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Na Rua da Grande Cidade: Projeto estrelinha-de-poupa
O patrão da Amazon, Jeff Bezos, tem sido alvo de protestos.

Na Rua da Grande Cidade: Projeto estrelinha-de-poupa

Foto: AFP
O patrão da Amazon, Jeff Bezos, tem sido alvo de protestos.
Editorial Economia 3 min. 03.05.2018

Na Rua da Grande Cidade: Projeto estrelinha-de-poupa

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
O primeiro filme do agente secreto 007, “Dr. No”, encerra um dos momentos essenciais de toda a série: quando o vilão que dá nome ao filme aprisiona James Bond e, antes de começar a matá-lo, se dá ao trabalho de lhe explicar os seus maléficos planos, o sedutor Sean Connery responde calmamente, pelo meio de um sorrisinho trocista. “Dominar o mundo… ah, esse velho sonho”.

Jeff Bezos, o criador, gestor e guru da Amazon, tem um ótimo aspeto para vilão de filmes 007: cabeça sem cabelo e em forma de ovo, um sorriso que não encontra correspondência em dois olhos que nem sequer se abrem na mesma amplitude. E a sua empresa está claramente na senda de conquistar o poder global – a um nível nunca antes suspeitado na História. A cada notícia publicada sobre estes retalhistas em linha, cresce o assombro, e também o temor. Há poucos dias, a Amazon anunciou os resultados do seu primeiro trimestre; números fantásticos que levaram as suas ações a voltar a disparar – só em 2018, o valor bolsista já subiu 33% e atinge agora uns estratosféricos 763 mil milhões de dólares, levando os analistas a prever ganhos ainda maiores e a possibilidade de já em breve a companhia se tornar a primeira de sempre a valer mais de um milhão de milhões…

Simultaneamente, este gigantismo financeiro tem correspondência no mundo real através da mudança disruptiva em tantos modelos de negócio – traduzida desde logo na decadência/desaparecimento de tantas pequenas e médias empresas e, cada vez mais, também as grandes cadeias retalhistas. No início eram as livrarias (que continuam a desaparecer a bom ritmo), depois as Fnac e afins, finalmente os supermercados, lojas de departamentos, roupas, entregas de comida, cuidados de saúde, enfim… todos sentem o bafo quente do gigante americano no seu pescoço. E, naturalmente, toda esta importância tem o seu peso político. A empresa está habituada a ver representantes do povo ajoelhar-se aos seus pés – um exemplo atual tem a ver com a futura localização da sua segunda sede, em que presidentes da câmara e governadores competem para ver quem poderá conferir-lhes mais vantagens.

Em toda esta história de dinheiro, poder e sucesso, o pequeno Luxemburgo desempenha um papel crucial. Foi aqui que a Amazon chegou em 2003 com uma ideia simples, a mesma que já tinha orientado a escolha de Seattle como sede mundial duas décadas antes: fugir aos impostos. E, para o projeto que sustentou essa ideia, numa operação de charme para obter os favores da administração fiscal luxemburguesa e do seu governo (o próprio primeiro-ministro Juncker demonstrou o seu empenho pessoal no projeco, como contado ao D’Land por Bob Comfort, diretor da empresa), encontrou-se o nome da ave nacional do Grão-Ducado, a minúscula estrelinha-de-poupa.

O projeto estrelinha-de-poupa era propositadamente complicado, mas na sua base resumia-se a transferências entre três sub-entidades da própria Amazon: uma empresa que detinha a “propriedade intelectual” da companhia (e que, não sendo “residente” no Luxemburgo ou em país algum, não pagava impostos sobre as royalties que recebia de outras partes da mesma empresa); a Amazon europeia, que transferia os seus lucros para a primeira, isenta de impostos; e a Amazon americana, que recebia umas migalhas sobre as quais pagava uns impostos pequeninos, assim do tamanho de uma estrelinha-de-poupa.

É preciso mudar algo para que tudo fique na mesma e algo mudou nesta evasão legalizada. A Comissão Europeia exigiu no ano passado o pagamento atrasado de 250 milhões de euros em impostos (tal como fez a outros gigantes, Apple, Fiat, Starbucks…); e, no mês passado, propôs nova legislação que prevê um imposto digital de 3% sobre as receitas (e não sobre os lucros…) no intuito precisamente de evitar o carrossel internacional de capitais que permite que em lado nenhum se pague o devido. Ao mesmo tempo, Trump – que parece detestar a Amazon, mas não poder fazer muito mais que protestar com a mesma no seu Twitter – dizia que a companhia fazia batota porque “quase não pagava impostos” (o facto de o mesmo Trump se ter gabado antes de também não pagar por ser “esperto” não é relevante para o caso). Pode ser que a poupa da Amazon venha a baixar, mas neste momento, os seus planos para dominar o mundo estão a ir bem…


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