OPINIÃO: Falsos impolutos

Por Hugo Guedes - Que azar. Logo na altura em que o cérebro de cada um de nós está muito mais focado em areia, mar e gelados do que em problemas económicos, é que se descobre a ponta de um icebergue potencialmente gigantesco que levanta questões tão desconfortáveis como importantes.

Mercedes, Volkswagen, Audi, BMW e Porsche. As construtoras alemãs de carros construíram um cartel que já dura pelo menos desde os anos 1990 e que lhes serve para coordenar entre si tecnologias, fornecedores, custos, preços e tudo o mais que seja relevante para a produção de carros. Tudo sempre na premissa do costume: o que é bom para eles será mau para os clientes. Não há almoços grátis...

Há um longo historial de cartéis nas economias – no Direito da antiga Roma havia legislação que evitava que o preço do trigo fosse combinado entre os produtores, por exemplo. O capitalismo industrial só sobrevive como sistema se for dotado de um braço poderoso para os desmantelar; a corrupção que lhes é endémica destrói a concorrência e prejudica inevitavelmente os mais fracos, ou seja, os cidadãos consumidores, em favor de multinacionais já muito lucrativas. Na génese da União Europeia está precisamente a preocupação em evitar que um país – a Alemanha – voltasse a monopolizar a produção de carvão e aço, e o tratado fundador de Roma estabelece que a proteção da concorrência é uma das mais importantes funções da UE.

Estes poderes têm tido bom uso. Em 2007, duas redes clandestinas (uma em redes eléctricas liderada pela Siemens e outra, na cerveja, pela Heineken) foram multadas por fixarem preços mais altos e dividirem artificialmente o mercado. Nos últimos anos os processos abertos têm aumentado, e há apenas um mês foi aplicada a maior multa de sempre por práticas anti-concorrenciais ao gigante americano Google – 2,42 biliões de euros. Parece muito dinheiro, mas empalidecerá perante a multa aplicada aos construtores de carros, se a confissão da Volkswagen se vier a revelar verdadeira. Estas marcas combinavam tudo, até as tecnologias usadas para fazer batota nos testes de emissões que estiveram na origem do Dieselgate.

E agora? Os carros são o orgulho da Alemanha e o sustentáculo de grande parte da sua economia. Se se comprovar que Mercedes, VW, Audi, BMW e Porsche são poluentes, mentirosas e ilegalmente gananciosas, será isso suficiente para a Europa enfrentar interesses tão poderosos dentro de casa, incluindo o seu Estado-membro (de longe) mais influente? O que aconteceu até agora em relação ao Dieselgate – ou seja: nada – não encerra bons auspícios.

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