Escolha as suas informações

Os elefantes brancos também voam
Opinião Economia 3 min. 01.06.2021

Os elefantes brancos também voam

Os elefantes brancos também voam

Foto: EPA
Opinião Economia 3 min. 01.06.2021

Os elefantes brancos também voam

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Dumbo! A máquina de fazer dinheiro que é a Disney inventou um personagem de ficção que era um elefante voador. A TAP tem muito em comum.

Dumbo! A máquina de fazer dinheiro que é a Disney inventou um personagem de ficção que era um elefante voador. A TAP tem muito em comum. Também voa e também é um elefante, só que branco. A viabilidade da companhia também é uma criatura de ficção, porque a TAP não passa de uma máquina de queimar dinheiro.

Foram apresentados hoje os resultados do primeiro trimestre do ano, no qual a mais atrasada transportadora aérea da Europa já perdeu 365,1 milhões de euros, e isto para encher uns meros 400 mil assentos de avião. Contas simples de fazer: por cada pessoa que transporta, a TAP obtém 905 euros... de prejuízo.

Claro. Porque os salários principescos continuam a cair na conta dos pilotos, a frota exagerada e desactualizada tem de ser mantida, o querosene para rotas incompreensíveis (e vazias) como Lisboa-Oujda tem que ser comprado, os negócios ruinosos no Brasil têm de ser pagos. Este recorde europeu da incompetência e do desperdício não devia ser nosso problema, pois não é missão de um Estado andar a brincar aos aviões – essa é função para os agentes privados, que a desempenham com muito maiores eficiência e eficácia –, mas infelizmente o governo socialista nacionalizou a empresa, condenando os massacrados portugueses a carregar mais um enorme fardo sem solução à vista.

Isto seria grave se a situação fosse conjuntural: a pandemia estancou o turismo, as viagens de negócios foram substituídas por reuniões à distância. Mas no caso da TAP não é defeito, é mesmo feitio. Nem durante a “década dourada” do turismo em Portugal a companhia conseguiu ser lucrativa e justificar a sua existência (o que nem sequer é de admirar, sabendo que a empresa despreza activamente os aeroportos do Porto, Faro, Funchal e Beja).

Estes 365,1 milhões perdidos entre Janeiro e Março, somados às (ainda desconhecidas) perdas até este início de Junho, devem estar prestes a fazer evaporar toda a “posição de caixa” com que a TAP chegou ao final do ano passado: 519 milhões. Isto era o que tinha sobrado do “empréstimo” concedido pelo Estado português depois do pagamento de dívidas, o que quer dizer que em um ano voaram mais 1200 milhões de fundos públicos. Ou se preferirem, dinheiro para construir oito (8) hospitais equipados, iguais ao Hospital Central do Alentejo que um dia também será construído (... em princípio... com calma...).

Para quem aprecie humor negro, o mais divertido é que essa ajuda de 1200 milhões é ilegal, pois distorce a concorrência. A ajuda estatal pôde conceder-se excepcionalmente a companhias viáveis antes da pandemia, e apenas a estas; não era obviamente o caso da TAP em 2019 (muito menos agora). O Tribunal de Justiça da UE, aqui no Luxemburgo, deliberou a favor da Ryanair na queixa interposta. Compete ao governo de Lisboa explicar muito bem explicadinho porque continuou a estourar num elefante branco voador os impostos de que o país tanto precisa. 


Tribunal da UE dá razão à Ryanair e anula ajudas estatais à TAP e Air France
Organismo anula aval dado por Bruxelas a apoios para salvar as companhias de bandeira por considerar que ajuda não está fundamentada, depois de recurso interposto pela Ryanair. Comissão Europeia vai analisar decisão do tribunal e estudar "próximos passos"

Esperemos que o ministro se engasgue, e que a TAP seja obrigada pelos juízes europeus a devolver tudo, liquidar activos e fechar finalmente as portas. Não seriam apenas os contribuintes portugueses a suspirar de alívio: os emigrantes, que preferiam que fosse o mercado concorrencial a estabelecer os preços dos bilhetes para ir a “casa”, também agradeceriam.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).


Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas