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O inverno está a chegar. Comissão anuncia novas medidas na terça-feira
Economia 7 min. 13.10.2022
Crise energética

O inverno está a chegar. Comissão anuncia novas medidas na terça-feira

A comissária da Energia, Kadri Simson (na imagem), disse, após a reunião em Praga, que a Comissão irá apresentar propostas na muito falada (mas sem progressos reais) plataforma de compra de gás conjunta.
Crise energética

O inverno está a chegar. Comissão anuncia novas medidas na terça-feira

A comissária da Energia, Kadri Simson (na imagem), disse, após a reunião em Praga, que a Comissão irá apresentar propostas na muito falada (mas sem progressos reais) plataforma de compra de gás conjunta.
Foto: AFP
Economia 7 min. 13.10.2022
Crise energética

O inverno está a chegar. Comissão anuncia novas medidas na terça-feira

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Arrancar com a compra conjunta de gás o mais depressa possível, para baixar os preços, e preparar já o inverno de 2023/24 são as preocupações da Comissão.

À medida que continua a contagem decrescente para o inverno, cresce o nervosismo na União Europeia para atingir o máximo de segurança energética possível, mesmo que Putin tenha dito que está disposto a aumentar o fornecimento de gás para a Europa. 

Depois da nova reunião dos ministros da Energia desta quarta-feira, a Comissão Europeia anunciou que na próxima terça-feira, dia 18 de outubro, irá apresentar um novo pacote de medidas para reduzir os preços da eletricidade. As discussões sobre como baixar os preços recorde da eletricidade (no mercado europeu ligados ao do gás) e garantir que não há blackouts têm dominado as últimas semanas em Bruxelas e nas capitais europeias.


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A comissária da Energia, Kadri Simson, disse, após a reunião em Praga, que a Comissão irá apresentar propostas na muito falada (mas sem progressos reais) plataforma de compra de gás conjunta e, também, medidas para garantir a solidariedade de gás entre os países, no caso de um deles sofrer cortes de fornecimento no próximo inverno. Manter um conforto térmico semelhante em todos os países e as empresas e fábricas a funcionar é visto como uma maneira de evitar perigosas divisões no bloco.

A presidência checa da União Europeia já garantiu que dada a urgência em resolver a situação no que toca à diminuição dos preços do gás e eletricidade, irá convocar “todas as reuniões que forem necessárias” para os países chegarem a acordo sobre esta matéria.

Limite ao preço de compra de gás: "à bruta" ou de forma negociada

O teto para o preço de gás, imposto a todos os fornecedores, sem exceção – que um grupo de 15 países está a pressionar Von der Leyen para avançar nesse sentido – não é, no entanto, uma medida que a Comissão apoie. 

Vários responsáveis da Comissão têm dito que tal medida poderia ter consequências inesperadas na segurança do fornecimento – a lógica é a de que se os preços forem unilateralmente impostos pela UE, os fornecedores podem desviar as suas reservas para outros países. Mesmo assim, a comissária Kadri Simson referiu que, na nova proposta, vai estar contemplado esse teto como um mecanismo temporário de limite de preços, o que poderia funcionar. Para testar a hipótese.


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A fórmula que a Comissão prefere é negociar com os “fornecedores de confiança”, que não a Rússia, uma descida de preços. Os lucros que esses fornecedores estão a ter este ano são inesperados e gerados pela manipulação do mercado feita por Putin e, por isso, disse Von der Leyen recentemente, cabe aos fornecedores diminuírem os valores que estão a cobrar sem sequer porem em causa um lucro, mesmo assim, bastante generoso. Seria esse o seu esforço de guerra. E um apoio indireto à Ucrânia.

De momento, embora as reservas de gás europeias estejam, segundo a Comissão, cheias a 90% da sua capacidade, ainda subsiste nervosismo sobre a pressão no sistema energético europeu durante o inverno em que a procura – por causa do aquecimento – dispara. A questão que também se põe é se os preços do gás e da eletricidade não baixarem, muitos europeus não terão outra escolha senão viverem em casas geladas nos meses mais frios.

Putin ainda ameaça congelar os europeus e sabotar infraestruturas

Numa conferência em Moscovo, nesta quarta-feira, o CEO da Gazprom (a companhia russa que fornece o gás à União Europeia) ameaçava que as casas nos países da UE podiam congelar durante o inverno. 

Introduzindo mais confusão, na mesma conferência, Vladimir Putin disse a propósito da sabotagem recente dos pipelines Nord Stream 1 e 2, que o incidente mostrava como qualquer “infraestrutura essencial de transporte, energia ou comunicação está ameaçada, independentemente da parte do mundo em que esteja localizada, por quem é controlada, em terra ou sob o mar”. Isto, sem nunca reconhecer a autoria do ataque, que as autoridades europeias estão 100% convencidas ter sido da Rússia.


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Na mesma tirada, Putin disse que um dos gasodutos está operacional e que a Rússia está preparada para enviar o seu gás para a UE. “A bola está do lado da UE”, considerou, e a Rússia está preparada para enviar “volumes adicionais durante o outono e o inverno”. Subjacente está a chantagem de que esses ‘volumes adicionais’ seriam entregues se os países europeus se mostrassem dispostos a levantar as sanções em vigor contra Moscovo por causa da brutal invasão da Ucrânia.

Esta aliança desesperada com a Rússia parece, no entanto, longe dos planos da Comissão que, no pacote que deverá apresentar terça-feira, prevê mais medidas para reduzir a procura de gás. Neste momento vigora um pedido de redução voluntária de 15% na procura, em todos os países, mas a medida pode tornar-se obrigatória se os níveis de fornecimento chegarem a linha vermelha.

A Plataforma de compra à espera de funcionar

Para contornar a questão de impor ou não um limite de preço na compra de gás a todos os fornecedores – de que a Alemanha e os Países Baixos são os maiores opositores – a Comissão pretende forçar a sua proposta de comprar gás em conjunto para todos (no mesmo esquema que resultou com a compra de vacinas). A medida evitaria que quando fossem comprar gás nos mercados internacionais, onde neste momento o gás é uma mercadoria escassa, os países estivessem a influenciar a subida dos preços, competindo uns contra os outros.


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A plataforma já foi formada, com o nome EU Energy Platform, mas, como reconheceu esta quinta-feira o porta-voz da Comissão para a Energia, Tim McPhie, não foi ainda comprado “nenhum metro cúbico de gás”, embora a primeira reunião tenha sido a 8 de abril. “Temos usado esta plataforma como um memorando de entendimento, tendo tido conversas com parceiros internacionais, como a Noruega, a Argélia e o Azerbeijão”, explicou. É preciso que os países adiram a esta ideia – e isso ainda não aconteceu. 

Na reunião informal dos ministros da Energia esta quarta-feira, em Praga, a iniciativa ganhou mais apoiantes, segundo afirmaram várias fontes. “A ideia de os países se juntarem para comprar gás em conjunto, é nova, é fresca. E é uma grande mudança em termos de mercado”, disse esta quinta-feira Tim McPhie aos jornalistas, adiantando que tem também havido conversas com a indústria, os operadores no mercado, para aceitarem a UE no seu todo como um cliente único.

Durante este fim de semana, a Comissão irá estar a trabalhar nas propostas sobre energia que irá apresentar terça-feira. A qualquer altura a presidência checa poderá convocar novo conselho de ministros da Energia e no final do mês haverá em Bruxelas um Conselho Europeu, com os líderes dos 27, onde o pacote para salvar a Europa do inverno frio e da falta de dinheiro para pagar a fatura da eletricidade poderá ser aprovado.

  “O próximo inverno pode ser pior que este”  

Quanto ao plano RePower EU – que é uma abordagem sobre o mercado de energia europeu para nos libertarmos dos fornecedores russos, pouparmos e acelerarmos a transição energética para as energias limpas produzidas dentro da UE, no curto e no longo prazo – o Conselho Europeu já decidiu a sua posição, a 4 de outubro, e está agora preparado para entrar em negociações com o Parlamento Europeu.


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Porque, agora que este inverno parece estar mais ou menos assegurado – estando os europeus conscientes também da necessária ‘sobriedade energética’ –, é o próximo inverno, o de 2023/24, que está a assustar os peritos.  O diretor executivo da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, foi convidado para o conselho de ministros da Energia desta quarta-feira e advertiu que “o próximo inverno pode ser pior que este”. 

A competição internacional pelo gás está ao rubro e não deverá abrandar no próximo ano, quando se espera que os mercados asiáticos aumentem as suas compras.

 

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