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Preço do leite nunca esteve tão alto no Grão-Ducado
Economia 5 min. 12.08.2022
Inflação

Preço do leite nunca esteve tão alto no Grão-Ducado

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Preço do leite nunca esteve tão alto no Grão-Ducado

Foto: Pierre Matgé
Economia 5 min. 12.08.2022
Inflação

Preço do leite nunca esteve tão alto no Grão-Ducado

Laura BANNIER
Laura BANNIER
O preço do leite atingiu máximos históricos no Luxemburgo.

Os valores são inéditos: 55 a 60 centavos por litro, ou 550 a 600 euros por tonelada. Guy Feyder, presidente da Câmara da Agricultura, nunca viu nada assim. 

O preço do leite disparou no Luxemburgo, tal como em muitos países europeus. "Em comparação com o ano passado, estamos perante um aumento entre 20% e 25% e algo que nunca tivemos antes", revela o presidente. 

Na Alemanha, mil litros de leite são vendidos a 480 euros, na Bélgica, o preço sobe para 500 euros. Nos Países Baixos o preço é de 540 euros. Em França, mantém-se um preço fixo de 427 euros por tonelada. Embora, este valor seja maior do que os 390 euros cobrados em 2021, ainda é muito pouco para os agricultores, que ameaçam mudar para o "sindicalismo da destruição" no início do ano letivo, se a França não alcançar os valores dos países vizinhos. 

Guy Feyder, agricultor.
Guy Feyder, agricultor.
Foto: Gerry Huberty/Luxemburger Wort

"Isto explica-se pelo facto de a França ter muitas leitarias que transformam o leite diretamente em produtos frescos, como queijo ou creme. Na Alemanha, Holanda ou Dinamarca, as leitarias produzem grandes quantidades de manteiga a granel e leite em pó, cujos preços explodiram e são vendidos nos mercados mundiais", analisa Guy Feyder, também agricultor.

As principais leitarias europeias, como os Países Baixos e Alemanha, mas também várias regiões francesas, estão com uma queda na produção de 1 a 2% em relação a 2021. "Isto coincide com a maior procura internacional, que dá ao mercado uma sensação de escassez e eleva o preço da matéria-prima".

Sem gás, não há produtos frescos 

Mas, por agora, não há risco de falta de leite no Luxemburgo. Esta situação parece "muito difícil de imaginar" para Feyder, que aponta para outro risco. "O processamento do leite consome muita energia. No Luxemburgo, a LuxLait, para realizar esta transformação, está agora a caminho do fuelóleo  (ou óleo de combustível, produto que resulta da destilação do petróleo). Se um dia não houver mais gás, não haverá mais produtos frescos", garante. 

No entanto, o abrandamento do consumo familiar relacionado com a inflação é considerado como "o grande risco no futuro imediato", avisa Guy. Com o aumento generalizado dos preços, os consumidores estão a tornar-se mais cautelosos em relação a despesas. "Isto é algo que já foi visto na Alemanha, onde os volumes de vendas [de leite] caíram abaixo dos do ano anterior". 

Os próprios agricultores são confrontados com esta inflação galopante ligada à invasão russa da Ucrânia. Para além do aumento dos preços da energia, os preços das rações para as vacas leiteiras subiram muito. "Este ano, assistimos a um aumento de 40% nos preços das rações em comparação com o ano passado, que já era muito elevado", diz Feyder. 

A situação dramática só pode ser sustentada graças ao preço historicamente alto do leite. "Ainda conseguimos manter o equilíbrio graças aos preços altos a que vendemos, mas o dinheiro vai com rapidez. No Luxemburgo, a pecuária está em equilíbrio precário", alerta o agricultor, que não quer pensar no que vai acontecer se a guerra na Ucrânia continuar enquanto a procura global cai. "Chegaríamos a uma situação incontrolável".   


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A seca também é um problema

Mas a inflação está longe de ser a única preocupação na mente de Guy Feyder este verão. A seca também está a dar dificuldades ao sector agrícola. "Nos últimos cinco anos, tivemos quatro anos com um défice em termos de pluviosidade. Para a época de 2022, faltam-nos 100 a 150 litros de água por m². Para o sul e leste do país, a perspetiva deste ano é que será tão mau como a seca de 2020".

O solo particularmente argiloso do sul do país levou tempo a aquecer, o que afetou o crescimento da erva no primeiro corte, enquanto que o segundo corte sofreu com a chuva. "Neste momento, ficamos com metade da forragem (alimentação dos animais) que precisamos para o inverno, e não temos mais nada nos prados por causa da seca", diz Guy. Os animais do agricultor estão atualmente a ser alimentados com a forragem do ano passado, a fim de salvar a forragem deste ano para este inverno. 

Outra solução para os agricultores com falta de forragem é vender ao desbarato parte do seu gado. "Teremos de considerar esta situação no início do inverno, porque é totalmente concebível". 

De momento, os agricultores luxemburgueses vivem o dia-a-dia, a tentar reduzir os custos ao mesmo tempo que preservam a saúde das explorações. Esta é uma equação particularmente complexa. "Vender animais, descapitalizando, é a última carta a jogar, porque se permitir poupar no futuro imediato, pode criar problemas para o futuro", garante.  


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Há ainda o problema da falta de água. As alterações climáticas terão um impacto definitivo na agricultura luxemburguesa, que vive da pecuária graças às forragens produzidas no país, e não nos países vizinhos. Habituado ao ajuste constante de vários fatores, o presidente da Câmara da Agricultura destaca a importância do setor agrícola, mesmo em tempos de guerra. "As pessoas que têm as habilidades para ter sucesso neste ramo devem permanecer otimistas. Um mundo que não come não pode mais existir", considera.

Mas, para continuar a enfrentar os múltiplos desafios atuais, os agricultores devem poder continuar a contar com o apoio do Governo. "As discussões sobre a seca são inevitáveis ​​com os políticos. As medidas de apoio devem ser postas em prática tendo em conta a situação. Mesmo que comece a chover em meados de agosto não será suficiente."

(Artigo original publicado na edição francesa do Luxemburger Wort.)

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