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Enviem as faturas para Moscovo
Opinião Economia 4 min. 21.09.2022
União Europeia

Enviem as faturas para Moscovo

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no discurso do Estado da União, no Parlamento Europeu, a 14 de setembro.
União Europeia

Enviem as faturas para Moscovo

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no discurso do Estado da União, no Parlamento Europeu, a 14 de setembro.
Foto: Frederick Florin/AFP/dpa
Opinião Economia 4 min. 21.09.2022
União Europeia

Enviem as faturas para Moscovo

Hugo GUEDES
Hugo GUEDES
O estado da União Europeia é de preocupação. Não poderia ser outro, olhando para a tempestade perfeita que desabou sobre as nossas cabeças.

O Estado da União é uma (excelente) iniciativa instaurada pelo Tratado de Lisboa: o/a presidente da Comissão Europeia dirige-se cada Setembro ao plenário do Parlamento Europeu fazendo um balanço das grandes questões no horizonte do continente e projectando medidas para as resolver – soluções a curto, médio e sobretudo longo prazo. Barroso foi o primeiro a fazer este discurso em 2010 – no auge da crise financeira que humilhou e empobreceu a Europa do Sul –, mas depois desse início desastroso, a tradição anual tem vindo a crescer em importância e significado.

Só que actualmente, quando ouço "Estado da União", lembro-me sempre da velha piada: "Cristo morreu, Marx também, e eu próprio não me estou a sentir lá muito bem...". Porque se perguntassem à UE como esta se sente, a resposta provavelmente seria: "não lá muito bem".

Estes não são tempos normais, e há um fosso entre preocupações existenciais da democracia e o dia-a-dia que nos augura uma decadência económica.

O estado da União Europeia é de preocupação. Não poderia ser outro, olhando para a tempestade perfeita que desabou sobre as nossas cabeças. Mal saídos de uma pandemia que tudo sacudiu, e ao mesmo tempo que o colapso climático se torna cada vez mais difícil de ignorar, a guerra estalou às nossas portas, atirando-nos para uma crise energética sem precedentes; a economia começa a estalar e a grande maioria dos cidadãos (os 99% que tudo suportam) passam os dias entalados entre uma inflação que lhes destrói as poupanças, uma conta de supermercado que sobe a cada semana e uns custos anuais de aquecimento e electricidade superiores ao seu salário mensal. E nem falemos de taxas de juro e hipotecas, por enquanto...

A corda está muito esticada, e os olhos voltam-se para que a UE a alivie; o Estado da União deste ano levantava altas expectativas (pelo menos entre a minoria que segue estes assuntos). Tão altas, aliás, que o discurso só poderia terminar em desilusão, apesar de não ter sido mau de todo: afinal, a presidente Von der Leyen anunciou limites aos lucros extraordinários (e obscenos) das empresas de energia e outras medidas concretas para tornar a Europa independente em termos energéticos, fortificando os seus recursos próprios.

Mas este campo foi quase uma ilha de realidade num mar de conceitos etéreos, valores existenciais e omissões ensurdecedoras. Nem uma palavra para a política digital, em que estamos tão atrasados, ou para a segurança alimentar, actualmente em risco; nem uma palavra para a Defesa europeia, apesar da guerra a poucos quilómetros.

Nada de confusões: a Europa mantém-se em bloco coeso na sua condenação do regime putiniano. Von der Leyen não receou as grandes palavras. "Estamos numa luta da autocracia contra a democracia", avisou. "Esta é uma guerra contra a nossa energia, a nossa economia, os nossos valores mais profundos, o nosso futuro". 

Mas não se falou num novo conjunto de sanções, nem de confiscar mansões de oligarcas russos, nem de enviar mais armamento para o exército ucraniano. Similarmente, a alemã invocou a organização de uma Convenção para reformar os tratados europeus e agilizar o funcionamento da UE – mas não ofereceu nenhum vislumbre em como isso poderia avançar, nem como ultrapassar os obstáculos colocados pelos países mais eurocépticos, que são vários e aos quais se juntará em breve a Itália.

Certamente é pedir demasiado a um discurso que este seja tudo para todos. Em tempos normais, um pouco de rasgo, uma pitada de inspiração, uns momentos teatrais e um punhado de medidas concretas causariam contentamento e dariam a impressão que a União estava em boas mãos; no final, poderíamos continuar tranquilamente as nossas vidas.

Mas estes, claramente, não são tempos normais, e há um fosso enorme entre valores, ideais e preocupações existenciais da democracia europeia e a realidade do dia-a-dia – que nos augura uma decadência económica inescapável, esperemos que apenas temporária.

O momento mais ilustrativo do evento veio em resposta a uma deputada francesa que trouxe facturas reais para o debate na assembleia. "Os cidadãos têm dificuldades em pagá-las", disse. A resposta de Ursula von der Leyen foi taxativa: "mande-as para Moscovo!" Se é sem dúvida um bom exemplo de uma medida concreta, tenho grandes dúvidas que funcione.

 (Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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