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Europa alia-se aos EUA para fugir da dependência do gás da Rússia
Economia 7 min. 04.02.2022
Crise na Ucrânia

Europa alia-se aos EUA para fugir da dependência do gás da Rússia

Crise na Ucrânia

Europa alia-se aos EUA para fugir da dependência do gás da Rússia

Fotto: AP
Economia 7 min. 04.02.2022
Crise na Ucrânia

Europa alia-se aos EUA para fugir da dependência do gás da Rússia

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Se Putin invadir a Ucrânia, a Europa e os aliados vão impor sanções duras. Em troca, a Rússia cortará o gás à Europa. Por isso, esta semana, a Comissão falou com o Qatar e foi ao Azerbaijão. E segunda-feira haverá uma cimeira em Washington para os dois aliados transatlânticos garantirem a segurança energética da UE, se a invasão acontecer.

Nada está excluído -  disse Von der Leyen, a semana passada, sobre as sanções à Rússia, incluindo impedir a aprovação do gasoduto Nord Stream 2 que transportará gás do Mar Báltico para a Alemanha, e que é um trunfo importante nas mãos da União Europeia para impedir Putin de invadir a Ucrânia. Mas à medida que as tensões vão subindo de tom – e mesmo enquanto se multiplicam as conversas telefónicas e agendamento de encontros no Kremlin com líderes europeus para uma resolução por via diplomática – a presidente da Comissão foi esta sexta-feira muito clara. 

Em entrevista ao jornal francês Les Echos, Ursula on der Leyen disse que, caso Putin ponha botas militares na Ucrânia, o pacote de sanções inclui não aprovar o Nord Stream 2, cortar o acesso a capital estrangeiro e cancelar a exportação de bens essenciais, como componentes high-tech que a Rússia não tem e não pode substituir, “por exemplo no campo da inteligência artificial, armamento, computadores quânticos e indústria espacial”.

As sanções que a presidente da Comissão anunciou, finalmente, esta sexta-feira – após a Ucrânia acusar a UE de falta de solidariedade por não falar abertamente sobre o tema – estão de acordo com as restrições que os Estados Unidos se preparam para implementar. São componentes que afetam diretamente o ego de Putin e as suas ambições de tornar a Federação Russa um Estado high tech com domínio no espaço e em computação quântica. Seria cortar-lhe o acesso à revolução tecnológica do século XXI.

Von der Leyen acusa Kremlin de ter cortado gás à Europa

Mas, entretanto, a Rússia também tem feito uso dos seus trunfos na longa guerrilha que mantém com a União Europeia - cujo episódio mais recente foi uma humilhação do representante diplomático europeu, Josep Borrell, no Kremlin, os ciberataques vindos de Moscovo e o envenenamento do opositor político Navalny. O trunfo da Rússia é o gás natural. Desde setembro de 2021, a Gazprom estancou o seu fornecimento deste combustível fóssil à Europa, justamente na altura em que ele era mais preciso para garantir o aumento das necessidades de eletricidade nos meses mais frios.  

Atualmente, a Comissão Europeia continua ainda a investigar a companhia estatal russa Gazprom, sobre uma alegada quebra de fornecimento de gás à União Europeia, como forma de chantagem para ver aprovado o Nord Stream2 (um pipeline que duplica a capacidade de fornecimento do gás vindo do Báltico, mas que tornaria a Europa ainda mais dependente energeticamente da Rússia).

Esta sexta-feira, Ursula von der Leyen foi pela primeira vez clara desde que a investigação à Gazprom se arrasta desde o outono de 2021. “O Kremlin está a usar o fornecimento de gás como forma de nos pressionar”, disse a responável ao Les Echos. “Por causa do aumento da procura e da alta de preços, outros fornecedores de gás aumentaram o fornecimento, mas a Gazprom não”, adiantou.

Uma boa parte da explicação dos preços elevados da energia elétrica na Europa poderão estar ligados ao facto de a Gazprom estar a fechar a torneira à União Europeia, primeiro num contexto de guerrilha comercial, e agora numa situação de guerra fria com a ameaça de Putin ordenar a invasão militar da Ucrânia.

Neste momento, segundo uma porta-voz da Comissão, Ariana Podesta, esta instituição está a “olhar para todas as alegações de conduta anti-competição das empresas que fornecem gás à Europa, tentando saber se atualmente a situação de mercado de gás na Europa pode ser atribuída a conduta comercial pelos participantes no mercado. “Em Outubro, a Comissão enviou inquérito a várias companhias, incluindo a Gazprom, mas não pode comentar sobre o estado, timing ou resultado”, adiantou. Entretanto, a Gazprom já enviou informação, mas a que é pública. Segundo disse Ariana Podesta, a Comissão ainda está “à espera de uma resposta completa em relação aos nossos pedidos específicos”.

Cimeira Energética em Washington

Por causa da crise energética que se iniciou em setembro e que um eventual conflito com a Rússia irá tornar mais dramático, Washington e Bruxelas juntam forças. Na próxima segunda-feira, dia 7, o Alto Representante para os Assuntos Externos, Josep Borrell, e a comissária europeia da Energia, Kadri Simson, estarão numa chamada “Cimeira de Energia”, onde do lado norte-americano participam o secretário de Estado Antony Blinken (que tem negociado com a Rússia uma saída diplomática para a crise ucraniana) e a Secretária da Energia da administração Biden, Jennifer Granholm.

A reunião servirá para cimentar a cooperação transatlântica na questão da segurança energética e “para acelerar o compromisso conjunto de fazer a transição para uma energia renovável para os cidadãos europeus, dos Estados Unidos e em todo o globo”, segundo refere um comunicado da Comissão Europeia.

Na passada sexta-feira, dia 28 de janeiro, Joe Biden e Von der Leyen assinaram um comunicado conjunto segundo o qual, “os Estados Unidos e a União Europeia estão a trabalhar em conjunto para que haja um fornecimento contínuo, suficiente e atempado de gás natural para a UE de fontes diversificadas em todo o globo, para evitar choques no fornecimento, incluindo os que podem resultar de uma invasão da Rússia à Ucrânia”. O comunicado, emitido na antecipação da cimeira da próxima semana, salienta ainda que os “atuais desafios de segurança que a UE enfrenta torna mais evidente a necessidade de acelerar com precaução a transição dos combustíveis fósseis para as energias limpas”.

Meses à procura de novos fornecedores: da Noruega ao Qatar

O preço do gás na União Europeia atingiu níveis recorde no terceiro trimestre de 2021, de acordo com o relatório da Comissão Europeia sobre o mercado grossista de gás e que foi publicado a 17 de janeiro. No final de setembro, o preço do gás natural atingiu o valor máximo de 85€/MWh. O resultado foi o de aumentos brutais do preço da eletricidade ao consumidor final, em todos os países europeus, tendo o Luxemburgo sido um dos mais atingidos.

Nos últimos meses, segundo Tim Mcphie, porta-voz para questões de energia, a Comissão tem-se desdobrado em consultas com vários fornecedores de energia para ultrapassar a escalada dos preços e o garrote que a Gazprom colocou no seu pipeline para a UE. A Noruega foi um dos países que abriu a torneira à UE.

Por isso, a questão dos preços desdramatizou-se um pouco. Segundo informações de Kadri Simson ao Parlamento Europeu, no passado dia 2, o preço do gás caiu com a conjunção do aumento do fornecimento de antigos e novos fornecedores e pelo facto de as temperaturas pouco frias deste inverno  exigirem menos aquecimento nas casas. A comissária adiantou que os últimos meses mostraram  também “a nossa resiliência e capacidade de reagir à diminuição do fluxo da Rússia”. E que “a reação dos mercados em janeiro mostrou também que a Europa pode contar com um mercado de gás mais diversificado”. “Contudo, os preços da energia continuam muito altos, e os mercados continuam muito voláteis”, salientou.

Que a Europa não está ainda fora de perigo de ficar sem gás suficiente, na situação atual de guerra fria com a Rússia, também é claro. O porta-voz de Ursula von der Leyen, Eric Mammer, salientou que nestes dias “a questão da energia envolve toda a Comissão”. E houve um corropio de iniciativas durante esta semana.

Kadri Simson esteve esta terça-feira, dia 1, em negociações com o ministro da Energia do Qatar, após uma reunião na semana passada de mais alto nível, entre a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, e o emir deste Estado, o sheik Tamim bin Hamad Al Thani. Esta sexta-feira, Kadri Simson foi ao Azerbeijão, na tentativa de negociar o aumento do fornecimento através do gasoduto Transadriático.

Diversificar o fornecimento do gás natural é, segundo Eric Mammer, “um projeto de longo prazo e que está a envolver toda a comissão desde o começo da crise, em setembro”. O facto de poder haver o corte de relações comerciais com a Rússia por causa da Ucrânia torna o assunto ainda mais premente e assustador. Mas a parceria com o atual amigo americano é nesta questão vista como fundamental.

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