Na Rua da Grande Ciudade: Não é a economia, estúpido
“Projeto Medo” foi o nome (tão bem) aplicado por Boris Johnson, durante a campanha para o referendo da permanência do Reino Unido na União Europeia, aos argumentos usados por aqueles que queriam um voto pelo “sim”. Naquela altura fatídica (já passaram dois anos), o Tesouro britânico apresentava as previsões económicas em caso de vitória do Brexit e os cenários eram apocalípticos: no mais provável, e aliás um dos mais suaves, em 2030 o país seria 6% mais pobre no caso de saída. Os estudos eram sérios, a saída seria perniciosa, a informação era relevante para a decisão de voto. Mas com a esperta colagem que o outro lado da barricada fez ao sentimento primário e poderoso de “medo”, insinuando de forma pouco subtil que tudo não passava de alarmismo demagógico lançado por peritos que nunca acertavam nas previsões, o “Projeto Medo” voltou-se contra os autores e redundou num enorme falhanço; também com um precioso empurrão da Cambridge Analytica e do Facebook, o “não” venceu o referendo com 51,9% dos votos.
Os primeiros tempos pareceram dar razão a Boris, entretanto promovido a ministro dos Negócios Estrangeiros (onde a sua má educação tem envergonhado a Grã-Bretanha pelo mundo): a economia do Reino Unido ia mais ou menos bem. Nenhum grande cataclismo tinha acontecido, a inflação não disparou, os bancos não correram para fora do país, o desemprego não subiu para níveis da Grande Depressão. Havia mesmo algum crescimento económico, pouco mas algum.
Calma e inexoravelmente, no entanto, o inevitável vai emergindo. Foi o próprio Banco de Inglaterra que lançou o alerta – já não uma previsão, mas sim uma leitura dos dados disponíveis: o país perdeu 2% do crescimento previsto do PIB, e cada agregado familiar perdeu cerca de mil euros de rendimento anual. Um terço dessa perda advém da queda da libra esterlina em relação ao euro (que faz com que os bens importados sejam mais caros); os outros dois terços resultam da perda de investimento estrangeiro – de 2016 para 2017 este caiu em… 90%. O resultado total é que a economia é hoje 45 mil milhões de euros mais pequena do que poderia ter sido, o que equivale a dizer que o governo arrecada menos 340 milhões de euros em impostos a cada semana, quase o valor que a campanha do Leave afirmou (mentindo descaradamente) ir poupar ao sair da UE.
Apenas dois anos após a vitória do Brexit, e sendo o Reino Unido ainda parte da União Europeia, estes números já metem bastante medo. Ao mesmo tempo, a ausência de reação do eleitorado – grande parte daqueles que votaram por sair fá-lo-iam de novo hoje – sublinha um fenómeno difícil de compreender: isto já não é sobre economia.
Em 1992, o então presidente Bush (pai), procurando uma aparentemente fácil reeleição, via esfumar-se a sua liderança esmagadora nas sondagens para um então desconhecido jovem governador do Arkansas, Bill Clinton, que começara por ter somente 4% das intenções de voto. Bush, “herói” da primeira guerra do Iraque, não compreendia porque lhe fugia o poder entre os dedos; mas na sede da campanha adversária, um cartaz explicava-o e motivava os que ali trabalhavam: “É a economia, estúpido!”. A frase entrou para a História política (havia mais duas, mas ninguém se lembra das outras); não se tratava de um insulto pessoal a Bush, mas sim do reconhecimento do fator decisivo de qualquer eleição – é sempre, “obviamente”, o estado da economia a determinar se é melhor manter o status quo ou se, pelo contrário, vale a pena arriscar a mudança.
No Brexit a economia não importa muito. O voto decidiu-se em temas viscerais, aqueles em que o coração fala mais que a mente – o bloqueio da imigração, o patriotismo exacerbado, a desconfiança do diferente. E esses temas emocionais são de tal forma virulentos que, mesmo perante a perda consumada de mil euros por ano em média, mesmo na iminência de separação traumática e danosa para ambas as partes (em março que vem), o Brexit talvez voltasse a vencer se o referendo ocorresse amanhã. Isto encerra lições profundas também para a Europa – não basta apelar à racionalidade para que as pessoas sejam pró-europeístas, é preciso ganhar-lhes também as emoções, seja com bandeirinhas, com equipas desportivas europeias, com bilhetes de comboio grátis… Todas as ideias são bem-vindas, ficando claro que não basta pão, também queremos circo.
