Escolha as suas informações

O Plano para cortar o petróleo e o gás de Putin até 2027
Economia 8 min. 18.05.2022
RepowerEU

O Plano para cortar o petróleo e o gás de Putin até 2027

RepowerEU

O Plano para cortar o petróleo e o gás de Putin até 2027

Foto: Vladimir Astapkovich / AFP
Economia 8 min. 18.05.2022
RepowerEU

O Plano para cortar o petróleo e o gás de Putin até 2027

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
A UE paga 100 mil milhões de euros por ano à Rússia em combustíveis fósseis, mas o plano apresentado pela Comissão é para poupar, comprar a outros fornecedores e mudar para as renováveis mais depressa do que previsto. Por causa de Putin, dizem, em 2030, 45% da energia será verde.

A Comissão Europeia apresentou esta quarta-feira o muito aguardado RePowerEU, um plano para acabar com a dependência dos combustíveis russos que está a financiar a guerra na Ucrânia. No Conselho Europeu de Versalhes, a 24 de março, os líderes europeus pediram que a Comissão desenhasse propostas concretas de como consegui-lo e esse plano foi apresentado como um guia prático para, até ao fim deste ano, acabar com dois terços das importações de gás e até 2027 acabar com a importação de todos os combustíveis fósseis vindos da Rússia.

Comprar a outros fornecedores, acelerar a transição para energias verdes, com processos de autorização simplificados, e incentivar à grande poupança de energia são os três aspetos do RePowerEU que prevê que em 2030 45% da energia europeia seja verde e não 40% como se definiu nas metas da Lei do Clima. 

O Pacto Verde em velocidade supersónica

O carvão já parou de ser importado, mas a questão em relação ao gás e ao petróleo é mais complexa. Esta abordagem do Repower EU - disse esta tarde Ursula von der Leyen quando apresentou três importantes propostas de a UE intervir na guerra às nossas portas – irá ter efeitos secundários positivos: “Vai ajudar-nos a poupar mais energia, acelerar a eliminação dos combustíveis fósseis e, mais importante que tudo, dar o pontapé ao investimento nas energias verdes em grande escala. Entendo que isto vai servir para pôr o nosso Pacto Ecológico Europeu em velocidade supersónica”.

A primeira proposta ambiciosa da comissão, apresentada a 8 de março, era de reduzir a dependência do gás russo em dois terços até ao fim deste ano. Embora parecesse impossível, Von der Leyen disse que neste momento já há comparações que podem ser feitas: “Em 2021, 40% do gás importado vinha da Rússia e em Abril deste ano já era 26% , estamos na direção certa e agora temos que acelerar”.

O vice-presidente da Comissão responsável pelo Clima, Frans Timmermans, salientou que “há poucos meses ninguém achava possível que podíamos deixar os combustíveis fósseis russos em 5 anos. E agora temos um plano que nos vai levar lá em 2027”. 

Para já, há 225 mil milhões de euros de empréstimos disponíveis dos Fundos de Recuperação e Resiliência para serem mobilizados para o RePowerEU. E esses empréstimos podem ser transferidos de países que não precisam para outros que têm que fazer alterações nas infraestruturas, como criar novos pipelines, ou terminais para o gás natural liquefeito (LNG).

O plano tem três componentes. Reduzir o consumo de energia, com a sensibilização dos cidadãos e da indústria e também intervir nas casas com fraco isolamento térmico. Este é “o aspeto mais simples, mas muito eficaz”, disse a presidente da Comissão. O segundo aspeto é comprar combustível a “outros fornecedores de confiança”. O terceiro aspeto, de mais longo prazo, é acelerar a transição energética, com investimento massivo em energia renovável.

Poupar: “A energia mais barata é a que não se usa”

 “Vamos tomar medidas de poupança. A energia mais barata é aquela que não se usa”, disse, esta tarde, aos jornalistas Frans Timmermas. Porém, não haverá medidas coercivas ou de racionamento, garantiu. A ideia é “interpelar cada cidadão para que olhe criticamente para o seu consumo de energia, não necessariamente para prejudicar a sua vida diária”. 

Timmermans salientou que os seus netos – dos 34 anos aos 16 – conseguem fazer uma vida onde esses cálculos já são automáticos. A redução do consumo levará também à redução da fatura. Os incentivos que os governos devem criar ao isolamento térmico de casas também levarão à poupança energética. 

Também a Comissão irá liderar pelo exemplo, disse, e começar a pôr painéis solares nos telhados dos seus edifícios. O presidente francês, Emmanuel Macron falou recentemente da necessidade de os europeus adotarem o novo estilo da “sobriedade energética”. Timmermans salientou que este esforço contra a guerra também faz parte “do estilo de vida europeu, que é o da adaptação, mantermo-nos curiosos e inovadores perante os desafios. A nossa adaptabilidade e o respeito pelos nossos valores é o que nos faz europeus. Na guerra de Putin temos que tirar o dinheiro do bolso dele e vejo que muitos cidadãos compreendem isto”.

Diversificar o fornecimento: Qatar, Argélia e Egito são os novos parceiros

Embora, como disse Timmermans, a transição acelerada para as renováveis esteja no coração do RePower EU, a breve prazo, é preciso encontrar alternativas aos combustíveis fósseis russos. “É claro que estamos numa situação de emergência e temos que sair da dependência russa muito depressa. Imagine-se a revolta social se não arranjássemos combustíveis fósseis noutro sítio. Neste momento ainda não temos alternativa”.

Por outro lado, disse Timmermans, os parceiros internacionais com que a UE está a negociar, como o Egito, o Qatar, ou a Argélia, sabem que estamos a mudar para energias alternativas. “E estamos a propor-lhes um negócio duplo. Um imediato para nos fornecerem combustíveis fósseis e outro a longo prazo para nos fornecerem hidrogénio verde”. Segundo explicou esta tarde, muitos países africanos vão criar muita energia através de painéis solares, que terão em excesso, e poderão exportá-la sob a forma de hidrogénio. “E isto vai oferecer uma enorme oportunidade, sobretudo em Africa”, concluiu.

Copiar o exemplo das vacinas

Outra das propostas do RePower EU é que as compras de combustíveis fósseis serão feitas em conjunto, através de uma equipa especial da Comissão designada para o efeito – tal como foi feito com a compra das vacinas -, para conseguir reduzir o preço da energia. “Tornando-se o maior mercado comprador de combustível do mundo, a UE terá muito mais poder de negociação do que se fosse cada um dos países a comprar por si e craindo competição  entre eles”.A compra conjunta de gás, gás e LNG será para todos os países que queiram participar, bem como a Ucrânia, a Moldávia, a Geórgia e os países dos Balcãs Ocidentais.

Com a alteração de pipelines, haverá necessidade de fazer novas infraestruturas, mas Timmermans salientou que não serão “elefantes brancos”, porque os terminais para o gás natural liquefeito poderão servir para os gases da transição energética: o hidrogénio verde do futuro e para a amonia.

Renováveis. A estrela é o painel solar obrigatório nos telhados

A urgência de criar o RePower EU é o de parar o financiamento ao Kremlin e à guerra na Ucrânia, mas o resultado é que a UE irá alcançar metas climáticas mais ambiciosas. “As energias renováveis estão no coração deste plano”, disse a comissária para a Energia Kadri Simson."Grande parte da libertação da dependência deve ser alcançada com poupança de energia e renováveis”.

Em 2030, a percentagem de energia eólica e solar dobra de 33% para 66%. “Isto é um objetivo desafiante mas possível, mas quando se fala do desenvolvimento rápido das energias renováveis há um elefante na sala”, alertou Simson.

Atualmente, as autorizações para instalação de equipamentos de parques eólicos são de 9 anos e para os solares de 4. Continuando a este ritmo, não seria possível acelerar a transição. Por isso, a proposta é que as autorizações passem a ser concedidas em 12 meses. “Em primeiro lugar são propostas áreas de preferência “go to areas””, que à partida não têm constrangimentos, sobretudo os ambientais.

Dentro de pouco tempo vai ser também anunciada uma cooperação com os países do Mar do Norte para a instalação urgente de plataformas eólicas “offshore”. Mas a energia solar “é uma peça que falta”, uma vez que não foi criada uma estratégia específica para esta forma de energia. Mas é, disse Simson, “especialmente adaptada para este desafio, até porque o seu custo diminuiu 80% na última década”.

O ovo de Colombo apresentado pelo RePower EU é o de tornar os painéis solares nos telhados obrigatórios e, sobretudo, painéis construídos na União Europeia, fazendo uso de materiais inovadores. A proposta é de tornar obrigatório a colocação de painéis solares nos telhados dos edifícios públicos e comerciais até 2025 e para todos novos edifícios residenciais em 2029. Segundo a comissária europeia da Energia, esta medida será um mudar do jogo, já que vai permitir as chamadas comunidades energéticas aproveitar um grande recurso, os telhados, sem grandes custos adicionais.

 O biometano, produzido em explorações agrícolas, é também um combustível com grande potencial que irá ser explorado, explicou. E até ao verão prevê-se que sejam aprovados os primeiros grandes projetos de hidrogénio na UE.

A médio prazo, até 2027, os países podem criar os seus planos de RePower, ao Abrigo dos Fundos de Recuperação e Resiliência (criados para fazer a re-estruturação económica pós-pandemia) - para investimentos até 300 mil milhões de euros.

Putin não vai conseguir desestabilizar a Europa usando a energia, promete Timmermans  

Outra das propostas da Comissão é que a 1 de novembro as reservas de gás europeias (o gás serve em grande parte dos países para o aquecimento) esteja a 80% de capacidade. Isto para evitar a manobra de retaliação de Putin – que já aplicou na Polónia e na Bulgária – de fechar as torneiras dos pipelines deixando a Europa Central a tiritar.

Timmermans, no entanto, prometeu que “não haverá um único europeu a passar frio”. Como costuma dizer “vai ser difícil como o raio”, mas “se tivermos disrupções massivas vamos conseguir adaptar, através da solidariedade entre os países. Por muito que Putin queira não vai conseguir desestabilizar a Europa usando o instrumento da energia”.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Instabilidade dos mercados e especulação dos produtores está a fazer disparar o preço da eletricidade e eventuais cortes de abastecimento. A UE teme meses frios e de crise económica. A próxima cimeira europeia irá discutir o tema.