OPINIÃO: O luxemburguês que desenterrou os astecas

Foto: Arquivos LW

Por Hugo Guedes - “Porfiámos até que encontrámos uma pedra com uma suma compilação de figuras tais que só a sua vista poderá satisfazer, já que a simples descrição será sempre insuficiente.” Quem escreveu estas palavras há mais de dois séculos foi o luxemburguês Guillaume Dupaix, que mudou o nome para Guillermo ao entrar no exército espanhol. A coroa de Madrid usava então o México como colónia produtora da prata que servia para o sustento da metrópole (o mesmo que os portugueses faziam com o ouro do Brasil) e Guillermo tornou-se capitão na Nova Espanha. A “pedra” de que ele falava era, na realidade, um relevo de valor incalculável representando a deusa asteca Tlaltecuhtli.

Este achado arqueológico vindo dos astecas é inestimável para os nossos tempos, claro. Tal como outros de cabal importância – hoje conhecidos como as pedras “do Sol” e “de Tizoc” – e pelo menos 22 outros. Só os conhecemos graças à inteligência invulgar deste homem nascido em Vielsalm, hoje uma pequena povoação do Luxemburgo belga, a 20 km da fronteira com o Grão-Ducado, mas que no século XVIII fazia parte do ducado do Luxemburgo (então pertença dos Habsburgos austríacos). Sabemos também que foi na juventude luxemburguesa de Dupaix que germinou o seu interesse pela antiguidade, interesse esse que viria a torná-lo num dos pouquíssimos nomes luxemburgueses conhecidos além-fronteiras (e, neste caso, bem mais do que no seu próprio país, onde é um virtual desconhecido e nem sequer existe uma rua com o seu nome).

Ao escrever, em 1794, a sua “Descrição de antigos monumentos mexicanos”, Dupaix de certa forma mudou o curso da História: até aí, os vestígios “índios”, ou seja, das civilizações avançadíssimas que ocupavam a Mesoamérica antes da chegada das naus espanholas, eram destruídos sempre que encontrados – por mais ricos e extraordinários que fossem. Assim seguiam o caminho das cidades magníficas de onde provinham, cidades essas queimadas, soterradas, obliteradas e onde todos os habitantes nativos acabavam mortos às mãos dos europeus ou contaminados pelas doenças trazidas por estes.

Razões para este extermínio, há várias – desde o fanatismo religioso à arrogância da pseudo-superioridade cultural, passando pela pura e simples ignorância. Todas elas se relacionam com a estupidez humana no seu estado mais avançado. Neste caldo de cultura, é necessária uma consciência superior para analisar algo que nunca tinha sido entendido ou observado, e entender a sua importância. Que esse pioneirismo tenha sido originário de uma região da Europa, o Luxemburgo, que era então pobre, rural e iletrada é ainda mais interessante; sem o capitão Dupaix, muitos segredos dos astecas permaneceriam esquecidos para sempre.

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