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Falta de matérias-primas russas afeta indústria no Luxemburgo
Economia 6 min. 04.05.2022
Guerra na Ucrânia

Falta de matérias-primas russas afeta indústria no Luxemburgo

O embargo à madeira russa entra em vigor a 10 de julho
Guerra na Ucrânia

Falta de matérias-primas russas afeta indústria no Luxemburgo

O embargo à madeira russa entra em vigor a 10 de julho
Foto: DR
Economia 6 min. 04.05.2022
Guerra na Ucrânia

Falta de matérias-primas russas afeta indústria no Luxemburgo

Thomas KLEIN
Thomas KLEIN
O Grão-Ducado não importa muitos bens da Rússia, mas há empresas que estão a sofrer as consequências da escassez das matérias-primas. Além dos atrasos na produção de determinados artigos, a substituição dos materiais em falta acarretam custos significativamente mais elevados.

"Uma escavadora é constituída por cerca de 40.000 peças individuais. Seis delas vêm da Rússia ou da Ucrânia", exemplifica Pol Faber, secretário-geral da Associação de Empreiteiros ao Wort alemão. Enquanto não forem encontrados substitutos para estes componentes, que valem algumas centenas de euros, a escavadora não poderá ser produzida. Este caso ilustra o impacto que a guerra na Ucrânia está a ter na indústria, ainda que o comércio do Luxemburgo com ambos os países continue a ser exequível.


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Segundo o Statec, as mercadorias provenientes da Rússia representavam anteriormente apenas 0,1% das importações do Grão-Ducado, se excluirmos as importações através de países terceiros, como é o caso do gás natural. No entanto, em muitas áreas, é precisamente desta forma que uma súbita escassez de certos materiais pode atrasar ou encarecer repentinamente a produção.

A Alipa, empresa especializada em embalamento de Wiltz, tem sofrido o abalo das sanções económicas à Rússia. O grupo produz caixas dobráveis feitas de contraplacado de bétula que provém das florestas da Rússia e da Bielorrússia. "O clima, a extensão do cultivo e as técnicas de fabrico utilizadas nestes países são as razões que nos levam a obtê-lo de lá", justifica Michèle Detaille, diretora geral da Alipa. Além disso, "este contraplacado de qualidade é normalmente bastante barato".

Projetos com madeiras e asfalto mais caros

"O contraplacado da Bielorrússia tem estado sob embargo há algumas semanas. Ainda estamos a receber alguns camiões de contraplacado da Rússia que encomendámos há muito tempo e que não puderam ser entregues por causa da pandemia", continua Michèle Detaille. 

O embargo à madeira russa entrará em vigor a 10 de julho. Existem algumas alternativas possíveis com espécies como o eucalipto ou okoumé, "mas estas madeiras são menos adequadas [para a Alipa], pois são mais caras e têm as mesmas características técnicas". "A resistência mecânica não é tão boa. Podemos comprar na China e em África. Mas isto causa problemas de transporte que aumentam os custos. A entrega leva mais tempo e é menos fiável".


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Segundo a Alipa, o preço da madeira macia escandinava subiu 40% desde fevereiro, e o custo do seu transporte por camião da Escandinávia ou dos países bálticos até duplicou. 

O mesmo se aplica à maioria dos materiais importados da Rússia. É possível obter alternativas no mercado mundial, mas à medida que todos os concorrentes entram em cena, os preços sobem e a entrega está a demorar mais tempo. "Por exemplo, as empresas de construção têm comprado muito betume da Rússia. Se as entregas pararem agora, as empresas que fazem trabalhos de asfalto ou isolamento de telhados com este material terão problemas", afirma Pol Faber. 

Os projetos que requerem uma grande quantidade de asfalto, como a renovação da pista do aeroporto do Luxemburgo, deverão tornar-se muito mais caros. "Se as empresas de construção já tiverem acordado um preço fixo, em breve terão dificuldades. Os clientes certamente não dirão: não há problema, estou disposto a pagar 20% ou 30% a mais pela minha casa", acrescenta.

Preços quadriplicam até ao fim do ano

O fabricante de cimento Cimalux, em Esch-sur-Alzette, precisa de carvão como combustível para o seu processo de produção. Antes do início da guerra na Ucrânia, cerca de metade do carvão que a empresa utilizava provinha da Rússia através de intermediários, revela Christian Rech, engenheiro na empresa.

Depois da proibição às importações de carvão russo, decretada pela União Euripeia (UE) no início do mês passado, os fabricantes de cimento e os seus fornecedores tiveram de procurar novas fontes de abastecimento. Os maiores exportadores mundiais de carvão são a Colômbia, a África do Sul e a Austrália. "Não há nenhum problema direto no abastecimento de carvão, mas é preciso implementar a capacidade de transporte correspondente. Até agora, não importámos destes países a esse ponto."


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Estes desenvolvimentos repercutem-se também nos preços. "No ano passado, pagámos 90 euros por tonelada. Agora estamos a pagar entre 160 e 180 euros. Para o período de agosto a dezembro, foi-nos dito que os preços estarão entre 320 e 360 euros. Portanto, temos uma duplicação de preços neste momento e uma quadruplicação no segundo semestre do ano", lamenta o responsável. Os custos adicionais terão um impacto significativo no resultado operacional. 

"Estamos a vender uma matéria-prima. Não podemos simplesmente fazer subir ou descer os preços. Por isso, este ano teremos de ser nós próprios a absorver o impacto do aumento dos custos", alerta Christian Rech. No próximo ano, contudo, os clientes poderão esperar aumentos de preços significativos. A longo prazo, a produção de cimento terá também de fazer face ao aumento dos custos dos impostos sobre o CO2. Assim, o engenheiro prevê que os preços do cimento mais do que dupliquem ao longo da década. 

Abastecimento de gás sem alternativa imediata

Embora os substitutos para matérias-primas como a madeira, carvão ou betume sejam mais caros, mas possam ser encontrados no mercado mundial, não é certo que as importações russas possam ser compensadas em medida suficiente. A decisão da semana passada do Kremlin de deixar de fornecer gás à Polónia e à Bulgária mostrou que um apagão total é bastante possível.


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Se já não houvesse gás suficiente para cobrir todas as necessidades do Luxemburgo, entraria em vigor o plano de abastecimento de emergência, que dá prioridade a infraestruturas críticas tais como hospitais e lares privados em detrimento da indústria. Contudo, a estratégia está atualmente concebida para lidar com uma situação em que um gasoduto seja danificado e as reparações levem alguns dias, explica Christian Rech. A Cimalux também precisa de gás para os seus processos de fabrico. Mas, segundo o engenheiro, em caso de guerra, é preciso estar preparado para uma escassez a longo prazo, e encontrar soluções diferenciadas que permitam à indústria funcionar minimamente.

O encerramento completo seria um desastre para algumas empresas da indústria. O forno a gás do fabricante de vidro Guardian, por exemplo, tem de ser mantido a uma certa temperatura, caso contrário a fábrica pode ser gravemente danificada. "Como resultado, e conscientes dos danos estruturais que o eventual 'corte' de gás natural poderia causar, acreditamos que, segundo o plano atualmente em vigor, os nossos fornos estariam entre os últimos a ter os seus abastecimentos reduzidos pelo operador da rede de gás natural", estima um porta-voz da empresa.   

"Neste caso, criámos também um sistema de reserva de gás de petróleo liquefeito (GPL) para garantir a segurança das operações e manter os nossos fornos intactos", continua o responsável.

(Este texto foi publicado originalmente na edição alemã do Luxemburger Wort.)

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