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O bê-á-bá da inflação
Economia 6 min. 16.07.2019

O bê-á-bá da inflação

O bê-á-bá da inflação

Foto: Pixabay
Economia 6 min. 16.07.2019

O bê-á-bá da inflação

Paula CRAVINA DE SOUSA
Paula CRAVINA DE SOUSA
A taxa de inflação é publicada todos os meses. Pode parecer um indicador complexo (e é) e distante, mas tem a ver com algo que todos sentem na carteira: o aumento ou a descida dos preços. Só na alimentação são comparados os preços de 20 mil produtos. E a habitação acaba por não ter um peso muito significativo na inflação. É que a compra de casas não entra no cálculo, uma vez que é considerada investimento. Só o pagamento de rendas é tido em conta, porque é considerado consumo.

Qual é a coisa qual é ela que é publicada todos os meses e mede a variação dos preços? É normalmente um indicador a que poucos prestam atenção a não ser quando tem associada a palavra indexação. Trata-se da taxa de inflação. O Contacto foi ao instituto de estatística luxemburguês (Statec) ter uma aula sobre inflação e explica tudo: como é calculada, qual o peso que a habitação tem na subida dos preços, e a indexação salarial.

Na quarta-feira passada, o Statec revelou que a taxa anual de inflação desceu de 2,1%, para 1,8% em junho. Mas o que é que este número tem dentro? O Contacto descomplica e troca tudo por miúdos.

O melhor é começar pelo básico: o que é a inflação? De forma simples, este indicador mede a variação dos preços de bens e serviços ao longo do tempo. Fala-se de inflação quando há uma subida generalizada dos preços. Basicamente, define-se um cabaz de produtos, comparam-se os preços ao longo do tempo. Como é que isto é feito? Imagina-se imediatamente um batalhão de técnicos sentados à frente do computador. Também passa por aí, mas não só. E não, não são um batalhão: “a equipa é composta por 12 pessoas”, como explicou o responsável do Statec para a área dos preços, Marc Ferring.

No entanto, há uma quantidade muito significativa de dados que têm de ser tratados. O cálculo da inflação decompõe-se em várias categorias, como por exemplo a alimentação e bebidas não alcoólicas, vestuário, habitação, combustíveis, só para nomear apenas algumas das componentes. Cada uma destas categorias divide-se noutras e estas ainda se subdividem. Por exemplo, a categoria de alimentação divide-se em pão e cereais, carne, peixe, fruta, legumes, leite, entre outros. E em cada uma destas ’classes’ há ainda ’subclasses’. O pão e cereais divide-se em farinha, pastelaria, entre outros.

Ora, concentremo-nos (por agora) em apenas uma das categorias, a alimentação. Todos os meses, os 12 funcionários do Statec têm de tratar a informação relativa a 20 mil produtos de vários supermercados, para aferir a variação dos preços. O objetivo é comparar os mesmos produtos nos mesmos supermercados. Esta informação vem de duas fontes. Uma implica a deslocação de cinco ou seis técnicos de inquérito aos supermercados para recolher os preços de oito mil produtos. Tarefa que repetem todos os meses. Além disso, desde 2018, o Statec passou a receber informação relativa à passagem em caixa (vendas e preços) de mais 12 mil produtos e que é enviada pelos supermercados. A totalidade dos ficheiros relativos do conjunto de 20 mil bens alimentares é depois analisada para encontrar a variação dos preços deste item. Bem diferente do que acontecia em 1921, quando o índice geral de preços surgiu apenas com a comparação entre 13 produtos.

Contudo, nem todo o trabalho tem uma dimensão assim tão grande, já que “nem tudo obriga a deslocações”. Marc Ferring exemplificou com outro tipo de bem, as flores. “Recorremos muito ao telefone também. Por exemplo, se queremos saber os preços de três flores ligamos para uma amostra de floristas e recolhemos assim os dados”. Há ainda informação que chega por via informática, caso dos já referidos dados sobre os supermercados, mas também de outros. “Quanto aos medicamentos, recebemos a informação da Caixa Nacional de Saúde (CNS)”, explica Ferring. Os valores das creches também vêm por via informática. Os preços do vestuário são apurados menos vezes, quando mudam as coleções; os valores relativos aos impostos autárquicos são apurados menos vezes, “porque não estão sempre a mudar”.

É preciso ter também em conta que nem todas as compenentes têm o mesmo peso no cálculo da inflação. Por exemplo, o aumento dos preços dos combustíveis pesa mais do que o aumento dos preços das comunicações fixas. Os gastos das famílias com o primeiro bem são muito mais significativos do que as despesas com comunicações fixas, que caíram em desuso. Por isso é que, mesmo que os preços de alguns bens desçam, a subida de outros – com um peso maior – pode fazer subir a inflação.

Influência da habitação no aumento dos preços

E a habitação entra para estas contas? E se entra, por que motivo é que, se os preços sobem cerca de 5%, a inflação não dispara? As casas entram nas contas, mas apenas o arrendamento. Marc Ferring explica que uma coisa é o pagamento das rendas que conta como consumo e outra coisa é a compra e venda de alojamentos, que conta como investimento. Logo, a compra de habitação não entra no cálculo da inflação. Na prática, o Statec só conta com os arrendamentos, que têm a ver com os preços no consumidor. Além disso, apesar de os valores das rendas também subirem de ano para ano, o Statec analisa sempre os preços nas mesmas casas, num ’stock’ de casas definido. Em causa está um total de cerca de 800 alojamentos, entre 750 moradias e apartamentos e 50 garagens. Ora, nestes casos, o valor do arrendamento “não muda muitas vezes”. “Normalmente só há alteração do valor da renda quando há mudança de inquilino; é nessas alturas que os proprietários aproveitam para subir os preços”, acrescenta Ferring.

Os técnicos do Statec comparam um ’stock’ de 800 alojamentos. Porém as rendas só mudam de forma significativa quando mudam os inquilinos.

Na componente da habitação entram também a água, gás, eletricidade e combustíveis. É, por isso, uma componente com produtos em que os preços mudam pouco – como o caso das rendas – mas também com produtos, cujos preços são muito voláteis - caso dos combustíveis.

Analisando, por exemplo, os produtos que mais contribuíram para o aumento dos preços no ano passado, face a 2017, em primeiro lugar surge o combustível de aquecimento, seguido do diesel. As rendas surgem apenas em sétimo lugar.

Outra das questões que mais dúvidas pode levantar tem a ver com os números da taxa de inflação apresentados pelo instituto de estatística do Luxemburgo (Statec) e pelo gabinete de estatísticas da União Europeia (UE), o Eurostat. Os valores apresentados para a inflação do Luxemburgo são diferentes. Por exemplo, em junho, o Eurostat dá uma taxa de inflação de 1,5% e o Statec de 1,8%. Isto acontece porque o Statec utiliza apenas o consumo dos residentes e o Eurostat tem em conta residentes e não-residentes, no seu cálculo. Logo, o peso das várias componentes num e outro indicador pode ser diferente, até porque no Grão-Ducado o consumo dos não-residentes tem uma grande influência nalguns bens e serviços.

A indexação também depende da subida dos preços. Esta ocorre quando o índice de preços ultrapassa um determinado nível. A próxima vez que os salários e pensões devem subir 2,5% é no final deste ano, ou o mais tardar, no início de 2020. A última vez que ocorreu foi em agosto do ano passado e antes disso em janeiro de 2017. Os trabalhadores no Grão-ducado tiveram de esperar anos por este aumento de salários, uma vez que não havia lugar a indexação desde outubro de 2013.