Escolha as suas informações

Portugueses já sentem aumento dos preços nos supermercados do Luxemburgo
Economia 11 min. 04.05.2022
Inflação

Portugueses já sentem aumento dos preços nos supermercados do Luxemburgo

O aumento dos preços nos produtos também já se faz sentir nos supermercados do Luxemburgo.
Inflação

Portugueses já sentem aumento dos preços nos supermercados do Luxemburgo

O aumento dos preços nos produtos também já se faz sentir nos supermercados do Luxemburgo.
Foto: Pierre Matgé
Economia 11 min. 04.05.2022
Inflação

Portugueses já sentem aumento dos preços nos supermercados do Luxemburgo

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
O aumento dos preços nos produtos dos supermercados também já se faz sentir no Grão-Ducado. O Contacto visitou três superfícies comerciais, comparou preços e falou com portugueses que começam a fazer contas ao fim do mês para as compras da casa.

Natália Pinto trocou Famalicão pelo Luxemburgo há 40 anos e, desde então, sempre fez as suas compras no Cactus. A portuguesa de 58 anos vive com o marido em Contern, mas prefere ir àquele supermercado em Howald, na comuna de Hesperange, pelo menos uma vez por semana. “Às vezes duas, se faltar alguma coisa”, conta. 

Durante a pandemia, já tinha notado alguma diferença nos preços dos produtos, mas nos últimos dois meses, desde o início da guerra na Ucrânia, reparou que “houve um aumento muito grande”.

É na secção dos peixes frescos que Natália mais sente a diferença. “A subida dos preços tem-se notado muito. Mesmo o peixe está a um preço enorme. Um peixe que custava 18 euros, agora custa 30 euros o quilo. Até mesmo peixes como a dourada, que eram mais baratos, agora estão caríssimos”, lamentou a emigrante, que trabalhava num hospital, mas está a receber uma pensão por invalidez desde que foi operada ao joelho.

No Cactus, o filete de lobo custa 15,80 euros/quilo, o lombo de bacalhau fica a 31 euros/quilo, o filete de tamboril a 35 euros/quilo e o lombo de salmão chega aos 49,90 euros/quilo.


Estes são os produtos que ficaram mais caros no Luxemburgo
Num ano, o peixe fresco ficou 20,6% mais caro no Grão-Ducado.

De facto, o peixe fresco foi o produto cujo preço sofreu maior aumento no último ano. Segundo o Statec, o peixe ficou 20,6% mais caro entre março de 2021 e o mês homólogo deste ano. Só em março de 2022, o aumento foi de 3,6%, acompanhando uma subida geral dos preços dos produtos alimentares de 1,22% nesse mês, superior à evolução do índice geral do consumidor (+1%). Uma dor de cabeça que se junta à crise energética causada pela guerra na Ucrânia, que tem inflacionado também os preços do gás e do gasóleo.

Os produtos congelados (14,5%), carnes (13,2%), massas e cuscuz (11,6%) e farinhas e cereais (9,1%) são outros dos produtos com maior aumento no espaço de um ano, de acordo com o relatório do Statec. “Tudo subiu muito. Noto mais no peixe, na carne, nas massas… As coisas que as pessoas levam mais”, apontou Natália. “Desde o início da guerra, o setor das massas esgota frequentemente. Os cereais e os óleos também”. 

A indexação dos salários foi mínima para a inflação que houve. Isto no Luxemburgo está muito, muito caro.

Natália Pinto

As massas e o cuscuz foram os alimentos que ficaram mais caros (+ 4,5%) em março deste ano. Naquele supermercado, um pacote de esparguete de marca branca custa 1,33 euros e pode chegar aos 2,65 euros se for de outras marcas. O quilo de arroz varia entre os 1,15 euros (marca branca) e os 1,39 euros (outra marca). Um quilo de cuscuz chega aos 3,45 euros.

No momento de pagar, a portuguesa já sente uma “diferença grande”. “Com uma saca pequena, com pouca coisa, é logo 130 ou 140 euros, sem levar carnes. É uma diferença de mais 50 euros. Se fizer umas compras maiores, noto uma diferença de 70 euros. Está mesmo mais caro”, reconheceu. 

Apesar disso, Natália garante que nunca compra marcas brancas. “Se compararmos com as marcas mais baratas, a diferença já é de alguns cêntimos. Às vezes até são mais caras. Eu escolho pela qualidade das coisas. Às vezes já comemos coisas más, então prefiro ter a certeza que é tudo mais controlado”, justificou.

Fonte do departamento de comunicação do Cactus afirmou ao Contacto que “a inflação é uma realidade atual” que também afeta a empresa de supermercados luxemburguesa. Contudo, salientou, “é importante notar que enquanto um ou outro produto sofre um aumento de preço, outros permanecem ao seu nível de preço habitual”.

A mesma fonte refere ainda que “o impacto do custo da energia e de certas matérias-primas, como o papel – que é muito procurado para embalagem – tem inevitavelmente um impacto no comércio e nos produtos no mercado”.

Mesmo sabendo que agora as compras saem “muito mais caras”, Natália não vai reduzir o consumo, uma vez que lá em casa só vive ela e o marido. Mas reconhece que o custo de vida no Grão-Ducado está muito alto. “E acho que vai ser ainda pior, por causa do que está a acontecer na Ucrânia. A inflação também subiu muito e a indexação dos salários foi mínima para a inflação que houve. Isto no Luxemburgo está muito, muito caro”, afirmou a portuguesa.

Prateleiras vazias nos óleos

No período de um ano, os preços dos alimentos aumentaram quase 4% no Luxemburgo. De acordo com o Statec, esta subida geral dos preços foi causada sobretudo pela explosão no custo do gás (aumento de 87,4%), óleo de aquecimento (80,9%) e no diesel (48,8%). No caso dos alimentos, o aumento de preços durante este período foi particularmente notório no caso do peixe fresco, carnes, massas, ovos e batatas. Todos estes produtos aumentaram em 7% ou mais.

Outros produtos que têm vindo a ficar mais caros são os óleos, como o azeite ou o óleo de girassol. Sobretudo este último, devido à escassez provocada pela guerra na Ucrânia, que é o maior produtor mundial de sementes oleaginosas e o maior exportador mundial de óleo de girassol.

No Auchan do centro comercial Cloche D’Or, em Gasperich, na capital, Adélia Guilherme encontrou a prateleira dos óleos praticamente vazia. E os produtos que ainda restavam eram muito caros. “Estava a ver o azeite português e disse que é impossível três litros custar quase 20 euros. Não é normal comprar a esse preço. Normalmente compro o garrafão de cinco litros por 20 euros, que já não tem, e agora três litros fica por 18,60”, comparou.

A portuguesa de 59 anos, que emigrou de Sintra para o Grão-Ducado há 16, está a receber uma pensão por motivos de saúde e é cliente frequente daquele supermercado. “Moro aqui perto, então dá-me mais jeito. Posso vir duas ou três vezes numa semana”, explicou, afirmando que tem sentido “demasiado o aumento dos preços”.

Além do azeite, há outros óleos que ficaram mais caros, enquanto os mais baratos desaparecem rapidamente das prateleiras. “O preço do óleo que costumo comprar nem está muito exagerado, mas há garrafas a cinco euros. Eu comprava três litros a quatro ou cinco euros. Agora está quase a 20. É um aumento muito grande”, apontou.

No Auchan, uma garrafa de óleo pode variar entre os 1,77 euros (1 litro) e os 10 euros (2 litros). O azeite de marca branca pode custar até 7,39 euros (1 litro) e uma garrafa de marca portuguesa pode chegar aos 6,89 euros. Se compararmos com o Cactus, o óleo de girassol pode custar até 6,80 euros (1 litro), enquanto o azeite de marca branca custa 5,50 euros (1 litro) e o azeite português pode chegar aos 5,75 euros. Mas não é só nos óleos que Adélia tem sentido o aumento dos preços. “Mesmo o arroz, a carne, as massas… fazendo as contas a todos os alimentos, uma pessoa acaba por gastar muito mais”, admitiu.

Ao fim do mês já é mais complicado, é preciso ir reduzindo certas coisas. Mas também temos que nos alimentar.

Adélia Guilherme

A emigrante explica que sente mais essa diferença quando faz compras grandes, “porque são vários aumentos nos produtos”. “O peixe também aumentou muito. Hoje estou a levar pouca coisa, mas se fizer compras grandes pode ficar 20 ou 30 euros mais caro do que o habitual”, garantiu. 

Ainda assim, Adélia prefere gastar mais e comprar produtos de qualidade. “Não costumo comprar produtos de marca branca, prefiro comprar as coisas que eu conheço. Se tiver de comprar melhor e tiver possibilidades para tal, eu compro. Mas também compro algumas coisas de marca branca, que também são boas”.


Eurostat estima que inflação no Luxemburgo tenha atingido os 9% em abril
O valor reflete um aumento face ao mês de março e uma diferença significativa quando comparado com abril de 2021, altura em que a inflação era de 3,3%.

No Auchan, peixes como a dourada custam 26,99 euros/quilo, o lombo de atum fica a 29,99 euros/quilo, o lombo de bacalhau a 34,99 euros/quilo e o filete de salmão a 42,99 euros/quilo. Já nas carnes, o bife de frango custa 24,90 euros/quilo, o lombo de vaca fica a 27,90 euros/quilo e o entrecosto a 29,90 euros/quilo. O queijo (cujo preço aumentou 1,3% em março) em fatias de marca branca custa 1,90 euros (300g) e de outras marcas pode ir até aos 3,51 euros. O Contacto também tentou obter uma reação por parte do Auchan sobre a subida dos preços, mas não recebeu uma resposta em tempo útil.

Adélia reconhece que, por causa da guerra na Ucrânia e a inflação, “está tudo muito mais caro” e até lhe aumentaram 20% na renda da casa. Segundo as estimativas do Eurostat, a inflação no Luxemburgo deverá ter atingido os 9% em abril, acima dos 7,9% que tinha apontado em março. “Espero que não piore, porque vivo sozinha e para mim é difícil ter de pagar mais de renda e o orçamento alimentar também é maior. Ao fim do mês já é mais complicado, é preciso ir reduzindo certas coisas. Mas também temos que nos alimentar”, desabafou.

Um fenómeno em toda a Europa

O supermercado Delhaize Hamilius, bem no centro da Cidade do Luxemburgo, é um dos mais visitados entre a correria do dia a dia na capital. Fernanda Adami é uma das pessoas que só vai lá “de vez em quando”, no caminho entre o trabalho, no aeroporto, e a sua casa, em Beggen. 

“Venho aqui só para comprar algumas coisas que não tem lá no Lidl, porque a qualidade também é melhor”, justificou. A brasileira de Vila Verde, Espírito Santo, emigrada no Luxemburgo com o marido há 15 anos, passa naquela loja “umas duas vezes por semana” e tem sentido “muito a diferença nos preços”.

Fernanda diz que sentiu mais esse aumento depois da pandemia, mas de há dois meses para cá ficou tudo “muito mais caro”. “Antes gastava cerca de 60 ou 80 euros, agora gasto 120, levando as mesmas coisas”, garantiu. “O que está mais caro são as frutas, os cereais, queijos… alguns produtos tiveram um aumento de alguns cêntimos, mas nota-se a diferença quando se compra muita coisa. Antes comprava mais coisas, agora vou a diferentes supermercados para ver os preços. O Cactus e o Auchan, por exemplo, estão muito caros”.

Antes recebíamos o salário e fazíamos as compras à vontade. Hoje em dia já é preciso fazer contas. Senão não dá para viver. Trabalhamos para pagar contas.

Fernanda Adami

Este fenómeno tem-se repercutido um pouco por toda a Europa. Em França, a associação de consumidores Familles Rurales verificou os preços dos produtos nos supermercados e notou que a inflação de muitos deles já é bem visível. Numa consulta de preços em janeiro, a associação calculou que o orçamento alimentar médio necessário para alimentar uma família tradicional em França era de pelo menos 450 euros por mês, com menos variação nos produtos, e podia chegar aos 765 euros com produtos de marca nacional ou aos 1.148 euros com produtos completamente biológicos.


Nas prateleiras dos supermercados, o aumento dos preços dos produtos já é bem visível.
Nas prateleiras dos supermercados franceses o aumento dos preços já é bem visível
Nas prateleiras dos supermercados franceses, os voluntários da associação de consumidores Familles Rurales verificam metodicamente os preços dos produtos e a inflação de muitos deles já é bem visível.

Como solução, a Familles Rurales convidou os consumidores a comprar menos produtos que subiram de preço, como as massas, e mais produtos que são “igualmente interessantes do ponto de vista nutricional”, mas mais baratos, como as lentilhas. Em Portugal, a inflação também provocou uma quebra de quantidade dos produtos e alimentos como o frango, por exemplo, chegaram a aumentar 10% numa única semana.

Enquanto percorre as prateleiras do Delhaize, Fernanda nota que os “óleos também estão muito mais caros”. Devido ao aumento dos preços, a brasileira acabou por mudar a forma como fazia as suas compras. “Agora compramos o essencial perto de casa e o resto dos produtos compro quando saio do trabalho. Antigamente fazíamos compras para o mês todo, agora não. Compramos para três ou quatro dias e vamos repondo, porque não vale a pena comprar muita coisa. Em pouca coisa que levo hoje, já devo gastar uns 30 euros”, calculou.

Naquele supermercado, um pacote de 500g de esparguete de marca branca custa 1,15 euros e pode chegar aos 2,19 se for de outras marcas. Um pacote de 500g de cuscuz de marca branca custa 1,35 euros e 3,45 euros de outra marca. O óleo de girassol pode custar até 4,19 euros, enquanto o azeite de marca branca custa 4,19 euros (1 litro) e o azeite português pode chegar aos 6,89 euros. O Delhaize também não respondeu às questões do Contacto em tempo útil.

Na opinião de Fernanda, a situação “ainda vai piorar”. “Nós já não saímos tanto como antes, evito comprar tanta roupa. Antes recebíamos o salário e fazíamos as compras à vontade. Hoje em dia já é preciso fazer contas. Senão não dá para viver. Trabalhamos para pagar contas”, lamentou.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Qual será a verdadeira realidade da economia quando a inflação alta desaparecer? Se desaparecer...