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Os países do Norte gastaram o gás em copos e mulheres
Opinião Economia 3 min. 26.07.2022
Energia

Os países do Norte gastaram o gás em copos e mulheres

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Os países do Norte gastaram o gás em copos e mulheres

Foto: Marie Odgaard/Ritzau Scanpix/AFP
Opinião Economia 3 min. 26.07.2022
Energia

Os países do Norte gastaram o gás em copos e mulheres

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Andaram a viver acima das suas possibilidades energéticas. Agora há um risco moral em resgatá-los.

… e agora querem que os ajudemos a pagar a conta. Ah, mas e então o risco moral? Os meninos andaram a viver à grande e à russa, ignorando os inúmeros avisos e sinais de alerta ao longo de 30 anos. Se agora os resgatássemos, não estaríamos a recompensar o seu mau comportamento? Como disse a ministra espanhola da Energia: "eles andaram a viver acima das suas possibilidades energéticas…"

Outros países europeus deleitaram-se no vício do gás russo. Estes, que podemos designar pela sigla CABRÖES (Centro Europeu, Alemanha, Benelux, República Italiana, Österreich, Este Europeu, Suécia), estão agora em pânico com a perspectiva de ver a Rússia fechar as torneiras, o que lhes provocaria casas geladas e fábricas paralisadas.

Há pouco mais de uma década, a Europa dividiu-se em dois, com uma enorme brecha no meio. Os países do Norte (basicamente a Alemanha e os seus satélites), pouco afectados pelos desequilíbrios de um euro incompleto, criaram a narrativa da 'culpa' dos países do Sul (sobretudo Portugal, Itália, Grécia e Espanha, logo apelidados de PIGS) pelas crises de dívidas soberanas que ameaçaram a bancarrota de cada um destes Estados. 

A culpa tinha como objectivo justificar a segunda parte da narrativa - estes PIGS tinham de sofrer para aprender a não repetir o pecado. Entrou em cena a troika da austeridade, as altas taxas de juro, o desemprego galopante, a recessão profunda. A toda uma geração de portugueses foi dito: "saiam da vossa zona de conforto e emigrem daqui para fora!"

O estratagema de Wolfgang Schäuble - culpar os parceiros, reduzidos ao estatuto de neocolónias - foi baixando de nível, papagueado por fazedores de opinião e políticos bem colocados, à medida que a austeridade ia apertando. Não foi assim há tanto tempo (em 2017) que o fantoche Dijsselbloem, oriundo dos Países Baixos (o local onde as grandes empresas adoram fugir aos impostos) e à data presidente cessante do Eurogrupo, afirmou a um jornal alemão: "os países do Sul gastaram o dinheiro todo em copos e mulheres e agora vêm pedir-nos ajuda".

Enquanto esta "solidariedade" feita de empréstimos a taxas de juro altíssimas se desenrolava, a Alemanha, para insuflar artificialmente a sua competitividade, foi enriquecendo o Kremlin comprando-lhe gás e petróleo. Patrocinado pelos antigos chanceleres Schröder e Merkel e financiado pela Royal Dutch Shell, o gasoduto Nordstream 2 começou a ser construído em 2011, em plena crise do euro. 

A invasão da Geórgia não o desaconselhou, a anexação da Crimeia não o parou. Só a 22 de Fevereiro deste ano - dois dias antes do início da guerra na Ucrânia - o novo governo SPD/Verdes, de tão pressionado para o fazer, acabou por cancelar o projecto. (Claro que o Nordstream 1 continua - e está a ser usado como arma de chantagem eficaz).

Portugal e Espanha fizeram o seu trabalho de casa. Bloqueados (pela França sobretudo) de ligar a rede ibérica ao resto da Europa, diversificaram os seus fornecedores (têm agora 11 diferentes) e desligaram-se da dependência russa, mesmo sendo prejudicados, pois pagam o gás mais caro - o que se reflecte nos produtos e na factura de cada consumidor.

Outros países europeus deleitaram-se no vício do gás russo. Estes, que podemos designar pela sigla CABRÖES (Centro Europeu, Alemanha, Benelux, República Italiana, Österreich, Este Europeu, Suécia), estão agora em pânico com a perspectiva de ver a Rússia fechar as torneiras, o que lhes provocaria casas geladas e fábricas paralisadas. 


Luxemburgo é um dos quatro países que defende corte de 15% no gás
Portugal é um dos países da UE que está contra este corte no consumo.

Como tal, convenceram a Comissão Europeia, liderada por uma alemã, a impor um plano de redução de consumo de gás em 15% - para todos, independentemente da sua 'culpa' nesta situação. Navios metaneiros com destino a Portugal, por exemplo, seriam desviados para a Alemanha. Gastaram o gás todo, agora vêm pedir-nos ajuda…

Tanto Portugal como Espanha já recusaram o plano europeu, o que entre outras coisas prova que as feridas abertas na década passada estão muito longe de sarar, e as cicatrizes talvez nunca desapareçam. Mas calma, há sempre uma solução para alemães e holandeses enregelados por falta de gás: quando a troika energética chegar, saiam das vossas zonas de (des)conforto e emigrem para países mais quentes…

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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