa da UE, Síkela salientou que os Estados-membros estão "a enviar um sinal muito forte a Putin que, uma vez mais, falhou em dividir a UE. Mas, mais importante, estamos a dar um sinal aos nossos cidadãos, a decisão de hoje garante que não vamos ter que enfrenar consequências dramáticas no inverno , incluindo falta de gás ou subidas dramáticas de preços”.

O compromisso alcançado aponta que as reduções entre 1 de agosto e 31 de março de 2023 de 15% de consumo de gás serão voluntárias e só serão obrigatórias “se a Comissão concluir que há o perigo de uma falta de gás. Deverá então apresentar uma proposta ao Conselho e se cinco países emitirem o alerta, e através de uma maioria qualificada de 15 países será adotado um alerta a toda a UE”.

Entre a proposta apresentada pela Comissão na semana passada e o acordo assinado esta terça-feira foi também alterado um aspeto: os países terão muito mais flexibilidade para decidir que medidas vão tomar para reduzir o seu consumo.

“Partilhar o sofrimento”, mas com seis exceções

O ministro checo da Indústria avançou que foi encontrado “um balanço”, entre as muitas especificidades que se encontraram entre os 27 países. “Mas acredito que isso não nos impediu de preservar as nossas elevadas ambições de reduzir o consumo de gás”. 

As derrogações são seis.

1. Para os Estados Bálticos cujo sistema de eletricidade está sincronizado com a Rússia. Se a Rússia desconectar estes países, estão autorizados a “usar todos os meios para garantir que o seu sistema elétrico continue a funcionar”, ou seja, reativar centrais a carvão que já deveriam estar a ser desmanteladas

2. Às ilhas (Irlanda, Malta, Chipre) também foi reconhecido o estatuto de exceção, por não estarem ligadas à rede europeia. 

3. Os países que já estão a atingir as reservas obrigatórias de gás (que deverão ser 90% a 1 de novembro) terão compensações nas suas metas de poupança.

4. As indústrias essenciais e cadeias de abastecimento alimentadas a gás natural também estão isentas. A UE explicou que nnão irá criar danos nas suas economias.


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As medidas incluem, por exemplo, a interdição de publicidade luminosa à noite.

5. Os países com interconexões limitadas podem reduzir a meta, uma vez que têm pouca capacidade de dar assistência em fornecimento de energia aos outros países vizinhos. É este o caso claro de Portugal e Espanha, que constitui a exceção ibérica, por nunca ter sido construído um gasoduto para lá dos Pirenéus.

Por outro lado, Portugal invoca que a sua poupança de gás não contribui para o “esforço de guerra”, uma vez que recebe gás natural liquefeito de outros países, que não a Rússia. 

6. A última derrogação destina-se a países que possam sofrer riscos sérios de falhas de eletricidade e que, por isso, poderão ter que aumentar o consumo de gás para a gerar.

O ministro português da Ação Climática, Duarte Cordeiro, disse que “Portugal poderá apoiar outros Estados-membros através do reenvio por via marítima do porto de Sines sempre que adequadamente integrado na plataforma europeia de compras conjuntas de gás”. E salientou ainda que “é crucial e urgente que Portugal esteja integrado na rede europeia de gás e eletricidade permitindo reforçar a segurança de aprovisionamento e energético”.

Claude Turmes afirma que Luxemburgo está a acelerar para renováveis

Durante o conselho de ministros da Energia desta manhã, o ministro luxemburguês da Energia, Claude Turmes, salientou que “o corte de 15% faz-nos menos vulneráveis à chantagem neste inverno e o custo da energia para os nossos consumidores pode ser reduzido. Esta decisão também ajuda a lutar contra as alterações climáticas”. 


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O governo alemão pode considerar prolongar a vida das três centrais nucleares que restam no país.

Claude Turmes informou os colegas de pasta europeus que “o Luxemburgo está a dar toda a velocidade no que diz respeito à criação de energia eólica e fotovoltaica e está também a acelerar a instalação de bombas de calor”.

Turmes defendeu ainda que é preciso acelerar a plataforma conjunta de compra de gás. E que deverá haver uma colaboração mais estreita em matéria de energia com a Ucrânia, a Suíça e o Reino Unido. “Mas estou muito otimista de que vamos enfrentar Putin porque foram tomados passos históricos”, sublinhou.

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