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Não há energia para aguentar o frio que aí vem
Economia 9 min. 06.10.2021
União Europeia

Não há energia para aguentar o frio que aí vem

União Europeia

Não há energia para aguentar o frio que aí vem

Foto: AFP
Economia 9 min. 06.10.2021
União Europeia

Não há energia para aguentar o frio que aí vem

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Instabilidade dos mercados e especulação dos produtores está a fazer disparar o preço da eletricidade e eventuais cortes de abastecimento. A UE teme meses frios e de crise económica. A próxima cimeira europeia irá discutir o tema.

Ainda a começar a sair da crise da covid-19, a União Europeia está a agora a temer que a subida em flecha do preço da energia atire milhões de famílias, incapazes de pagar a fatura da eletricidade, para um inverno de frio em casa. E que a crise energética tenha também consequências em cascata, e ainda desconhecidas, na prometida recuperação económica. A subida dos preços dos combustíveis fósseis é uma crise mundial, mas o mercado energético da UE é especialmente vulnerável às leis da oferta e da procura, às condições meteorológicas e à chantagem geopolítica, o que nos últimos meses levou os preços a disparar. Neste ano, uma confluência de vários fatores levou àquilo a que os especialistas chamam uma "tempestade perfeita".

De quem é a culpa?

Segundo o think tank económico mais influente na UE, o Bruegel, o principal culpado na atual crise energética é o gás natural. Desde janeiro, o preço deste combustível, que tem um peso grande no "mix energético" de vários países dos 27 subiu mais de 170%. Um dos fatores que alimentou a inflação foi a grande subida na procura: o inverno foi invulgarmente frio e longo em toda a Europa confinada, o que aumentou o consumo de eletricidade nas casas transformadas em escritório para o teletrabalho. 

Em relação ao mesmo período de 2020, o consumo de gás natural aumentou cerca de 7.6%. O ressurgimento industrial e as ondas de calor do verão – a exigiram então um uso intenso dos ares condicionados – levaram a um novo pico da procura internacional. Ao mesmo tempo, a produção de energia eólica durante este ano foi menor.

Além da meteorologia, segundo o Cedigas – o principal analista do mercado internacional de gás – a pressão política para os países fecharem as centrais de carvão e privilegiarem o gás (como medida de redução de emissões de CO2 para a atmosfera), também fez diminuir os stocks de gás natural e disparar os preços. Mas a história não acaba aqui. A análise do Bruegel, e de vários analistas, revela que a juntar-se a uma procura maior, também houve constrangimentos na oferta, o que está a tornar a situação no mínimo preocupante e a agitar os principais centros de poder. 

No segundo trimestre de 2021, o consumo global de gás cresceu 10%. A China absorveu a fatia maior: 70% de todo o consumo mundial. O problema é que o gigante asiático a acordar da pandemia paga mais, o que levou os fornecedores internacionais a seguirem, obviamente, o lucro. Os navios que deveriam chegar aos portos europeus desviaram-se, assim, para oriente, onde a mesma carga é mais valorizada.

Nos exigentes meses de neve e chuva, a Rússia começou também a limitar a exportação do seu pipeline para a UE, alegando ter uma procura doméstica muito mais intensa a que tinha que dar resposta. Mas há outro motivo que um grupo de eurodeputados dos países bálticos imaginam estar por trás do fecho da torneira da Gazprom, a companhia estatal que tem um contrato de fornecimento com a UE – mas que tem recusado incrementar o fornecimento. 

E pediram à Comissão Europeia que investigasse se o egoísmo russo não seria uma estratégia deliberada para fazer subir os preços no mercado. E, mais ainda, pressionar os decisores europeus a aprovar o polémico Nord Stream 2, que, a funcionar, duplicará a capacidade de transporte de gás natural do Mar Báltico para a Alemanha. Os lóbis ecologistas, os defensores da descarbonização rápida da economia europeia, mas também os ativistas pró-democracia veem no Nord Stream 2 um prolongamento da dependência para lá dos limites do combustível fóssil e também da prepotência de Putin.

Neste contexto, a Agência Internacional de Energia chegou a pedir à Rússia que reforçasse as exportações para mitigar a crise no continente e permitir a criação de um stock para evitar o pânico do inverno.

Remediar a pobreza energética

Na transição energética, a União Europeia está a fechar as suas explorações de gás natural. Em consequência disso, o armazenamento deste combustível na Europa está agora a 74%, quando no ano anterior estava a 94%. Segundo Simone Tagliapetra, economista do Bruegel citada pelo Euronews, com este nível em valores históricos, "não estamos preparados para o inverno, quando vamos precisar dos sistemas de aquecimento".

A 4 de outubro, Portugal e Espanha tinham os preços mais elevados da eletricidade a nível europeu, ambos com 203 euros por megawatt. A Polónia com o valor mínimo entre os países da UE, a 109 euros.

Para ajudar os milhões de famílias em "pobreza energética" – que dificilmente conseguem pagar a eletricidade para aquecer as casas – há países que já tomaram medidas. Espanha cortou as taxas nas faturas de eletricidade. O governo francês anunciou, na semana passada, o congelamento dos preços do gás natural. E até ao fim do ano irá cortar as taxas sobre a eletricidade.

O acréscimo inesperado de receitas que o Estado francês realizou graças aos impostos relativos ao aumento dos preços da energia foi de 600 milhões de euros. Esse montante não previsto no orçamento irá ser "dado de volta ao povo francês", disse o primeiro-ministro Jean Castex. Um cheque de 100 euros será entregue a 5.8 milhões de famílias mais pobres para ajudar a suportar a recente escalada dos preços da energia.

A comissária europeia da Energia, Kadri Simson, a 22 de setembro já tinha sugerido aos países que tomassem essas medidas, como por exemplo a suspensão do IVA e iniciativas dirigidas a "apoiar as famílias vulneráveis, bem como apoio direto a consumidores e pequenos negócios".


Luxemburgo. Há novos incentivos para instalação de painéis solares
Dois novos incentivos para adoção desta energia renovável foram criados pelo Governo e têm efeitos retroativos desde janeiro de 2021.

A atual crise é um dos assuntos do momento nas instituições europeias. No final da semana passada, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, incluiu a crise energética como um dos tópicos a discutir na próxima cimeira de líderes, a 21 de outubro. 

Há receios de que o inverno seja particularmente duro, sobretudo para países que já vivem em pobreza energética e para famílias que não tenham dinheiro para aquecer as casas. E de que a subida dos preços do gasóleo e da gasolina, que já alimentou grande descontentamento social – em 2018 foi o pretexto para os gilets jaunes marcharem nos Campos Elísios – se não acompanhada de medidas de amortecimento, torne cada vez mais difícil negociar o pacote de transição energética que será apresentado pela Comissão em novembro.

É que à crise da eletricidade junta-se o aumento da gasolina e do gasóleo, para descontentamento dos europeus quando abastecem os carros. Mas esta alta fatura tem origens diferentes: é por causa de a OPEC (organização dos países exportadores de petróleo) ainda não ter ajustado os níveis de extração de barris de crude à procura que aumentou com o ressurgimento económico dos países ocidentais, fazendo assim disparar os preços em bolsa.

"Reajam, mas não entrem em pânico"

Na passada segunda-feira, dia 4, o Eurogrupo também acrescentou à última hora a crise energética aos tópicos já incluídos na agenda da reunião. Paolo Gentiloni, o comissário europeu da Economia, que esteve no Luxemburgo na reunião dos ministros das Finanças dos países da zona euro, salientou que “a crise da energia poderá ter efeitos na evolução da situação económica”. Assegurou , no entanto, que "o estado de espírito continua otimista", prevendo-se um crescimento económico de 4.8% na zona euro até ao fim do ano. 

Gentiloni salientou que houve uma boa discussão entre os ministros e que o resultado desse debate irá alimentar as propostas que a Comissão Europeia está a preparar e também a discussão que haverá a nível dos chefes de Estado e de governo a 21 de outubro. O governo espanhol sugeriu a criação de uma plataforma de compra de energia por todos os países (um sistema como o que foi feito com as vacinas) para aumentar o poder de negociação, e garantir que a EU não seja um joguete nas mãos dos oligarcas: "Os produtores de gás estão a comportar-se estrategicamente para maximizar os seus lucros, temos que agir em conjunto para evitar estar à sua mercê. Isto não é importante apenas para conter o preço da energia, mas também para nos proteger dos produtores que usam os preços da energia como uma moeda de troca política em outras matérias". 

Gentiloni referiu que embora a aquisição de um stock comum possa ser uma ideia a desenvolver, resolver a crise energética não será conseguida por efeitos de magia. Para o curto prazo, disse o comissário da Economia, a Comissão está a preparar uma "caixa de ferramentas", uma série de medidas para ajudar os países a lidar com a crise "dentro do que é possível com as regras concorrenciais e no Mercado Único". Essa toolbox deveria ter sido apresentada ontem, dia 5, mas como disse Gentiloni, o assunto é mais complexo do que se previa, mesmo quando se trata de medidas de emergência rápidas. Será apresentada na próxima semana. O mantra apresentado por Gentiloni aos países sugere: "reajam, mas não entrem em pânico".

Regresso ao nuclear

Quanto às medidas estruturais, de mudança de paradigma da energia na União Europeia, as vozes reúnem-se a pedir não o regresso a uma estabilidade maior nos combustíveis fósseis, mas uma aceleração para as energias limpas. Com dois objetivos: reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, de acordo com as metas europeias da Lei do Clima, e garantir a soberania e segurança energética da UE. A própria Agência Internacional de Energia (IEA) explicou que a atual crise energética não é motivo para atrasar a mudança para as energias verdes. Pelo contrário, é a oportunidade para acelerá-la. "Bem gerida, a transição para as energias limpas é a solução para os problemas que estamos a assistir hoje com os mercados de gás e eletricidade – não a causa", disse o diretor executivo da IEA, Fatih Birol, citado pelo jornal Politico.

Entretanto – mesmo quando a Alemanha iniciou o processo de encerrar antes de tempo as suas centrais nucleares – a França continua a pressionar para incluir a energia nuclear no pacote de energias limpas. Uma carta do ministro das Finanças Bruno Le Maire enviada ao Eurogrupo para a preparação da reunião de segunda-feira, salientava que a UE deveria "concentrar-se em alcançar independência energética ao investir em todos os meios descarbonizados de produção de energia" e para isso deveria classificar o nuclear como energia verde. 

Nos últimos tempos, o nuclear tem sido visto – mesmo por grupos ecologistas – como um meio de resolver a intermitência das energias eólicas e solares, sem mandar CO2 para a atmosfera. "É importante que a Comissão Europeia promova o desenvolvimento da energia nuclear", insistiu Le Maire.

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