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O novo pânico? O mundo a enfrentar uma fome bíblica
Economia 6 min. 20.05.2022 Do nosso arquivo online
Guerra na Ucrânia

O novo pânico? O mundo a enfrentar uma fome bíblica

Em 2021, a Rússia e a Ucrânia estavam entre os maiores exportadores de cereais e sementes de girassol.
Guerra na Ucrânia

O novo pânico? O mundo a enfrentar uma fome bíblica

Em 2021, a Rússia e a Ucrânia estavam entre os maiores exportadores de cereais e sementes de girassol.
Foto: Nuno Veiga/Lusa
Economia 6 min. 20.05.2022 Do nosso arquivo online
Guerra na Ucrânia

O novo pânico? O mundo a enfrentar uma fome bíblica

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
O bloqueio russo à saída de cereais da Ucrânia pode provocar uma fome à escala mundial, sobretudo em África. A UE, os EUA e as Nações Unidas pedem à Rússia para permitir corredores de transporte para outros portos europeus. “Entrámos na era da diplomacia alimentar”, disse o chefe das Relações Externas da UE.

O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, acusou esta sexta-feira a Rússia de estar a provocar uma crise alimentar mundial sem precedentes na sequência da invasão da Ucrânia. “As tropas russas estão a bombardear os campos e a impedir o trabalho agrícola, pilhando reservas de alimentos, e também a bloquear portos ucranianos”.

Em 2021, a Rússia e a Ucrânia estavam entre os maiores exportadores de cereais e sementes de girassol. Neste momento, o comércio mundial de sementes de girassol, está a metade. Quase 50% do trigo, quase 40 % de centeio e 60% do milho que seria colhido este verão está em zonas de risco. As colheitas do próximo outono, cujas sementes teriam que ser lançadas à terra no verão, estão também em causa – se a Rússia não se retirar imediatamente dos terrenos agrícolas. 

  Maiores vítimas serão as populações vulneráveis

“As consequências disto é que a comida falta e continuará a faltar, ou vai ser muito mais cara do que muitas pessoas poderão pagar. E isto vai aprofundar a pobreza e a desigualdade. As maiores vítimas serão as populações vulneráveis à volta do mundo, particularmente nos países mais pobres, que dependem de importações de comida e de fertilizantes”, disse Josep Borrel, na tarde desta sexta-feira, em Bruxelas, depois de um conselho de ministros europeus do Desenvolvimento e da Cooperação.

A exportação de cereais da Ucrânia caiu de 5 milhões de toneladas por mês antes da invasão russa de 24 de fevereiro, para 200 toneladas em março e uma tonelada em abril. O Programa Alimentar das Nações Unidas (UNFP) era um dos grandes compradores do trigo das terras muito férteis da Ucrânia que serviam para alimentar populações carentes em África.

“Números aterrorizadores”

Antes da guerra, o mundo já vivia uma situação extrema, com 193 milhões de pessoas em 53 países a enfrentar “insegurança alimentar aguda”. Agora, diz o representante pela política externa europeia, “especialmente no Corno de África, onde as pessoas podem morrer de fome, os números são realmente aterrorizadores”.

Para esta crise galopante, disse Borrell, “precisamos de mais dinheiro e precisamos de uma abordagem nova. O orçamento da União Europeia não chega e foi pedido aos Estados-membros que contribuam com mais fundos dos seus próprios orçamentos”. A discussão ao longo da manhã desta sexta-feira foi sobre “solidariedade, apoio de emergência, e como trabalhar para reduzir os preços dos bens alimentares”. Há 70 parceiros com os quais os ministros irão trabalhar para aumentar a capacidade dos sistemas alimentares. 

Tirar 30 milhões de toneladas de cereal dos silos na Ucrânia

Além das colheitas que ficarão nos campos, ou não serão semeadas, há cerca de 30 milhões de toneladas de cereais em silos – muitas delas no porto de Odessa. “Estão bloqueadas, pela guerra de Putin”, disse Borrell, que explicou que muitos barcos estão à espera de carregar estes cereais, mas não podem porque a marinha russa está a cercar os portos ucranianos. A União Europeia, disse, está – juntamente com a ONU e os países do G7 – à procura de maneiras alternativas de resgatar estes cereais, incluindo uma proposta de se criar corredores de transportes para encaminhar os cereais para outros portos europeus no Mar Negro.

“Lembram-se da diplomacia das vacinas? Agora estamos a entrar num período de diplomacia alimentar”, analisou. E, disse ainda, é preciso desmontar a narrativa russa de que são as sanções do mundo ocidental que estão a provocar a fome no mundo.  

Na próxima reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE, em junho, vai ser criado um plano “para lidar com as consequências geopolíticas desta guerra”, adiantou. E o Conselho Europeu irá também avançar nesse processo na próxima reunião, no fim deste mês.

Rússia ameaça: ou acabam as sanções ou não há cereais

Nesta quinta-feira, dia 19, também o secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, acusou a Rússia de estar a usar o bloqueio ao fornecimento alimentar mundial como uma arma. 

Depois de vários pedidos do mundo ocidental para a Rússia permitir o fluxo de cereais da Ucrânia, o antigo presidente russo Dmitry Medvedev, e atual vice-presidente do Conselho de Segurança, foi bem explícito sobre o plano do Kremlin. Respondeu que “não há lógica em sermos vítimas de sanções loucas contra nós, por um lado, e por outro, estejam a exigir a libertação de bens alimentares”.

Em 2021, a Rússia e a Ucrânia estavam entre os maiores exportadores de cereais e sementes de girassol mundiais. Além de bloquear a saída dos cereais ucranianos, o Kremlin também não irá exportar os seus próprios cereais, ou outros bens alimentares, ameaçou Medvedev. 

Nesta quinta-feira, na reunião das Nações Unidas sobre Segurança Alimentar, António Guterres juntou-se às vozes que pedem à Rússia para libertar os stocks de cereais na Ucrânia. A desregulação dos sistemas alimentares, provocada pelas alterações climáticas – com vários países em seca extrema – os efeitos da pandemia, a falta de fertilizantes, a que se juntam os devastadores efeitos da guerra num dos principais celeiros do mundo, pode levar, segundo o secretário-geral das Nações Unidas a uma “fome em massa numa crise que poderá arrastar-se anos”.

A crise de refugiados: 100 milhões de deslocados em 2022

Na reunião dos responsáveis pelas pastas da Cooperação e Desenvolvimento da UE desta sexta-feira, esteve também presente pela primeira vez Filippo Grandi, Alto Comissário para os Refugiados das Nações Unidas. Segundo Josep Borrell, o diplomata da ONU deu conta de uma situação desesperada. 

“Há cerca de um ano havia 84 milhões de pessoas deslocadas no mundo inteiro. Neste momento está a chegar ao teto de 100 milhões de pessoas, por muitos motivos, desde as alterações climáticas, à instabilidade política, à guerra”. Só a Ucrânia contribuiu em três meses  com 6 milhões de pessoas que passaram as fronteiras para fugir da guerra, enquanto que 7.8 milhões estão deslocadas dentro do próprio país para escapar às zonas mais bombardeadas.

A UE, é, segundo Borrell, o segundo maior doador do programa das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR), mas as necessidades humanitárias ultrapassam muito, neste momento, a generosidade internacional. “A situação está a piorar em muitos países do mundo - como o Filippo nos explicou - desde o Afeganistão, a Birmânia, ao Corno de África, o número de deslocados não para de aumentar e isto está a colocar em risco a capacidade financeira de ajudar estas pessoas”. 

Segundo Borrell, o orçamento europeu não tem capacidade para dar mais ajuda e foi pedido aos Estados-membros para cooperarem e aumentarem o seu contributo também nesta área: “Temos que nos tornar mais eficazes a fornecer apoio, e temos que aumentar brutalmente os recursos disponíveis”. 

A situação é vista com muita preocupação por todos os países, disse, “porque sabemos que esta situação pode provocar instabilidade política mundial. E não pagar o preço hoje destas crises, poderá levar-nos a pagar um preço maior amanhã”.

 

 

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