Escolha as suas informações

Na rua da grande cidade: Jeans e bourbon

Na rua da grande cidade: Jeans e bourbon

Foto: Arquivo LW/AP
Editorial Economia 4 min. 08.03.2018

Na rua da grande cidade: Jeans e bourbon

As guerras comerciais nunca são boas e muito menos fáceis de ganhar.

Por Hugo Guedes - Um “bar de bourbons” abriu recentemente perto do sítio onde vivo. Eu, que não sou apreciador de whisky, presumo ainda assim que os melhores exemplares continuam a vir da Escócia e da Irlanda, e imagino que restringir o bar apenas a whiskies provindos dos EUA seja uma simples jogada de marketing de nicho. Seja como for, a ideia está a resultar, porque o local tem estado bastante concorrido, mas teve muito azar no timing: ainda há pouco apareceu e talvez já vá ter de fechar as portas, porque o produto que vende vai encarecer.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, ameaçou aumentar as tarifas alfandegárias aos produtos americanos, em resposta aos aumentos que os EUA vão impor ao aço e ao alumínio que importam do resto do mundo. Juncker falou especificamente no bourbon, nas motos Harley-Davidson e nos jeans Levi’s; “Vamos mostrar-lhes que também podemos tomar medidas, isto não pode ser uma decisão unilateral do outro lado”, acrescentou o luxemburguês. Este “falar grosso” tem toda a razão de ser, não apenas porque a linguagem do espalhafatoso confronto verbal parece ser a única que Donald Trump é capaz de compreender, mas também pela gravidade do tema: uma guerra comercial entre os blocos mais ricos do mundo é a última coisa de que a economia mundial, em recuperação mas ainda periclitante, necessita neste momento. Nos últimos dias, após aquela decisão de Washington combinada com subsequentes provocações de Trump, a reação mundial foi inusitadamente forte: não apenas a UE, mas também o Canadá, o México, o Japão, a China, o Brasil e outros – países orientados por líderes de diferentes quadrantes ideológicos –, bem como a própria Organização Mundial de Comércio, o FMI, e vários destacados nomes dentro dos EUA, saltaram das cadeiras em uníssono para realçar o perigo extremo que representa uma guerra de tarifas. Todos o veem bem claro.

Todos? Não. Peter Navarro vê esta corrida às armas tarifárias com um sorriso nos lábios. Na verdade, ele engendrou-a: Navarro é o director do Conselho Nacional do Comércio norte-americano (um cargo para ele criado por Trump) e é conhecido por ser um economista com quem é muito difícil concordar, nomeadamente na obsessão que tem com a China e na necessidade de sabotar este país; Navarro também escreveu um dos poucos livros que Donald presumivelmente leu, chamado “As futuras guerras com a China: como vencê-las”, e certamente é a inspiração para estas ideias protecionistas, resumidas no tweet incendiário do presidente dos EUA na sexta-feira: “Quando um país (EUA) perde biliões de dólares no comércio internacional, as guerras comerciais são boas e fáceis de vencer. Por exemplo, quando estamos a pagar mais 100 biliões a um país e eles se armam em bons, não fazemos mais negócios com eles e ganhamos muito. Simples!”

Por onde começar? Talvez pela simplória – e profundamente errada – ideia de que a economia é um jogo de soma nula, onde alguém tem de perder na igual medida em que outro ganha. Os ganhos é que podem ser diferentes, mas na verdade todos ficam a ganhar – no exemplo simplista de Trump, os 100 biliões compraram produtos que vão, por sua vez, ser usados na economia americana para gerar muitas vezes esse valor em outros produtos e serviços, por sua vez exportados… Pelo contrário, as guerras comerciais nunca são boas (tal como na guerra com soldados, todas as partes envolvidas ficam a perder) e muito menos fáceis de ganhar. Pelo contrário, podem conduzir a guerras a sério.

Um dos atos legislativos mais infames da História económica foi promovido, ironicamente, por um professor de História e Economia: o senhor Hawley, em 1929, preocupava-se com a situação difícil dos agricultores americanos que não tinham prosperado durante a louca década anterior. A proposta inicial era sobre trigo, bananas, açúcar e pouco mais, mas contra os críticos da medida protecionista, imediatamente etiquetados (tal como hoje) de “internacionalistas ao serviço de interesses obscuros e potências estrangeiras”, Hawley aliou-se a outro deputado, o provinciano e puritano Smoot, para criar uma lei que, ao ser assinada pelo presidente Hoover em 1930, aumentava brutalmente as tarifas em mais de 20.000 tipos de produtos importados. Ao contrário do que os americanos ingenuamente pensavam, a Europa e o Canadá retaliaram imediatamente (e é exatamente essa a grande lição a retirar – não há agressões impunes). A onda de protecionismo global decorrente transformou um crash bolsista em Grande Depressão, tornando-se fator essencial para explicar a ascensão do nazismo, do fascismo e do estalinismo.

Depois da lei Hawley-Smoot e dos pesadelos que ela ajudou a proporcionar, nunca mais um presidente americano foi anti-livre comércio. Até hoje. A diferença, claro, é que sobre as economias globalizadas em que vivemos uma guerra protecionista terá efeitos económicos muitíssimo mais profundos que em 1930. Quanto aos efeitos políticos… com o fascismo a rondar o poder em tantos dos países do Ocidente, eles parecem-me absolutamente assustadores. A História, afinal, repete-se sempre.


Notícias relacionadas

EUA e China lançam guerra para o domínio do mundo
A escalada de Donald Trump ameaçando taxar os produtos vindos da China em 25% esconde um conflito mais fundo: trata-se do domínio das novas tecnologias do futuro e de uma tentativa de impedir que a mais populosa nação do planeta se torne a primeira potência económica e mesmo militar da Terra. Contacto pediu a opinião aos economistas Francisco Louçã e Nuno Teles sobre as consequências que se preveem na economia mundial.
Trump: União Europeia é inimiga dos EUA
O presidente norte-americano, que reúne esta segunda-feira com o seu homólogo russo, considera a Rússia e a China “concorrentes” “eficientes” e a UE inimiga dos americanos devido às suas práticas comerciais que prejudicam Washington.
US President Donald Trump waits for a breakfast with the Finland's President at the Mantyniemi Presidential Residence July 16, 2018 in Helsinki, Finland
US President Donald Trump touched down in Helsinki on July 16, 2018 on the eve of a much-anticipated summit with his Russian counterpart Vladimir Putin. / AFP PHOTO / Brendan Smialowski
OPINIÃO: Um extravagante na Casa Branca
A nação mais poderosa do mundo escolheu para seu presidente uma figura que não lembrava aos mais imaginativos. As suas decisões vão afetar todo o planeta e as coisas podem correr mal. Não está em causa o facto de Donald Trump ser umpopulista de direita. O mundo já se está a habituar a dirigentes políticos desta natureza. Mas há coisas piores.