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Custo da habitação no Luxemburgo expulsa residentes para os países vizinhos
Economia 11 min. 30.06.2021
Habitação

Custo da habitação no Luxemburgo expulsa residentes para os países vizinhos

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Custo da habitação no Luxemburgo expulsa residentes para os países vizinhos

Foto:Guy Jallay
Economia 11 min. 30.06.2021
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Custo da habitação no Luxemburgo expulsa residentes para os países vizinhos

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O preço louco da habitação está a obrigar os luxemburgueses a ir viver para os países vizinhos, e os seus habitantes a deixar de poder morar também na sua terra, como Arlon. O efeito bola de neve da habitação no Grão-Ducado tem diversas direções: filhos adultos a viver mais tempo com os pais, desigualdades a aumentar e o país a deixar de ser atrativo para os emigrantes.

Os casos dos luxemburgueses que são forçados a ir viver para os países fronteiriços por não terem dinheiro para pagar habitação no seu país são cada vez mais frequentes. Já para não falar dos imigrantes para quem esta realidade é há muito conhecida.

O preço exorbitante das casas no Luxemburgo tem um efeito bola de neve em várias direções com outros problemas a surgir, como explicam ao Contacto, especialistas, associações, o burgomestre de Arlon e aqueles que se mudaram.

E o futuro? “Os jovens luxemburgueses vão viver cada vez mais anos em casa dos seus pais” e o Luxemburgo “deixa de ser um país atrativo para os emigrantes devido ao custo da habitação”, e agrava as desigualdades, colocando em causa o próprio futuro do Luxemburgo, como um dos países mais desenvolvidos e prósperos.

As consequências da especulação imobiliária já chegaram aos outros lados da fronteira, onde os preços da habitação também aumentam devido à procura e ao rendimento mais elevado dos luxemburgueses.

Em Arlon, na Bélgica e em Audun-Le Triche, na França, por exemplo, as suas gentes já estão também a deixar de poder viver na sua terra e ter de ir residir mais longe. Maiores distâncias, maior tráfego nas estradas e outros problemas de mobilidade. “Só os mais ricos irão ficar a viver no Luxemburgo”, como declarou ao Contacto Antoine Paccoud, investigador do Liser, numa entrevista. Uma perspetiva que se está a concretizar.

Até agora são muito parcos os dados e estatísticas sobre esta questão transfronteiriça, e eles são fundamentais para compreender a realidade e ajudar a encontrar soluções, como explicou, ao Contacto, Patrick Bousch, investigador do Liser e um dos autores do estudo de viabilidade do Observatório do Habitat Transfronteiriço (OHT), encomendado pelo Governo luxemburguês.

Patrick Bousch, coordenador dos estudo das políticas nacionais no Liser, tem reunido os dados dos luxemburgueses que vão residir para as zonas perto do luxemburgo, na Bélgica, Alemanha e França, tornando-se eles próprios transfronteiriços.

“Em 2009, residiam um total de 2.900 luxemburgueses nos países vizinhos, em 2020, são já quase 11 mil, mais concretamente, 10.960 luxemburgueses transfronteiriços. Em cerca de 10 anos, o número quase quadruplicou”, vincou o autor do estudo do OHT.


Habitação no Grão-Ducado com aumento recorde em 2020
No mesmo ano em que a crise económica se instalou no mundo devido à pandemia da covid-19, os preços das casas no Luxemburgo tiveram um aumento nunca antes registado.

Nesta última década, a Bélgica tornou-se o país eleito para morar. “É o país onde residem mais luxemburgueses: em 2009, eram apenas 790 e em 2020, são 3.840. É um grande aumento”, especifica Patrick Bousch. Sobre o número de imigrantes a mudar-se para mais longe não há estatísticas e essa será uma missão do novo OHT.

Segundo os dados do Statec, sobre a população transfronteiriça, o aumento geral anual é igualmente alto. Em 2010, 3,3 mil luxemburgueses mudaram-se para o outro lado das fronteiras, e em 2020, foram já 10,4 mil, um número que vai crescendo de ano para ano.

Filhos em casa dos pais

Este investigador dá o exemplo da própria filha licenciada: “A minha filha começou a trabalhar e teve de ir viver para Trier, na Alemanha, pois no Luxemburgo não conseguiu encontrar uma casa a um preço que o seu salário comporte. E mesmo em Trier divide a casa com outras pessoas. Agora todos os dias tem de viajar quilómetros de casa para o trabalho aqui no Luxemburgo, em Kirchberg”. Esta foi uma solução não desejada, pois “se a minha filha pudesse continuaria a morar aqui no Luxemburgo. É o que ela queria”.

Ou os jovens luxemburgueses imitam a filha de Bousch ou ficam a morar cada vez mais anos em casa dos pais. No Grão-Ducado, “o aumento dos preços das casas é superior ao aumento do salário anual, e a maior fatia do rendimento familiar vai para o alojamento”, frisou o investigador.


O custo de vida bate recordes no Luxemburgo
Os preços dos imóveis no Grão-Ducado são 70% mais altos do que a média europeia o que coloca o país no cimo da tabela, revela um novo estudo do Eurostat. Também as comunicações telefónicas e de internet são 50% mais caras.

Um estudo recente do Eurostat, sobre o custo de vida nos países da União Europeia, comprova que o preço dos imóveis no Luxemburgo são 70% mais elevados do que a média europeia. É o terceiro país mais caro da Europa ao nível do custo da habitação, logo atrás da Irlanda e da Suíça.

“Os jovens são quem mais dificuldade tem em conseguir pagar uma casa. Com os salários dos primeiros anos de carreira não podem alugar casa pelo que vão continuando a morar em casa dos pais. Só assim conseguem economizar algum dinheiro, e continuam a viver com os pais até que o seu salário seja suficiente para sair de casa. O futuro é viver cada vez mais tempo com os pais”, perspetivou Bousch.

Em 2020, o aumento anual do preço da habitação atingiu novo recorde, de 14,5%, mesmo em ano de pandemia, segundo a “Conjuntura Flash” do Statec. O estudo prevê que em 2021 e 2022, os valores continuem a aumentar, mas desacelerem, com aumentos de 9% e 5%, respetivamente. Uma perspectiva que pode não se verificar. “Não estou muito convencido que o aumento desacelere”, diz este investigador.

Arlon: efeito bola de neve  

A “fuga” do território para as localidades dos países vizinhos gerado pelo custo da habitação traz igualmente consequências negativas para estas populações.

Em Arlon, na Bélgica, os residentes do Luxemburgo encontram casas “a metade do preço” do Luxemburgo. Mesmo quando têm salários médios preferem mudar-se para a Valónia e poder viver numa casa com jardim, em vez de viverem num pequeno apartamento no Grão-Ducado.

Vicent Magnus, burgomestre de Arlon.
Vicent Magnus, burgomestre de Arlon.

Só que os naturais da cidade não ganham o mesmo que os que trabalham no Luxemburgo e estão já também a ser “obrigados a mudar-se para outras terras próximas porque não têm poder económico para comprar ou alugar casa na sua cidade”, como contou, ao Contacto, o burgomestre de Arlon, Vicent Magnus. A especulação imobiliária luxemburguesa expandiu-se para o outro lado das fronteiras.

Uma conjuntura que, segundo este autarca, tem dois fatores principais não desejados pelos habitantes. “Além de terem de deixar a sua cidade há a questão da betonização da paisagem que não agrada muito”.

Para tentar solucionar o problema e manter os “arlonais” na sua terra natal, Vicent Magnus está já a agir: “Estamos a fazer acordos com as os promotores imobiliários para construir alojamentos acessíveis, e a vender terrenos a um preço mais baixo aos nossos habitantes para construir as suas habitações”. Só que apesar desta venda mais acessível dos terrenos da Câmara, os “arlonais” continuam com dificuldades com o preço da construção da habitação.

A outra solução é o Luxemburgo apostar na construção de habitações a preços acessíveis, vincou este burgomestre. “Mas todos os residentes do Luxemburgo são sempre bem-vindos a Arlon e nós e o Luxemburgo mantemos muito boas relações de vizinhança, tentando coordenar todas as questões”, fez questão de vincar Vicent Magnus, sublinhando que é graças a este país vizinho que as populações da região melhoraram o seu nível de vida. Pelo facto de poderem trabalhar no Grão-Ducado, onde os salários são mais elevados.

Situação idêntica em Audun-Le-Tiche

Do lado francês vive-se um problema idêntico ao de Arlon. A presidente da comuna francesa de Auden-Le-Tiche, Viviane Fattorelli, fez questão de se deslocar ao Luxemburgo para numa das manifestações da Plataforma pelo Direito à Habitação, na capital do Grão-Ducado, em novembro passado.

Viviane Fattorelli alertou para o problema de êxodo nas zonas fronteiriças, devido ao aumento dos preços imobiliários inflacionados pela procura dos luxemburgueses. Atualmente, já se torna quase impossível para os residentes de Audun-Le-Tiche conseguir acesso à habitação pois não ganham os ordenados luxemburgueses, declarou Viviane Fontanelli, ao Contacto, aquando da manifestação. Esta autarca realçou ainda os problemas de ordenamento urbano, de estacionamento e até de segurança que estão a crescer nas zonas fronteiriças francesas. No futuro a população transfronteiriça pode duplicar, estimou Viviane Fontanelli. Por isso, apela a concertação de esforços e de uma intervenção urgente ao nível da Grande Região e do Luxemburgo para resolver a situação.


"Sem os portugueses a nossa economia não funcionava"
Ter habitação a preços acessíveis anda "vai demorar alguns anos", porque "construir casas leva tempo" , afirma Pierre Gramegna, ministro das Finanças em entrevista ao Contacto.

Casa só em Nittel

Atraídos pelos bons salários e oferta de trabalho, os emigrantes continuam, por enquanto, a chegar ao Luxemburgo, nomeadamente os portugueses. Porém, há quem vá trabalhar para este país sem nunca poder viver nele. Maria e António (nomes fictícios) são um desses casos. Maria juntou-se há um ano ao marido que já estava no Luxemburgo mas ainda não consegue viver no país onde trabalha. O casal teve de mudar-se para Nittel, Alemanha, para conseguir um apartamento que pudesse pagar. “No Luxemburgo, os preços são muito altos e não há casas a preços moderados. Nós depois de muito procurar ainda tentámos comprar uma casa, mas o banco não autorizou o empréstimo, disse para nós esperarmos mais um tempo. Acho que foi porque eu cheguei há pouco ao Luxemburgo e tiveram receio”, contou, ao Contacto, Maria.

Isto, apesar desta imigrante portuguesa trabalhar numa empresa imobiliária do Grão-Ducado e ter maior facilidade em encontrar casa. “Mas elas são raras e há depois o problema do valor da garantia de avanço. Em Remich, encontrámos um estúdio por 1.600 euros/mês, mas pediram-nos três meses de renda adiantada, mais a renda do mês. Não temos esse dinheiro. Por isso, estamos a viver em Nittel, Alemanha, onde pagamos 800 euros por um estúdio de iguais dimensões, mas não tivemos de pagar adiantado”. 

Também António, amigo do casal chegou há dois meses ao Luxemburgo para trabalhar. “Não conseguiu nenhum alojamento com condições que pudesse pagar. Até lhe pediram 800 euros mensais por um quarto mínimo e que nem tinha janelas. Então está a morar connosco, dorme na sala”, contou Maria, dizendo que agora estão a mudar-se para outro andar no prédio em Nittel com dois quartos, para viverem os três melhor. O amigo António que trabalha na restauração em Echternarch, tendo diariamente de atravessar o Luxemburgo para chegar ao local de trabalho. Maria e o marido não desistiram de morar no Grão-Ducado e continuam a procurar ativamente casa no país. “É onde nós queremos viver”.

Menos emigrantes e mais desigualdade

O drama da habitação começa a gerar um novo fenómeno de efeito geográfico, o da “atração/repulsa” em relação ao Luxemburgo, explicou Patrick Bousch.

“O Grão-Ducado é atrativo ao nível dos salários, mas o problema da habitação afasta quem quer vir morar para cá. A não ser para quem vá trabalhar para a Google ou Amazon e ganhar cerca de 10 mil euros por mês. Para outros trabalhadores que auferem salários médios ou baixos, o Luxemburgo torna-se um país espacialmente segregado em termos de acesso à habitação. A habitação é muito cara e amplifica o fenómeno da desigualdade”.


Residentes no Luxemburgo precisam de trabalhar quase 16 anos para poder comprar casa
À frente do Luxemburgo estão apenas três países, segundo um estudo divulgado pela OCDE.

Também Aldina Ganeto, vice-presidente da Associação de Defesa dos Inquilinos Luxemburgo, Mieterschutz Lëtzebuerg alerta para o perigo “dos estrangeiros deixarem de querer vir trabalhar para o Luxemburgo por causa dos preços da habitação”. “O Luxemburgo precisa dos imigrantes, precisa de mão de obra para que o país continue a desenvolver-se e a manter a sua imagem. Por isso, tem de resolver rapidamente o drama da habitação. Quem vai depois trabalhar para a construção, por exemplo?”, questionou esta dirigente, cuja associação através da Plataforma pelo Direito à Habitação tem realizado diversas manifestações no país.

“Os preços vão continuar a aumentar e os emigrantes trabalhadores sozinhos vão deixar de querer vir para o Luxemburgo, pois co preço do alojamento, mesmo de um quarto sem condições leva a maior parte do salário, e assim não vale a pena vir”, alertou Aldina Ganeto.

“Conheço filhos de luxemburgueses que tiveram de ir morar para o outro lado da fronteira. Cada vez há mais gente a mudar-se para as localidades fronteiriças. Jovens, e divorciados, sobretudo mulheres com filhos que sozinhas não conseguem pagar uma renda”, conta esta dirigente. Para não falar das situações complicadas geradas pela crise da pandemia que agravaram ainda mais o problema. “Há muita gente em situação difícil neste momento”, alertando, tal como Patrick Boush, para as maiores desigualdades sociais.

“A habitação social e casas a preços acessíveis têm de ser uma prioridade do Governo, mas parece que não são. O Governo não vê como a situação é urgente”, sublinhou esta dirigente. Após o verão vão regressar à rua para pressionar mais uma vez o executivo.

A mesma solução é defendida por Patrick Bousch: “Precisamos de desenvolver maciçamente um mercado imobiliário acessível. O Governo diz que dará prioridade ao desenvolvimento de habitações a preços acessíveis, mas para o fazer, deve alterar a legislação, porque as disposições legais atualmente em vigor não preveem o a construção maciça de habitações a preços acessíveis no Luxemburgo. O mercado da habitação está feito para indivíduos que acedem através do mercado privado e isto exige a acumulação de meios financeiros consideráveis”.

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