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"No Luxemburgo só ficarão a morar os ricos"
Economia 4 min. 08.01.2020

"No Luxemburgo só ficarão a morar os ricos"

"No Luxemburgo só ficarão a morar os ricos"

Foto: Pixabay
Economia 4 min. 08.01.2020

"No Luxemburgo só ficarão a morar os ricos"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Em 2016 62% do total dos terrenos pertenciam a 15.907 indivíduos; 18,6% estavam nas mãos de 746 empresas privadas. O restante pertencia ao Estado, municípios e promotores públicos.

Se o governo do Luxemburgo não atuar com urgência travando a especulação imobiliária, no futuro próximo só viverá no país quem tiver muito dinheiro. "Se nada se fizer os jovens vão ser empurrados para os países vizinhos para morar nas regiões fronteiriças, da Alemanha, França e Bélgica e vêm ao Luxemburgo apenas para trabalhar". O alerta é dado ao Contacto por Antoine Paccoud, geógrafo social e investigador do Liser.

O Luxemburgo é "pequeno e as casas tenderão a ser caras em todas as regiões". Nas regiões fronteiriças o preço das casas pode ser "duas a três vezes mais baixo", vinca. "Os preços estão a aumentar rapidamente e cada vez mais", o que faz com que haja "cada vez menos pessoas a poder comprar casa".

Gente com dinheiro que investe em imobiliário. "Vale mais investir em imobiliário do que ter o dinheiro a render no banco. Quem tem dinheiro compra apartamento e casa. E mais do que uma. Quem não tem não compra. Nem pode alugar". Esta é a realidade dura traçada por Antoine Paccoud, uma injustiça social que irá cada vez ser mais forte se nada for feito. Os proprietários não querem vender, "querem esperar para vendê-los ao preço mais alto possível, e podem fazê-lo porque pagam taxas baixas".

O investigador do Liser Antoine Paccoud afirma que só os ricos vão conseguir habitar no Luxemburgo.
O investigador do Liser Antoine Paccoud afirma que só os ricos vão conseguir habitar no Luxemburgo.
Foto: Tiago Figueiredo

Num estudo da sua autoria "Grau de concentração da posse da propriedade fundiária destinada à habitação em 2016", Antoine Paccoud revela que nesse ano 62% do total dos terrenos pertenciam a 15.907 indivíduos; 18,6% estavam nas mãos de 746 empresas privadas. O restante pertencia ao Estado, municípios e promotores públicos.

O valor deste total era em 2016 de 20,70 mil milhões de euros, ou 15% do total estimado de todas as principais residências do Luxemburgo. A atribuição de um novo imposto imobiliário aos proprietários destes terrenos, para os obrigar a vender é uma das soluções apontadas por este geógrafo.

Uma medida já inserida no debate do Pacote da Habitação e que está incluída no acordo da coligação assinado no final de 2018. Outra das medidas que poderá travar a fuga dos residentes para as fronteiras é a construção de alojamento social. O Luxemburgo é dos países com menos habitação social entre os países da UE, com uma taxa de apenas 2%.


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A especulação imobiliária atinge de forma muito particular a capital do Luxemburgo e Lisboa, obrigando os residentes a malabarismos para pagar a casa. Mesmo assim, a situação é mais "dramática" na capital portuguesa.

"De momento não há nada no país para proteger as pessoas do aumento do preço das casas", alerta Paccoud. "Se nada se fizer as pessoas deixam de querer vir viver para o Luxemburgo apesar dos bons salários e o país precisa destes imigrantes para a economia continuar em alta", lembra este investigador.

De acordo com o relatório de atividades do Ministério da Habitação de 2018, 537 projetos fazem parte do novo programa plurianual para a construção apartamentos habitacionais subsidiados. O programa inclui 5.741 novas unidades destinadas a venda e 5.456 apartamentos para arrendar. No total, cerca de 50 municípios estão as construir ou vão construir 1.314 unidades habitacionais de arrendamento. Em agosto de 2019 a cidade do Luxemburgo anunciou que ate 2026 iria construir entre 400 a 600 habitações para arrendar a preços acessíveis.

Partilhar casas vendido como uma tendência moderna, quando as pessoas são obrigadas a fazê-lo por falta de dinheiro  

Há anos e anos que estudantes e jovens partilham casa nas cidades poupando assim dinheiro. Agora o mesmo já está a acontecer com profissionais solteiros e mesmo famílias, conta o investigador Agustin Cocola Gant.

Perante a impossibilidade de pagarem um apartamento sozinhos "há casais, alguns com filhos que estão a partilhar casa com outros para assim poderem continuar a viver na cidade" e isso já está a acontecer em diversas cidades como Nova Iorque, Los Angeles, Buenos Aires ou Barcelona.

"O mercado imobiliário já oferece casas reconstruídas propositadamente para acolher duas ou três unidades familiares sob o mesmo teto" nas cidades tendo batizado este novo produto que já é global de "co-living para famílias".

Como refere Cocola Gant é um nome moderno que o mercado está a vender como uma tendência, mas que no fundo esconde a precaridade destas famílias. Neste novo produto os preços são mais acessíveis do que de um apartamento para uma só família. O co-living está a expandir-se rapidamente nas cidades que se debatem com a especulação mobiliária e preços altos das casas, por isso, é natural que chegue também à capital do Luxemburgo.


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