Escolha as suas informações

Lítio, o debate polarizador de 2022
Economia 6 min. 03.01.2022
Energia

Lítio, o debate polarizador de 2022

Energia

Lítio, o debate polarizador de 2022

Foto: Reuters
Economia 6 min. 03.01.2022
Energia

Lítio, o debate polarizador de 2022

Luis REIS RIBEIRO
Luis REIS RIBEIRO
Seja como for, 2022 vai ser mesmo o ano do debate aceso e polarizado sobre o lítio.

Diz que a mais recente esperança para a Humanidade e a vida na Terra é o lítio (e outros metais raros, como cobalto). 

O lítio é a massa-mãe de uma nova forma de conservar energia em baterias que movem carros elétricos, trotinetes, dão vida a telemóveis, computadores. O elemento metálico saltou da tabela periódica para o léxico de políticos, empresas, defensores do meio ambiente e populações assustadas com as megaoperações mineiras que vão ser necessárias para extrair e transformar o lítio que dorme no fundo de algumas montanhas em hidróxido de lítio (a forma que serve às baterias). 

O lítio é um metal relativamente raro. É leve, no entanto, o interesse que move é cada vez maior, assumindo proporções gigantescas do ponto de vista económico. 

O debate sobre o lítio é polarizador. De um lado, o lucro apetecível a prazo numa nova fonte de energia que quer substitui o paradigma do carbono e das fontes fósseis e que vem associado, agora, na sequência da pandemia, a uma enorme vaga de incentivos públicos no âmbito das chamadas agendas mobilizadoras do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). 

Do outro lado, o medo fundado de que as operações do lítio (as principais, já publicitadas, querem arrancar em 2022) venham destruir o meio ambiente, contaminar cursos de água, rebentar montanhas, fazer minas a céu aberto, destruir diretamente o meio ambiente e acabar com o turismo sustentável, turismo de natureza. 

O potencial do lítio é conhecido há muito tempo e durante estes anos muita tecnologia foi desenvolvida a seu favor. Diferença: hoje o preço do petróleo e do seu transporte está em níveis pouco amigos do ambiente, há a pressão das metas climáticas que precisam de ser atingidas e, last but not least, há, como referido, imensos apoios estatais e interesse de financiadores privados (bancos que têm imensos recursos parqueados no BCE à espera de projetos “mobilizadores”) para começar a mover os projetos do lítio. Todos de grande envergadura, que passam por enormes operações de mineração e de depuração do mineral. 

Portugal vai sentir na pele esse interesse, quase uma emergência, e pode doer. O País tem as maiores reservas da Europa e é o oitavo maior do mundo (60 mil toneladas de minério em estado puro), num ranking global liderado pelo Chile (9,2 milhões de toneladas), segundo dados do Statista. Percebe-se: no que diz respeito a Portugal, a tentação é grande. 

Em dezembro, a Galp, a maior empresa de energia de Portugal, e os suecos da Northvolt anunciaram planos, com a benção do governo PS ainda em funções, para um investimento de 700 milhões de euros numa operação de mineração em larga escala que é suposto arrancar em 2025 e começar a debitar lítio tratado em 2026. A Galp (juntamente com o seu parceiro no lítio, a britânica Savannah Resources) parece preferir Sines para refinar, mas o governo aventou que devia ser mais para norte e para o interior do país. Mais perto da fonte. Em Boticas, Trás-os-Montes, quem sabe. A localização ainda não está fechada. 

Uma coisa sabemos já: a Galp diz que vai abraçar o lítio em força já que vai abandonar novos planos de prospeção de petróleo. “Não vamos mais fazer perfurações em campos não descobertos, não vamos ter novas licenças”, revelou o presidente executivo da empresa, Andy Brown. Disse, aliás, que foi a primeira petrolífera do mundo a anunciar uma coisa destas. 

De volta ao lítio. A serra da Argemela, nos concelhos do Fundão e da Covilhã, é outro dos locais mais cobiçados, até agora, mas enfrenta uma forte oposição popular e política local. A PANN - Consultores de Geociências, que tem como um dos sócios o empresário Carlos Martins (Martifer), ganhou o contrato de concessão inicial e já está no terreno a perfurar. Diz que vale a pena. No pólo oposto, está a população e partidos como o PAN. 

Outro nome que apareceu no panorama do lítio foi a Bondalti, do grupo Mello, que quer purificar o metal numas instalações em Estarreja. Diz que vai usar uma tecnologia inovadora de onde pode extrair cloro, tornando o processo de depuração do lítio mais eficiente e menos tóxico. 

O lítio é a face visível da desejada mudança de paradigma energético, a esperança de lucro novo para as empresas que se veem cada vez mais limitadas quanto à sustentabilidade da mobilidade baseada em petróleo. Significa investimentos de grande dimensão e novos empregos, claro. E, uma vez mais, um impulso financeiro enorme. Só para se ter ideia, na reta final de 2021, o governo português lançou dezenas de concursos nesta área do lítio e de outros minérios. 

Três questões-chave 

Mas há várias questões em redor deste novo centro de gravidade. Ficam três muito importantes: 

  1. Será o lítio um género de vacina contra a doença das alterações climáticas? Se assim for, trará mais benefícios ou custos ambientais? Muitos peritos dizem que sim. O mundo não pode continuar a queimar combustíveis carbónicos porque o ambiente, simplesmente, pode não aguentar. Mas há dúvidas. 
  2. Haverá lítio suficiente no planeta para a imensidão de baterias necessárias no futuro pós-petróleo? Há quem diga que a oferta é grande e que o preço do lítio até está baixo, mas o segredo do negócio está em chegar às reservas existentes quando, daqui a alguns anos, o lítio necessário para uma enorme economia circular estiver em cena. Pode haver problemas de fornecimento a prazo, tanto mais com as barreiras ambientais e populares contra esta indústria.
  3.  E o que fazer às baterias de milhares ou mesmo milhões de carros (lixo tóxico, se nada for feito) de hoje que morrerão ou ficarão obsoletas daqui a dez ou 20 anos? Uma questão dos milhares de milhões de euros. 

Recentemente, o jornal The Guardian avançou com uma estimativa avassaladora. Antecipa-se um “tsunami” de veículos elétricos nos países ricos e estima-se que venham a existir 145 milhões deles a circular em 2030. Isto significa outra bomba relógio ambiental: as baterias. 

A estimativa de alguns peritos é que daqui a menos de 20 anos tenhamos nas mãos 12 milhões de toneladas de baterias de lítio obsoletas ou em fim de vida. 

Segundo a reportagem, depois de terem exigido “grandes quantidades de matérias-primas, incluindo lítio, níquel e cobalto”, fruto da exploração mineira com impactos climáticos, ambientais e nos direitos humanos, as baterias acumulam-se no horizonte qual “montanha de resíduos eletrónicos”. 

Claro que a próxima fase já está a ser estudada, ainda que faltem muitas respostas. A proposta mais forte é prolongar o uso das baterias de lítio (as que hoje alimentam carros e trotinetes), redirecionando-as para outros usos produtivos, como ajudar na acumulação de energias junto de parques solares ou eólicos. Daqui a 20 anos vamos ver se é mesmo assim. 

Seja como for, 2022 vai ser mesmo o ano do debate aceso e polarizado sobre o lítio. O ministro do Ambiente português, João Matos Fernandes, é a cara da dualidade latente que existe neste tema. Numa entrevista à TSF/JN, em novembro, disse que a “exploração do lítio é um caminho inevitável”. Mas, o seu outro eu atirou, na mesma conversa: “Mostrem-me alguma exploração exemplar mineira em Portugal ou na Europa. Tenho muito poucos exemplos para dar. Tenho de ter essa humildade”.

*Colunista do Contacto e Jornalista do Dinheiro Vivo

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Nos últimos anos, uma professora natural de Covas do Barroso, no concelho de Chaves, emigrada em Inglaterra, trocou os livros de português e inglês pelo Mining Journal, os relatórios do mercado do lítio e as atas de conferências internacionais sobre mineração. Catarina Scarrott, mãe de duas crianças de 2 e 7 anos, bate-se apaixonadamente em defesa da terra onde a sua família vive há mais de dez gerações. A terra a que gostava um dia de regressar. A terra que a empresa britânia Savannah Resources quer esventrar para extrair, alegadamente, as maiores reservas de lítio da Europa.