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Habitação. Se no Luxemburgo a situação é assustadora, em Lisboa é de loucos
Economia 5 min. 08.01.2020 Do nosso arquivo online

Habitação. Se no Luxemburgo a situação é assustadora, em Lisboa é de loucos

Habitação. Se no Luxemburgo a situação é assustadora, em Lisboa é de loucos

Foto: Pixabay
Economia 5 min. 08.01.2020 Do nosso arquivo online

Habitação. Se no Luxemburgo a situação é assustadora, em Lisboa é de loucos

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
A especulação imobiliária atinge de forma muito particular a capital do Luxemburgo e Lisboa, obrigando os residentes a malabarismos para pagar a casa. Mesmo assim, a situação é mais "dramática" na capital portuguesa.

Nos últimos cinco anos, a diferença entre o crescimento dos preços do mercado imobiliário e os ordenados foi de 32, 2 % em Portugal e de 22% no Luxemburgo. Portugal surge em 2º lugar e o Grão-Ducado em 4º lugar no ranking dos países europeus, onde a diferença foi maior, segundo um estudo de Eric Dor, da Escola de Negócios da Universidade Católica de Lille.

Se neste momento conseguir encontrar uma casa a preços compatíveis com o orçamento familiar já é uma das maiores dificuldades de quem vive na cidade do Luxemburgo ou em Lisboa, como será no futuro? O Contacto colocou a questão a dois especialistas e as perspetivas não são nada animadoras.

Em vez de se discutir como se conseguirá pagar o aluguer ou empréstimo de uma casa a grande questão é "como vão as famílias viver com dignidade".

De acordo com o Eurostat, no segundo trimestre de 2019 o preço das casas aumentou 11,4% no Luxemburgo, em relação a igual período no ano anterior e 10,1% em Portugal. Luxemburgo situa-se em 2º lugar e Portugal em 4º entre os países europeus com maiores aumentos de preços. Lisboa é a cidade do país onde os preços são mais caros.


"No Luxemburgo só ficarão a morar os ricos"
Em 2016 62% do total dos terrenos pertenciam a 15.907 indivíduos; 18,6% estavam nas mãos de 746 empresas privadas. O restante pertencia ao Estado, municípios e promotores públicos.

Na cidade do Luxemburgo, o preço médio por metro quadrado de um apartamento para arrendar era de 30,71 euros, entre julho de 2018 e junho de 2019, de acordo com o Observatório da Habitação. Já ao nível das vendas, os preços neste período eram de 7.800 euros o metro quadrado, no cantão do Luxemburgo para apartamentos já existentes e 8.500 euros para casas a construir.

Limpertsberg, com 12.236 o metro quadrado,é a zona mais cara da capital e Neudorf a 9.350 euros o metro quadrado, a mais acessível entre as mais caras, de acordo com o site At.home.

Em Lisboa, a zona mais cara é a da Avenida da Liberdade, onde o metro quadrado já é superior a 7.560. Segue-se o Chiado (7.418) e a Barata Salgueiro (6.690). No entanto, neste momento há casas com preços muito superiores a este.

Cristiano Ronaldo, por exemplo, comprou a casa mais cara de Portugal, na Av. da Liberdade no ano passado. Um apartamento com mais de 300 metros quadrados por 7,2 milhões de euros.

E no final do ano passado foram comprados por estrangeiros apartamentos no Rossio a cerca de 11 mil euros o metro quadrado. É o caso de um apartamento de 70 metros quadrados vendido por 780 mil euros. Uma casa que ainda só existe em planta e que foi adquirida por um estrangeiro.


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Apesar de o Luxemburgo ser um país rico, a desigualdade e a pobreza têm crescido significativamente. O problema dos custos crescentes da habitação tem contribuído crescentemente para esta situação.

Situação mais grave em Lisboa

Apesar dos preços inferiores praticados na capital portuguesa a situação para os residentes desta cidade é "mais dramática" do que no Luxemburgo, acreditam os dois especialistas com quem o Contacto conversou. Devido ao nível de vida dos lisboetas.

No Luxemburgo, o salário mínimo, para trabalhadores não qualificados, é de 2141 euros, e para qualificados, é de 2507 euros, o mais alto da Europa, e em Portugal é de 635 euros, o sexto mais baixo da UE. O salário médio dos residentes do Luxemburgo é de cerca de 3.300 euros por mês, o dos portugueses é 911 euros.

"A especulação imobiliária faz com que seja impossível para os lisboetas com salário médio poder ter uma vida digna em lisboa", declara ao Contacto Agustin Cocola Gant, investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa.

Em Lisboa a taxa de esforço referente à habitação "é enorme". Aliás, os residentes da capital portuguesa são os que gastam a maior parcela do salário nos custos da habitação, 50,4% entre os europeus, e os 6º a nível mundial, segundo o VII Estudo do Deutsche Bank "World Prices 2019" que abrangeu 56 cidades do mundo, não incluindo a do Luxemburgo.

“A situação da capital portuguesa é das mais graves da Europa porque os salários são baixos e não há um sistema de transportes públicos eficiente e alargado como noutras cidades europeias, como Paris ou Londres que permita que as pessoas possam morar a 50 km ou mais de Lisboa, onde trabalham", explica este investigador espanhol.

Os incentivos ao investimento estrangeiro dados pelo governo português, como os vistos gold ou o regime fiscal para residentes não habituais, abriram as portas de Lisboa ao capital do exterior, explicou Cocola Gant. A procura aumentou e os preços dispararam nos últimos anos.

Turismo e muito dinheiro

E foi assim que a capital portuguesa se tornou uma cidade dominada por apartamentos para alojamento local, de curta duração destinados ao turismo, Airbnb e outros, ou para estrangeiros com dinheiro para investir em casas a preços proibidos para quase totalidade de quem ali mora.

O investigador espanhol dá como exemplo uma das ruas principais de Alfama onde "em dois anos foram reabilitados 150 apartamentos. Destes apenas um foi para habitação permanente. Os restantes foram para especulação imobiliária".

O pior, considera é que o governo e a Câmara de Lisboa "não estão conscientes da gravidade do problema" e "continuam a proteger" este cenário.

A realidade atual impede que quem aqui trabalha consiga "uma habitação digna" para morar, vinca. Até nos subúrbios os preços das casas, aluguer e venda aumentaram.

Por exemplo, na Amadora, em cinco anos, o preço do metro quadrado passou de 650 euros para 1.890 euros, segundo o Instituto Nacional de Estatística. "Sem habitação e sem salários dignos é impossível aumentar a taxa de natalidade como o governo deseja. E a taxa da próxima década será pior do que a da que passou", perspetiva Agustin Cocola Gant.

Além de que o Governo também não irá "investir na habitação social", defende este geógrafo. "Resta aos lisboetas 'aceitarem' o facto de não poderem ter uma vida digna em Lisboa. O que é muito injusto".

Também Antoine Paccoud, geógrafo que trabalha no Liser, no Luxemburgo, considera a situação portuguesa preocupante. "Pelo que sei, em Lisboa a situação é muito louca. Com os preços das casas tão altos e o salário mínimo tão baixo, não imagino como as pessoas consigam viver e pagar casa. Deve ser uma situação bem difícil", estima.


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