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OPINIÃO: Anatomia da crise da banca
Editorial Economia 3 min. 29.09.2016 Do nosso arquivo online

OPINIÃO: Anatomia da crise da banca

OPINIÃO: Anatomia da crise da banca

Foto: AFP
Editorial Economia 3 min. 29.09.2016 Do nosso arquivo online

OPINIÃO: Anatomia da crise da banca

Avenida da libertade, Sérgio Ferreira Borges - Se dever 6 mil euros à banca, cuidado que pode ser penhorado, mas se dever 600 milhões durma descansado, porque o seu crédito é considerado incobrável.

Avenida da libertade, Sérgio Ferreira Borges - Os escândalos na banca portuguesa vão aparecendo periodicamente, ajudando a perceber as razões de uma crise inconcebível. Em todos os exemplos, ressalta a má gestão que levou à atribuição de créditos que os próprios bancos consideram irrecuperáveis.

Nos últimos dias, foram revelados pormenores de um caso que há muito era falado. Um empresário conseguiu crédito na banca de cerca de 600 milhões de euros, sem apresentar qualquer tipo de garantia. O resultado foi aquele que muitos que o conhecem já esperavam. Os vários projectos que foi lançando, na área do turismo e do imobiliário, todos eles de perfil megalómano, foram ruindo. Alguns nem passaram do papel. E chegámos ao ponto de serem os próprios bancos a considerarem que aqueles créditos são incobráveis e, portanto, o assunto é arquivado porque nem sequer existe qualquer coisa que possa ser penhorado.

E como este não é caso único, a banca passa por enormes dificuldades que são sempre resolvidas com o dinheiro dos contribuintes. É revoltante e cansativo.

Está chegado o momento de saber quem foram os responsáveis por este regabofe. Mas estão protegidos por um escudo invisível, e mesmo quando aparece o nome de algum, nada lhe acontece. Saltam de banco para banco, continuam a ser luxuosamente remunerados e ainda recebem bónus escandalosos, no final de cada ano. Isto devia envergonhar-nos a todos.

Vejamos agora o que se passa na Caixa Geral de Depósitos, um banco que foi sempre considerado um exemplo de solidez. Desde o ano de 2000 que as coisas começaram a mudar. A CGD chegou a emprestar dinheiro a um chamado investidor, para ele reforçar a sua posição accionista noutro banco e assim colaborar, com mais peso, na demissão de uma administração. E a garantia aceite pela CGD foram as próprias acções desse investidor. Mas nesta altura, já se sabia que o banco estava em dificuldade e, portanto, o valor das acções iria cair a pique. E foi isso que aconteceu. Resultado: as ditas acções são hoje incapazes de cobrir o crédito concedido ao investidor, logo, o dinheiro emprestado é uma das grandes perdas da CGD. Por esta e por outras, o banco público precisa de uma operação urgente de recapitalização e só o Estado a pode garantir. Isto é, os contribuintes.

A Assembleia da República decidiu, entretanto, constituir uma Comissão Parlamentar de Inquérito, para se averiguar quem foram os responsáveis por esta tragédia. Quase em simultâneo, também o Ministério Público decidir investigar, o que, automaticamente, coloca o assunto a coberto do segredo de justiça. E a primeira consequência desta protecção da lei é vedar o acesso dos deputados da Comissão de Inquérito a documentos e às pessoas que podiam ajudar a esclarecer o assunto.

Assim sendo, a Comissão Parlamentar de Inquérito terá uma eficácia nula, porque praticamente não pode trabalhar. O Ministério Público, por falta de meios, sobretudo de quadros especializados também pouco irá fazer, tal como aconteceu em bancos de menor dimensão, como o Banco Português de Negócios, ou o Banco Privado Português.

E é assim que o descalabro continua, sem que os seus responsáveis sejam penalizados. E é bom ter atenção no seguinte: se dever 6 mil euros à banca, cuidado que pode ser penhorado, mas se dever 600 milhões durma descansado, porque o seu crédito é considerado incobrável.

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