OPINIÃO: Mentiras, mentiras e mais mentiras

Bernie Madoff em 2009.
Bernie Madoff em 2009.
Foto: AP/Arquivo LW

Por Hugo Guedes - Robert de Niro faz uma óptima personificação de Bernie Madoff em “O feiticeiro das mentiras”, filme recente (e chato) que documenta a queda do homem que criou, ao longo de várias décadas, o maior esquema em pirâmide (ou “de Ponzi”) da História. Ou seja, uma fraude em que os incautos são atraídos com promessas de multiplicação rápida do seu dinheiro através de “investimentos”, mas onde na verdade as remunerações estão dependentes da entrada contínua de dinheiro fresco injetado por novos “investidores”, e assim por diante – até que o fluxo de entradas novas inevitavelmente seca, e toda a pirâmide rui pela base.

O filme baseia-se no livro de Diana S. Henriques, uma jornalista que conseguiu entrevistar Madoff na prisão (o escroque foi condenado a 150 anos de cadeia e, já depois de obter uma redução por bom comportamento, tem a sua libertação prevista para o ano 2139, altura em que terá a bonita idade de 201 anos). E perto do final, este sociopata que defraudou e arruinou centenas de organizações e famílias honestas defende-se com a leviandade de quem não se arrependeu dos seus crimes: “Só estou aqui porque 2008 foi o ano da grande crise financeira, o governo e Wall Street estavam em pânico e precisavam de uma cabeça para rolar – fui eu o sacrificado”.

O mais estranho é que há um fundo de verdade nesta patética defesa.

Madoff, a versão revista e aumentada da Dona Branca portuguesa, pôde enganar meio mundo num montante calculado de 67 mil milhões de dólares porque ninguém fez bem o seu trabalho. Ninguém o investigou, detetou e evitou que estes crimes fossem cometidos. E não é uma coincidência, porque um Madoff não é uma exceção: é sim uma característica intrínseca do mesmo sistema financeiro internacional que não passa, afinal, de uma enorme fraude alicerçada na mentira, na hipocrisia e na vigarice. Agora apareceram os Documentos do Paraíso; voltamos a “descobrir”, como se não soubéssemos já, que as regras são só para nós, os papalvos, porque para os poderosos e super-ricos elas não se aplicam: todos escondem o seu dinheiro mais ou menos sujo num paraíso fiscal qualquer para fugir aos impostos, chamem-se Nike, Apple, Lewis Hamilton ou rainha de Inglaterra (esta última aufere os seus rendimentos diretamente do erário público e não paga impostos sobre eles, mas ainda assim canaliza-os para as ilhas Caimão – talvez pelo clima solarengo).

Vivemos num sistema imoral, nojento, insustentável, mas que beneficia todos os políticos – e portanto não é alterado por eles. Esta é uma mentira sem fim à vista, a tal ponto que quando Madoff for libertado, no ano 2139, poderá calmamente retomar a sua fraude como se nada se tivesse passado.

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