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Especulação imobiliária leva ao aumento de milionários no Luxemburgo
Economia 9 min. 07.07.2021
Relatório

Especulação imobiliária leva ao aumento de milionários no Luxemburgo

Relatório

Especulação imobiliária leva ao aumento de milionários no Luxemburgo

Economia 9 min. 07.07.2021
Relatório

Especulação imobiliária leva ao aumento de milionários no Luxemburgo

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Mesmo em ano de pandemia, 2020, os preços da habitação dispararam. Resultado: Há mais milionários no país, 42.800 no total, mas também há mais famílias sem dinheiro para uma casa. Se não se agir já só os ultra-ricos vão ficar a viver no Luxemburgo.

A crise da covid-19 não afetou os mais ricos no Luxemburgo. Bem pelo contrário, até os favoreceu. De 2019 para 2020, houve um aumento de 6,5 % de milionários no Luxemburgo, mais 2.600, ou seja, dos 40.2 mil residentes com mais de um milhão de dólares (cerca de 850 mil euros), em 2019, passou a haver 42.800, em 2020, indica o relatório da Capgemini.

“Porque é que há mais milionários no Luxemburgo? Tudo graças ao preço do imobiliário que conheceu um aumento considerável durante o ano de 2020, cerca de 10%, em média”. A pergunta e resposta foram dadas por Robert van der Eijk, Managing Director da empresa de consultadoria Capgemini Invent Europe Cluster, na conferência de imprensa da apresentação do World Wealth Report (Relatório sobre a Riqueza Mundial) 2020, na semana passada. A tendência no Luxemburgo seguiu a observada mundialmente, onde também a crise da covid-19 beneficiou os milionários. Segundo o Statec, em 2020, o aumento do preço das casas no Grão-Ducado até subiu mais, atingindo um aumento recorde de 14.5%.

Atualmente, um em cada 15 residentes no país é milionário, e nesta riqueza não entra em conta a residência principal, indica o relatório da Capgemini. Cada uma destas pessoas tem, em média, uma fortuna de 2,96 milhões de dólares (2,49 milhões de euros).

O Luxemburgo é mesmo um dos três países com mais milionários per capita, a par com a Suíça e o Mónaco, disse o responsável da Capgemini. “É o eixo Mónaco, Suíça, Luxemburgo”.


Estará o Luxemburgo a transformar-se no Mónaco?
Prometeram-nos que no verão a “imunidade do grupo” já deveria estar a funcionar em pleno na Europa. Mas as novas vagas de contágio, provocadas pela variante Delta estão a complicar esta equação. Nunca nos devemos esquecer que a vacinação massiva continuar a ser a única solução para esta pandemia.

Claramente, a crise da covid-19 não afetou o clube dos mais ricos no país, pois não só houve novos milionários, como os ultra-ricos (os que possuem uma fortuna superior a 30 milhões de dólares, ou seja, 25,28 milhões de euros) aumentaram em número (+9,6%) e ficaram ainda mais ricos (+9,1%) durante a pandemia.

Photo: Shutterstock

O setor imobiliário foi a principal aposta de investimento, cerca de 22% dos milionários investiram neste mercado, outros 20% dedicaram-se às ações, e 18% investiram em alternativas ecológicas ou sustentáveis.

E quem são os milionários do Luxemburgo? “É interessante porque constituem dois extremos: de um lado, os ultra-ricos, e do outro os novos milionários, pessoas que compram uma casa, analisam bem o mercado, depois compram a segunda, e assim sucessivamente”, descreveu Robert van der Eijk. Entre os novos milionários a fortuna pessoal é de três milhões de dólares (2,52 milhões de euros), em média, e é resultante de investimentos no mercado imobiliário.

A riqueza conjunta dos milionários do Luxemburgo cresceu 8,3% de 2019 para 2020, atingindo os 126,68 mil milhões de dólares (106.758 mil milhões de euros). “É um belo número!”, frisou Robert van der Eijk que se mostrou confiante para 2021.

“Se as taxas de juro se mantiverem a este nível, se o mercado se movimentar positivamente, e não tivermos uma 4º ou 5ª vagas de covid-19, 2021 poderá ser um ano magnífico. Existe um cocktail perfeito para continuar o crescimento” dos milionários, perspetivou.

42 mil milionários? Não, mais de 100 mil

Antoinne Paccoud
Antoinne Paccoud
Foto: Tiago Figueiredo

Para Antoine Paccoud, investigador do Liser, o número dos muito ricos no Luxemburgo está “subestimado neste relatório, ao não incluir a habitação principal na avaliação da fortuna.


Custo da habitação no Luxemburgo expulsa residentes para os países vizinhos
O preço louco da habitação está a obrigar os luxemburgueses a ir viver para os países vizinhos, e os seus habitantes a deixar de poder morar também na sua terra, como Arlon. O efeito bola de neve da habitação no Grão-Ducado tem diversas direções: filhos adultos a viver mais tempo com os pais, desigualdades a aumentar e o país a deixar de ser atrativo para os emigrantes.

“Se tivermos em conta as habitações ocupadas pelos proprietários, uma grande parte da população luxemburguesa é milionária. De acordo com o Statec, cada residente dispõe de um património de cerca de 900 mil euros”, vincou ao Contacto este investigador.

Só na capital do país há muito mais de 42 mil milionários. “Na capital, o valor do metro quadrado é superior a 10 mil euros, por isso quem tenha um apartamento de 100 metros quadrados é milionário. E metade da população da capital (51% segundo o recenseamento da população de 2011) é proprietária da sua residência, o que faz 50 mil milionários apenas na capital”, frisou Antoine Paccoud. “Em meu entender e de um modo geral, se incluirmos a residência principal no cálculo, deve haver mais de 100 mil agregados milionários, contando com os proprietários de bens imobiliários (69% segundo o recenseamento de 2011) entre os 600 mil residentes no país”, afirmou este investigador para quem a definição de milionário no Luxemburgo é um “estudo muito interessante a ser feito”, porque tem de se cruzar diferentes dados, nomeadamente os terrenos por construir.

“Se a definição [deste relatório] não inclui a residência principal, penso que não reflete corretamente o que é ser milionário no Luxemburgo. Se é proprietário de uma casa na capital do país, deve ter dinheiro e ser milionário”, avançou Paccoud. Assim, este relatório minimiza o verdadeiro problema: “ a desigualdade social”. “A realidade é que os ricos continuam a comprar terrenos e casas e os preços continuam a aumentar, enquanto que o número de pessoas que não têm meios para alugar ou comprar casa também está a aumentar. O rápido aumento dos preços aumenta a desigualdade social”, alertou.

Se nada for feito e os preços continuarem a subir o Luxemburgo “tornar-se-á noutro Mónaco, onde apenas vivem ultra-ricos, impedindo que qualquer pessoa com um emprego normal possa residir no país”.

Como se inverte a situação? “Os preços dos imóveis devem tornar-se razoáveis, os salários devem subir e deve haver habitação a preços acessíveis”, responde o investigador.

Déi Lénk: Ocupar as casas vazias

Nathalie Oberweis
Nathalie Oberweis
Foto: Gerry Huberty

A habitação acessível é uma das apostas em que Governo e oposição estão de acordo para resolver a crise da habitação. Contudo, vai levar tempo até que todas as famílias nas listas de espera (que continuam a aumentar) possam beneficiar de uma casa e “é preciso agir já”, alertou ao Contacto a deputada Nathalie Oberweis, do déi Lénk.

“Por um lado, há cerca de 20 mil habitações vazias privadas, pelos poucos dados que temos, e do outro e há mais de 30 mil pessoas a necessitar urgentemente de casa, e isto é chocante. Para nós a solução imediata é disponibilizar essas habitações para essas pessoas até que a construção de habitação acessível esteja concluída. É isso que tem de ser feito urgentemente, porque as casas não se constroem de um dia para o outro”, explicou Nathalie Oberweis.


Habitação no Grão-Ducado com aumento recorde em 2020
No mesmo ano em que a crise económica se instalou no mundo devido à pandemia da covid-19, os preços das casas no Luxemburgo tiveram um aumento nunca antes registado.

Outra das propostas do déi Lénk é a de taxar os imóveis vazios e terrenos por construir. “Existe uma taxa municipal, mas não é obrigatória, e só três comunas a praticam. Nós apresentámos agora uma moção que esta taxa devia ser obrigatória em todas as comunas, mas foi rejeitada, porque não há vontade política”, declarou a deputada.

Para Nathalie Oberweis é igualmente “chocante” que a principal necessidade do país, a habitação, seja o modo de enriquecimento para alguns. “Existe uma crise total da habitação e é grave que ela seja usada para especulação e para enriquecer em vez de cumprir a necessidade existencial de habitar. De um lado, temos pessoas cada vez mais ricas e com mais propriedades, e do outro, pessoas cada vez mais excluídas da habitação, sem poder viver decentemente, em casas sem salubridade, muito pequenas ou mesmo sem casa. A clivagem social e a desigualdade são cada vez maiores”, criticou a deputada do déi Lénk.

Por isso, voltou à ocupação das casas vazias, como a solução imediata para o problema de milhares de pessoas. Na moção apresentada, o déi Lénk aponta a existência de 941 hectares de terrenos privados para construção, onde se poderia colocar habitações modulares amovíveis e temporárias para acolher famílias necessitadas. O registo comunal dos bens imóveis vazios e dos terrenos por construir, privados e do Estado, é outra das propostas da moção do déi Lénk rejeitada. A questão é que “no Parlamento e no Governo ninguém sente na pele o problema da habitação, por isso não está resolvido”, disse esta deputada. “Os residentes luxemburgueses são, em geral, muito privilegiados neste país em relação aos residentes de outras nacionalidades, e são estes os mais afetados pelos problemas sociais como a habitação”.

LSAP: imposto anti-especulação

Yves Cruchten
Yves Cruchten
Guy Jallay

Também o deputado Yves Cruchten, do LSAP, defendeu ao Contacto que a “habitação é do interesse público” sendo um facto, que a subida dos preços dos imóveis beneficia “os sortudos que são proprietários múltiplos, especialmente aqueles que possuem grandes áreas de terra”. E é “frequentemente aqui que reside o problema”, vincou este deputado: “os terrenos onde se pode construir diretamente estão a ganhar valor todos os dias e os proprietários não têm, portanto, qualquer interesse em colocá-los no mercado ou em construir neles”.

Embora “75% dos luxemburgueses sejam proprietários”, Yves Cruchten considerou que “nem todos vivem no luxo e na opulência”, pois há quem “sofra com a subida dos preços no momento da aquisição, o que por vezes resulta em sobre-endividamento”. O deputado lembrou ainda que no passado o LSAP criou incentivos fiscais (por exemplo, taxas trimestrais) para atenuar o problema, mas tal “não teve o efeito desejado”, por isso, o seu partido defende a introdução de “impostos anti-especulação”. “Estes impostos teriam um duplo benefício: aumentar a oferta no mercado imobiliário e, assim, reduzir a pressão sobre os preços imobiliários, e as receitas adicionais do Estado poderiam ser utilizadas para a construção de habitações subvencionadas”, explicou Yves Cruchten.


Rendas em Lisboa e Cidade do Luxemburgo são das mais altas da Europa
"Os aumentos mais pronunciados foram observados em Portugal, Suíça, Eslovénia e Luxemburgo", diz o estudo. O salto em Portugal como um todo foi brutal, ascendeu a quase 70%.

Na sua opinião, “é muito importante encorajar a construção de habitações subsidiadas”. E recorda que o Luxemburgo possui apenas 2% de habitação subsidiada pelo Estado no total do parque habitacional. “Com grandes projetos de construção como o Wunne mat der Wooltz, Elmen ou Nei Schmelz vamos aumentar a percentagem de habitações acessíveis, mas isto não é ainda suficiente”, vincou. “Se todos os 102 municípios do Luxemburgo investirem na criação de habitação acessível, no futuro com o novo Pacto de Habitação 2.0, teremos a possibilidade de oferecer habitação para todas as bolsas, a médio prazo”, estimou este deputado sublinhando que os municípios “liderados pelo LSAP estão a avançar!”. 

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O preço louco da habitação está a obrigar os luxemburgueses a ir viver para os países vizinhos, e os seus habitantes a deixar de poder morar também na sua terra, como Arlon. O efeito bola de neve da habitação no Grão-Ducado tem diversas direções: filhos adultos a viver mais tempo com os pais, desigualdades a aumentar e o país a deixar de ser atrativo para os emigrantes.