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Nora Back: “Nós não temos de ter medo do patrão”
Economia 16 min. 20.09.2018

Nora Back: “Nós não temos de ter medo do patrão”

Nora Back.

Nora Back: “Nós não temos de ter medo do patrão”

Nora Back.
Foto: Lex Kleren
Economia 16 min. 20.09.2018

Nora Back: “Nós não temos de ter medo do patrão”

Paula CRAVINA DE SOUSA
Paula CRAVINA DE SOUSA
A recém eleita secretária-geral da central sindical OGBL fala sobre o mercado laboral no Luxemburgo e sobre o facto de muitos trabalhadores ainda terem medo de se sindicalizar. Aquela que deverá ser a futura presidente da OGBL considera que é altura de reduzir o número de horas trabalhadas e defende que um aumento de cem euros no salário mínimo não chega. Back refere ainda o momento crucial para os sindicatos, as eleições sociais em março de 2019 e as relações com o LCGB. “Teremos guerra eleitoral durante sete meses”, promete.


É a nova secretária-geral jovem e mulher. Será provavelmente a próxima presidente. É uma nova era para a OGBL?

Sim.

Em que medida? Quais serão as prioridades e as principais mudanças?

É uma novidade para a OGBL ter uma mulher nesta posição [de secretária-geral] e jovem. É um sinal de que a OGBL não é uma estrutura envelhecida, como muitos pensam, em que só trabalham homens mais velhos que lideram o sindicato. Não é o caso. Nem nunca foi o caso, temos muitas mulheres a trabalhar no sindicato e que têm responsabilidades políticas. Só que não é um fenómeno muito vísivel de fora. Por isso, penso que o que se passa aqui comigo não é verdadeiramente novo para nós, mas sim para o grande público. Para as pessoas que estão de fora é um sinal positivo e mostra bem que não somos tradicionalistas e pouco modernos. Prova também que o atual presidente e as estruturas sindicais têm abertura de espírito. É uma boa evolução para todos nós.

A campanha eleitoral já começou. Uma das medidas apresentadas tem a ver com a redução do horário de trabalho: o LSAP quer uma redução das 40 para as 38 horas. A OGBL é favorável a esta medida?

A redução do horário de trabalho é uma reivindicação de longa data do sindicato. É necessária uma redução do tempo semanal de trabalho e temos hoje todos os argumentos do nosso lado.

Em que medida?

Estamos a passar por grandes mudanças no mundo do trabalho, temos a digitalização e muitos empregos vão passar a fazer-se de forma diferente no futuro. Este é o momento de pensar numa redução do horário de trabalho sem perda de salário para os trabalhadores. A discussão sobre a harmonização entre a vida privada e a profissional é mais atual que nunca. Hoje em dia, temos o casal em que ambos trabalham, e em que ambos cuidam dos filhos. Temos uma obrigação no sindicato – que se ocupa sobretudo do mercado de trabalho – de pensar numa repartição melhor dos horários de trabalho, em função da organização da vida privada. Como os empregos são cada vez mais flexíveis e como exigem cada vez mais que estejamos sempre disponíveis com o telemóvel ligado, conectados nas redes sociais, é preciso pensar em organizar melhor as duas vertentes da vida. Neste sentido, é mais do que atual continuar a reivindicar a redução do tempo de trabalho.

E as 38 horas são suficientes?

Nunca demos o número concreto de horas que é preciso reduzir, porque é uma discussão muito difícil. Penso que 38 horas será já um passo em frente e ficaremos muito contentes se se conseguir uma redução para as 38 horas. Há alguns setores que já têm uma redução do horário de trabalho prevista no contrato coletivo, como os hospitais, por exemplo; mas há outros e estão entre as 38 e as 39 horas.

Num país rico como o Luxemburgo, há muita gente que tem um trabalho a tempo inteiro, com 40 horas, e que vive na pobreza.

O salário mínimo é outra das bandeiras políticas das próximas eleições. O LSAP, por exemplo, propõe um aumento de 100 euros...

Para nós não é suficiente. E aqui temos também todos os argumentos do nosso lado. No Luxemburgo temos uma taxa muito elevada de pessoas que vive no limiar de pobreza. Num país rico como o Luxemburgo, há muita gente que tem um trabalho a tempo inteiro, com 40 horas, e que vive na pobreza. Não é normal, é aberrante e escandaloso para um país como este que tenhamos tantas pessoas com um trabalho normal e que se encontram numa situação de pobreza. Independentemente das pessoas que estão no desemprego e procuram um trabalho, e que estão afastadas do sistema e se encontram também numa situação de pobreza. Mas se falarmos de pessoas que trabalham e ganham um salário que deveria ser decente e que são pobres e que não conseguem chegar ao fim do mês... é escandaloso. É preciso fazer qualquer coisa ao nível dos salários. Atualmente, no Luxemburgo, pouco mais de metade das empresas estão cobertas por uma convenção coletiva: aí temos alguma abertura para negociar e há uma relação de forças que poderá levar a um aumento para um nível um pouco acima do salário mínimo.

E onde não há acordo coletivo?

Onde não há convenção coletiva, como é o caso do comércio, dos restaurantes, das limpezas, dos hotéis, pode ter a certeza que estão no nível mínimo. Se tivermos em conta o salário mínimo, este não é suficiente para viver decentemente aqui. É claro que os 100 euros não são suficientes. E também não queremos que o salário mínimo se mantenha ou suba apenas muito ligeiramente ou que o rendimento seja compensado por outras ajudas públicas como o cheque-serviço, por exemplo. Esse não é para nós um modelo de sociedade que é aceitável.

São as empresas que devem ter esse encargo e pagar salários mais elevados...

Sim, não queremos que as famílias estejam dependentes de presentes dos governos, sejam de direita ou de esquerda, para poderem viver. Não, eles trabalham 40 horas, com um salário mínimo, produzem e contribuem para a produtividade da empresa.

No que respeita ao ’tiers payant’ (fim do pagamento antecipado das consultas médicas), a proposta não chegou a ser aprovada nesta legislatura. Há uma verdadeira vontade política para fazer avançar o ’tiers payant’?

Não sei. É difícil dizer. Havia uma vontade anunciada, da parte dos ministros da Saúde e da Segurança Social, dois ministros do LSAP, o que corresponde à sua ideologia; também não podemos colocar em causa a vontade em termos de concertação social no setor da saúde. Quanto ao resto é difícil dizer os cordéis que foram puxados à esquerda e à direita nos bastidores. É uma das nossas prioridades e vamos reforçar a nossa posição sobre algumas medidas como é o caso desta.

Sobre o sistema de pensões, organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Comissão Europeia têm dito que o sistema não é sustentável. A OGBL tem uma posição diferente...

Sempre dissemos que isso não é verdade, são estimativas feitas com base em números que indicam qual será o nível da caixa de pensões em 2060. Isso não é possível e a história prova-o. De cada vez que o famoso plafond é avaliado foi completamente ao lado. Quando negociamos as convenções coletivas com os patrões, dizem-nos: “não sabemos como vai ser no próximo ano”. Mas, por outro lado, ao nível da Caixa de Pensões, queremos fazer cálculos a 50 anos. Isso não é fazível. Baseamo-nos naquilo que podemos ver e no que é objetivo e transparente atualmente. E podemos observar o estado atual da Caixa Nacional de Pensões e vemos que o seu estado é saudável. Portanto, na nossa opinião, não há necessidade nenhuma, nenhuma de fazer cortes hoje para poder garantir o futuro. Para nós, trata-se de demagogia e da manipulação dos jovens a quem se diz que devem pagar a pensão de re-forma dos pais e avós, mas que depois não terão uma pensão. Isso não é verdade e é injusto da parte da política de proceder desta forma. 

Há exemplos graves e loucos: houve pessoas que vieram cá com o seu contrato de trabalho, onde constava que estavam proibidos de se sindicalizar. Mas são casos excecionais.

As eleições sociais [relativas aos sindicatos] vão ser realizadas em março do próximo ano. O que considera um bom resultado?

[risos] 100%. Em termos de resultados é difícil dar um número, até porque cada setor é diferente. Temos dois momentos chave para nós: as eleições nas empresas e na câmara de assalariados. As duas são importantes para nós. Todos os cinco anos é o nosso momento mais importante, porque todo o nosso trabalho se baseia nestas eleições, é o nosso meio para entrar nas empresas, e não podemos fazer nada se não tivermos bons delegados, delegados militantes, ativos, que são motivados para fazer um bom trabalho. E estes delegados decidem-se todos os cinco anos nas eleições sociais. O nosso objetivo é conseguir o máximo, é claro. E pomos toda a nossa energia,concentração e paixão pela profissão neste objetivo: ganhar as eleições sociais. Na câmara dos assalariados também queremos ter o mais possível, é uma alavanca muito importante para poder ter um peso em termos de decisores políticos e para ser ouvidos. As nossas ações em termos de empresas decidem-se nas outras eleições, nas delegações de pessoal. Neste caso, os resultados diferem em função do setor de atividade. Temos setores em que somos muito fortes como é o caso da saúde e construção, em que temos quase 90% dos delegados que são da OGBL.Para estes setores, qual é o objetivo? Evidentemente ter mais, mas o objetivo é manter e ganhar mais alguns lugares. Por exemplo, no setor da saúde temos 85% de delegados, isso significa que há muitas empresas que são 100% OGBL, mas há outras em que pode ser metade-metade e aí podemos ganhar mais alguns lugares. Depois nos outros setores onde estamos menos presentes...

Como por exemplo?

O setor dos serviços. O nosso sindicato está pouco presente, mas os outros sindicatos também estão. E o emprego está aqui, temos menos indústrias no Luxemburgo e no mundo, os serviços multiplicam-se como as consultoras, por exemplo. Todos estes serviços estão em pleno boom e há muito mais atividades nos serviços do que nos outros setores. E é um setor onde os sindicatos têm dificuldade em entrar.

Porquê?

Porque há outra mentalidade: estas empresas contratam jovens acabados de sair da universidade, que ficam contentes só pelo facto de terem um trabalho, de não entrarem na precariedade e têm medo, têm medo do futuro, metem-lhes medo. Dizem-lhes que as coisas vão mal, que a economia não recupera. Há uma tendência para os individualizar, a intimidá-los, a meter-lhes medo. Sobretudo a não se sindicalizarem. Estes jovens estão lá muitas vezes por cinco anos, são alvo de abusos, explorados e vão embora. Não há, como noutros setores, pessoas que ficam; portanto é muito difícil para nós entrar. Por exemplo, nas sociedades de arquitetura, há muitas pequenas empresas de arquietura no Luxemburgo, com três ou quatro trabalhadores. Não há delegados de pessoal, porque os delegados existem a partir de 15 [trabalhadores], ganham o salário mínimo durante cinco anos, depois saem. É aí que temos de entrar e fazer qualquer coisa por estes trabalhadores, que trabalham em condições precárias e que são mal pagos. O nosso objetivo é concentrarmo-nos neste setor. Aqui o nosso objetivo é estar presente nem que seja apenas com um delegado para motivar as pessoas.

E o que pode um sindicato fazer para mudar este tipo de cultura e como pode entrar neste setor?

É difícil. O que fizemos agora enquanto OGBL a nível nacional foi mudarmos a política de pessoal no que diz respeito a este setor: tínhamos uma pessoa, agora temos três. Aqui na OGBL somos pagos apenas pelas quotizações e temos, por isso, dificuldades em recrutar muita gente. Investimos muito a este nível. E o que é que estes jovens fazem? São universitários, e desta forma têm maior facilidade em discutir com os managers destas empresas e vão ao terreno. Todos os dias. Levam o seu material da OGBL e vão às empresas, às 7 horas da manhã, quando os trabalhadores chegam falam com eles. Vão todos os dias, veem-nos todos os dias, começam a aceitar-nos, a perceber que estamos lá para os ajudar. Depois encontramo-nos com as pessoas nos cafés para que os patrões não vejam. É o que fazemos...

Ainda se passa esse tipo de situação? Levar um trabalhador para longe para que o patrão não veja?

Sim. Mesmo no setor da saúde, houve situações em que nos encontrámos com os trabalhadores ao final da tarde num canto, onde ninguém pudesse ver. As pessoas têm medo, mesmo dos colegas de trabalho. E neste tipo de empresa é preciso ser muito delicado e ser muito paciente. Não podemos ir como fazemos no setor da construção, em que vamos de capacete e chamamos os trabalhadores. A abordagem é diferente. É preciso um trabalho muito longo para mudar as mentalidades nestas empresas. Mas o nosso objetivo é estar presente, dar algumas garantias a estes trabalhadores, mostrar que não devem deixar que se lhes faça tudo e que têm o poder de mudar.

Ainda há medo por parte dos trabalhadores de se sindicalizarem?

Sim. Não podemos dizer que todos os trabalhadores têm medo, mas há uma tendência para ter medo dos sindicatos. Por um lado, há um patronato que diz que não precisa dos sindicatos para falar com os seus trabalhadores: “conheço-os, vejo-os todos os dias e falo com eles”. Repetem esta mensagem o tempo todo nas empresas. Ora, o trabalhador depende do seu superior hierárquico, é financeiramente submisso. Não é a mesma coisa quando nós [sindicato] discutimos com o patrão. Nós não temos de ter medo do patrão, não dependemos dele, não precisamos do dinheiro dele. E isso é diferente e dá outro peso aos trabalhadores, que muitas vezes ouvem dos patrões que não ficam contentes se o trabalhador se sindicalizar. Isso mete medo aos trabalhadores. E há exemplos graves e loucos e são casos excecionais: houve pessoas que vieram cá com o seu contrato de trabalho, onde constava que estavam proibidos de se sindicalizar. Completamente ilegal, é contra toda a lei, é como se nos proibissem de sermos humanos. Vi contratos de trabalho assim.

Viu muitos casos destes?

São casos excecionais. Mas os patrões fazem de tudo para nos prejudicar e por passar uma mensagem radical sobre nós. E concentramo-nos nisso também. Fazer perceber que existimos para dialogar, para conseguir soluções, para conseguir aumentos e vantagens e que temos mais peso para o fazer do que os trabalhadores sozinhos. E que é a coletividade e a solidariedade que nos fazem avançar. Evitar os sindicatos é favorecer a individualização.

As relações [entre OGBL e LCGB] estão muito tensas.

Como classifica a relação entre a LCGB e a OGBL? Sobretudo depois da manifestação em separado dos trabalhadores do setor da construção, em que houve duas manifestações diferentes para o mesmo setor...

As relações estão muito tensas. São muito conflituosas. Não compreendemos a tomada de posição da LCGB atualmente. Sabemos que é uma fase pré-eleitoral, a LCGB começou a guerra eleitoral connosco muito cedo. Nós não queremos cansar as pessoas tanto tempo antes das eleições com uma guerra sindical. Até porque os trabalhadores não gostam disso. Não traz nenhum benefício aos trabalhadores, pelo contrário prejudica, fragiliza-nos face aos patrões. Não compreendemos porque agiram assim tão cedo e por que motivo foram tão agressivos face à OGBL. E depois houve um momento em que começaram a fazer ações apenas contra a OGBL, sem qualquer objetivo, sem qualquer interesse. Pelo contrário, prejudica os interesses dos trabalhadores como aconteceu com a manifestação do setor da construção. Por que motivo prejudicam e retiram peso apenas por interesse eleitoral? É inaceitável. Por isso ficámos chocados com tudo o que se passou. Não compreendo. Sempre pedimos um sindicato único, mas estamos longe disso. Teremos uma guerra eleitoral durante os próximos sete meses, até março de 2019 [data das eleições sociais]. Isso é certo.

Em termos internos, como surge o seu nome para ocupar o lugar de secretária-geral da OGBL?

O posto de secretário-geral não tem obrigatoriamente de ser ocupado. Com todos os presidentes antes de André Roeltgen [atual presidente], houve fases em que não tínhamos um. Porque é o secretário-geral ocupa o cargo de presidente. Fizemos a reflexão no comité executivo da OGBL sobre como construir o futuro do sindicato e sobre como vamos preparar a saída para a reforma de André Roeltgen. Portanto, era preciso ocupar o cargo de secretário-geral para poder preparar alguém para o posto. Foi uma decisão tomada pelo comité executivo, tal como todas as decisões políticas no sindicato. Há sete pessoas, há uma maioria que não podia já ocupar a presidência e, entre os novos, somos muito poucos. Tivemos sempre este problema, não existe só no nosso sindicato, mas também noutros sítios: há os mais velhos e depois um grande ’gap’ onde não há pessoas com idades intermédias e depois há os muito jovens. Entre os jovens éramos poucos e a escolha acabou por recair sobre mim. Fiquei muito orgulhosa e muito contente. Penso que tem a ver com o meu histórico aqui na OGBL, e com as atividades que organizámos no meu setor (saúde), que foi muito abalado, com muitas ações sindicais e onde foi investido um grande esforço. Tivemos sucessos significativos e isso ajudou muito.

Quais serão as prioridades para o futuro?

Ainda é um pouco cedo para dizer. Até março de 2019, vou continuar a assumir as mesmas responsabilidades que assumi até agora. Portanto, isso não muda muita coisa neste momento, no terreno e na minha vida. Continuo com o sindicato da saúde e com todas as funções que tenho no comité executivo até depois das eleições sociais. E é bom ter um momento em que, gradualmente, possa parar. E é bom também porque em breve teremos um dos momentos mais importantes para o sindicato que tem a ver com as eleições sociais, por isso, não tenho de deixar o sindicato da saúde. Depois das eleições, vou então deixar gradualmente o setor da saúde. Terei tempo para me inteirar de tudo o que tem a ver com a presidência da OGBL. Depois, em dezembro de 2019, o sindicato terá um congresso – que ocorre todos os cinco anos – e é a instância mais elevada onde as decisões e as prioridades políticas da OGBL serão fixadas e os postos serão nomeados e votados, incluindo a presidência. Roeltgen já disse, e isso é conhecido, que vai voltar a apresentar a sua candidatura e iniciar um novo mandato. Eu terei de reapresentar a minha candidatura a secretária-geral. Em princípio, vai correr tudo bem [risos]. Mas é mais uma etapa que é preciso ultrapassar. Em 2020, o André disse que talvez não cumpra o seu mandato até ao fim. Mas não dizemos ainda que será num dia ou ano concreto; mesmo entre nós não há uma data concreta. É preciso depois encontrar um momento para decidir – entre nós e com o comité – o momento em que apresentarei a minha candidatura à presidência.


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