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Na Rua da Grande Cidade: Arruinar o que resta do Algarve
Costa algarvia

Na Rua da Grande Cidade: Arruinar o que resta do Algarve

Foto: Club Med
Costa algarvia
Editorial Economia 4 min. 30.08.2018

Na Rua da Grande Cidade: Arruinar o que resta do Algarve

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Tabasco é um dos Estados que compõem o México – situa-se no sudoeste deste grande país da América do Norte, sobre o golfo, virado para as Caraíbas.

A sua invejável situação geográfica proporciona a Tabasco 200 km de extensão de costa subtropical, com vegetação luxuriante, fauna variada, paisagens paradisíacas, belas baías de areias brancas e mar cálido… e praias muito pouco frequentadas. É que ali há jazidas de petróleo – muitas delas descobertas nos últimos anos – e a monopolística companhia mexicana de petróleos, a Pemex, usou o seu tradicional tráfico de influências políticas ao mais alto nível para contruir pesada rede de infraestruturas (incluindo mais de mil poços, várias plataformas e até uma “cidade Pemex”) que, obviamente, destruíram sem remédio ecossistemas preciosos e defesas da natureza. Hoje em dia, a região produz diariamente 750 mil barris de crude; enquanto isso as águas sobem. Destruídos os manglares, arrancada a floresta, derrubados os recifes naturais (pouco depois pateticamente substituídos por uns ineficazes “recifes artificiais” para proteger as instalações petrolíferas – e não as casas das pessoas – das inundações), o mar galga a costa. Nos últimos 20 anos já subiu mais de um metro; a este ritmo Tabasco verá submergida 25% da sua extensão.

Tudo em nome de extrair da Terra combustíveis fósseis, verdadeira droga da Humanidade, e assim ganhar dinheiro. Se ao menos este fosse utilizado para o progresso e a melhoria das condições de vida das populações que têm de abandonar casas, perder o seu emprego ou ficar sem o ambiente saudável onde nasceram… só que não, apesar dos seus recursos naturais, Tabasco é uma das zonas mais abandonadas do México. Um quarto da população vive mesmo abaixo do limiar de pobreza. O petróleo é um maná – mas apenas para alguns.

É crucial que esta lição seja aprendida pelos portugueses. Não falo dos venais governantes que desde sempre nos calharam em sorte (ou melhor dito, que escolhemos), mas sim da sociedade civil que está a tentar travar, neste preciso momento, (mais) um hediondo e irreparável crime ambiental – e económico.

A história conta-se em poucas palavras. Em 2007, já toda a costa Sul da Europa (Algarve, Espanha, França, Itália, etc) estava destruída, construída e atolada no turismo de massas. Toda? Não. Havia uma parte que resistia, protegida, limpa, segura, natural, genuína, magnífica: a costa alentejana e vicentina. Foi precisamente para aí que, nesse mesmo ano, o ministro da Economia, Manuel Pinho – enterrado até ao pescoço, tanto ele como o primeiro-ministro da altura, José Sócrates, em esquemas de alta corrupção –, assinou contratos de sondagem de petróleo no mar a favor do consórcio de petrolíferas Galp/Eni. Certamente sabem qual o tipo de contratos: são aqueles em que custos, riscos e responsabilidades ficam do lado do Estado, ou seja, dos cidadãos, enquanto os lucros e as vantagens ficam do lado de meia dúzia de bolsos privados tão necessitados como são os das multinacionais do petróleo.

O prazo para se fazer um furo de exploração terminou em janeiro, mas o governo prolongou-o gentilmente em mais um ano – até que, graças ao trabalho incansável da plataforma cidadã Algarve Livre de Petróleo, o tribunal de Loulé ordenou a paragem das obras de prospeção no mar ao largo de Aljezur. Isto aconteceu a 13 de agosto. O que fez o governo português? Recorreu da decisão logo no dia seguinte, como fiel defensor da Galp e da Eni. Não há interesse público envolvido; mesmo que, graças aos furos no fundo do mar, se descobrisse imenso petróleo, a renda do Estado seria diminuta (a pior percentagem a nível mundial!). Mas o mesmo não poderemos dizer do proveito individual, tão imenso como corrupto, dos indivíduos que detêm o poder de atuar pelo Estado português…

O roubo puro e simples de recursos naturais vai também ter um impacto devastador sobre a mais importante indústria da região: o turismo. O retorno previsto da exploração petrolífera ao fim de 14 anos, mesmo no melhor cenário, não atinge um simples ano de receitas turísticas algarvias e alentajanas (16 milhões de visitantes só no ano passado). Há sempre um risco inaceitável de um acidente acontecer e as águas azuis do Atlântico se tornarem ali negras e viscosas. E, numa altura crucial para o planeta, em que todos falam da “transição energética” para longe dos combustíveis fósseis, em que é necessário cumprir o Protocolo de Paris e salvar este planeta que definha, em que Portugal se orgulha da sua taxa de 57% de energias renováveis que lhe empresta imagem de vanguarda, ver políticos a defender os interesses das petrolíferas contra os cidadãos contribuintes e votantes só se explica se para eles houver um grande pote de ouro atrás da montanha de alcatrão.

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