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OPINIÃO: Onde estamos agora

OPINIÃO: Onde estamos agora

Foto: AFP
Editorial Economia 2 min. 03.01.2018

OPINIÃO: Onde estamos agora

“Do ponto de vista da UE, a grande coligação soa prometedora.”

Por Hugo Guedes - Em 2013, já no crepúsculo da sua extraordinária carreira, David Bowie lançou inesperadamente um novo tema: “Where are we now?”. A canção era melancólica, uma reflexão profunda sobre a vida que (lhe) tinha passado, sobretudo os anos quase míticos vividos em Berlim.

Esta angústia existencial tem dominado Berlim nos últimos tempos – a pergunta latente também poderia ser essa: onde estamos agora? Após as eleições de setembro, neste mesmo espaço, escrevi que a Alemanha passara a ser menos governável; longos 4 meses e meio depois, um acordo para formar governo foi alcançado entre os dois maiores partidos após negociações muito duras. Um passo no sentido do regresso à ordem, qualidade tão prezada pelo temperamento alemão, mas só a 4 de março confirmaremos se um dividido SPD dará a sua luz verde a mais 4 anos de “Groko”; se pelo contrário o “não” vencer, é bem possível que sejam necessárias novas eleições.

Um observador atento não pode deixar de pensar que as divisões do SPD sobre se deve continuar a ser parceiro secundário de governo ou passar à oposição soam muito a um pedido insistente de atenção, ao estilo de uma criança que não sabe bem o que quer mas culpa eternamente os pais pelos seus problemas. A “mamã” Merkel dominou a política alemã – e diluiu a ideologia do seu partido – de tal forma que a oposição, hoje, se faz apenas pela negativa e contra a sua pessoa; pela positiva, ninguém conseguiu perceber (muito menos acreditar) aquilo que o SPD saberia fazer melhor sozinho, sem a figura tutelar de Angela. Depois de duas coligações com a chanceler Merkel (8 anos no total), o partido do centro-esquerda nunca esteve tão débil e entende-se a ânsia em entrar numa terceira que pode, desde logo, ser-lhe fatal.

Do ponto de vista da UE, a grande coligação soa prometedora: o próprio acordo anuncia em letras grandes “um novo começo para a Europa!” e aproximaria a reticente Alemanha das posições mobilizadoras de Macron, em áreas como imigração ou defesa, mas sobretudo nas reformas necessárias no euro – por exemplo, a criação de um verdadeiro Fundo Monetário Europeu, com controlo do PE (que também teria poderes e meios acrescidos). E a composição do possível governo, com europeístas ativos em pastas como as Finanças, os Negócios Estrangeiros e o Ambiente, também levaria a avanços bem mais ambiciosos que a pura “gestão de crises” da última década, aproveitando um bom momento das economias alemã e europeia.

Mas tudo isso não passa de esperanças. Não é ainda aí onde estamos agora.

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