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"Portugal só é competitivo porque paga salários do terceiro mundo"
Economia 3 min. 23.11.2018 Do nosso arquivo online

"Portugal só é competitivo porque paga salários do terceiro mundo"

"Portugal só é competitivo porque paga salários do terceiro mundo"

Foto: LUSA
Economia 3 min. 23.11.2018 Do nosso arquivo online

"Portugal só é competitivo porque paga salários do terceiro mundo"

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Quem o garante é um empresário nacional que explica que as costureiras dos seus clientes na China ganham mais 30 a 40% do salário das costureiras portuguesas. A afirmação coincide com o dia que foi divulgado o relatório do Observatório sobre Crises e Alternativas que revela que o emprego cresce em Portugal, mas os salários são mais baixos que no ano 2000.

Na quinta-feira de manhã, dia 22 de novembro da graça do Senhor, como se diria na Idade Média, num debate sobre “competitividade nas empresas”, o dono e fabricante de colchões da empresa “Colunex” partiu a louça toda: “Andamos embebedados com esta coisa de sermos um país atrativo. Portugal é atrativo porque paga salários de terceiro mundo”, revelou Eugénio dos Santos, citado num artigo do jornalista Rui Neves no Jornal de Negócios.

O empresário relatou que numa recente visita a Xangai deu conta que na China as costureiras dos seus clientes “ganham mais 30% a 40% das costureiras em Portugal” e que é impossível pretender ter uma política de formação profissional e de qualificação do trabalho, se no centro da Europa, em países como a “Áustria e a Alemanha paga-se três vezes mais a uma empregada de limpeza do que a um engenheiro que se formou no Técnico [IST] em Lisboa”.

O modelo económico português levou o país a um beco sem saída, se se pagassem, segundo afirma o empresário Eugénio dos Santos, os salários que se pagam em média nos países europeus, “só isto iria fazer desaparecer 70% delas”.

Só o emprego dos baixos salários cresce

Dados que são consentâneos com os dados revelados pelo Barómetro das Crises do Observatórios Sobre as Crises e Alternativas do Centro de Estudos Sociais, nos últimos cinco anos, entre o segundo trimestre de 2013 e igual período de 2018, recuperaram-se 450 mil dos 700 mil postos de trabalho destruídos durante os anos da crise, de 2008 a 2013.

No entanto, os ramos que criaram mais emprego foram aqueles que pagam salários abaixo da média nacional, como a hotelaria e a restauração, enquanto se continua a verificar-se a destruição de postos de trabalho em atividades com salários superiores a essa média.

Por isso não é de admirar que haja uma estagnação dos salários reais médios, e que estes se encontrem abaixo dos praticados no início do século XXI.

Segundo a publicação do CES, citando as estatísticas da OCDE, em Portugal cresce mais o emprego que a média europeia: entre 2013 e 2017, cresceu 7,4% em Portugal; 5,9% nos países da OCDE; e 13,9% no Luxemburgo, o segundo país onde mais cresceu o emprego na OCDE.

Mas já em relação aos salários, Portugal foi o país, que no mesmo período de tempo (2013-2017), as remunerações de quem trabalha cresceram menos, sendo apenas ultrapassada, nesse número negativo, pela Bélgica: Portugal teve uma queda de 1,2% do salário médio entre 2013 e 2017; enquanto o Luxemburgo os salários médios cresceram 7,2%.

Uma situação que só pode vir a ser ultrapassada com outro paradigma em relação ao modelo produtivo, de formação e de remuneração.

É pelo menos o que disse ao Jornal de Negócios, o dono da Colunex, que afiançou que paga aos seus 120 trabalhadores salários "20% acima da média, e cada vez melhor", a que acresce a distribuição de parte dos lucros da empresa – "este ano foram praticamente 200 mil euros" por conta dos cerca de "1,5 milhões de euros de resultado líquido em 2017".

A fotografia deste artigo é da ação da polícia de choque para desalojar os estivadores em greve que protestam por mais de 80% das pessoas que trabalham na estiva do porto de Setúbal serem contratadas ao dia, algumas delas há cerca de 20 anos.

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