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Energia. Pode a UE ser realmente independente?
Economia 6 min. 10.05.2022
Crise energética

Energia. Pode a UE ser realmente independente?

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Energia. Pode a UE ser realmente independente?

Foto: AFP
Economia 6 min. 10.05.2022
Crise energética

Energia. Pode a UE ser realmente independente?

Charles MICHEL
Charles MICHEL
Dada a sua dimensão, o Luxemburgo é, juntamente com Malta e a Bélgica, o maior importador de energia da Europa. O que pensam estes Eurodeputados sobre a independência da UE neste sector?

"Independência energética europeia". No Google, a combinação destas três palavras oferece 4.150 acessos. Este é um número pequeno em comparação com as 36 milhões de entradas para a Liga dos Campeões, no futebol. Contudo, o assunto é muito mais importante do que essa Taça. É ainda mais importante numa altura em que a Presidente da Comissão Ursula von der Leyen anunciou uma sexta ronda de sanções contra a Rússia na sequência do conflito com a Ucrânia, a 4 de maio.

Depois do carvão, a UE decidiu proibir a importação de hidrocarbonetos e abandonará a compra de petróleo bruto russo no prazo de seis meses, e, até ao final do ano, de produtos refinados. Para ser adotado, este pacote deve ser votado por unanimidade, mas a Hungria e a Eslováquia são muito dependentes do petróleo russo. Estes dois países poderão vir a beneficiar de uma isenção e terão até ao final de 2023 para encontrar outras alternativas. A Bulgária gostaria de beneficiar do mesmo favor... 


Luxemburgo entre os países mais dependentes de energia importada
A Estónia é o país da União Europeia (UE) menos dependente da importação de energia e Malta, Chipre e Luxemburgo lideram, enquanto Portugal está em 11.º lugar, segundo dados compilados pela Pordata, reportados a 2020.

Embora estas medidas não devam causar qualquer escassez imediata, impõe-se uma questão: poderá a Europa virar as costas ao segundo maior produtor mundial de hidrocarbonetos (568 milhões de toneladas), que em 2019 lhe forneceu vários 969 milhões de barris (1 barril = 159 litros)? Isto é, contudo, 26% menos do que em 2015. 

Temos de o admitir, cometemos erros"

Marc Angel (LSAP)

Marc Angel (LSAP), eurodeputado no Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas, acredita que esta perspetiva é uma necessidade, mas sublinha que é necessária fazer uma mea culpa: "A Europa deve fazer a sua autocrítica: desde 2014 e da invasão da Crimeia, não deixou de se mostrar cada vez mais dependente da energia russa... Temos de o admitir, cometemos erros". 

Um relatório do Eurostat, publicado em março, confirma o aumento das importações de carvão entre 2010 e 2020 (de 22,4% para 49,1%), mas também de gás natural (de 30,6% para 38,2%). A compra de petróleo bruto russo caiu de 34,7% para 25,7%. Esta diminuição é compensada por aumentos significativos de outros produtores como a Noruega (de 7,7 para 8,7%), Cazaquistão (5,6 para 8,4%), Arábia Saudita (6 para 7,8%), mas sobretudo os Estados Unidos, cujas importações para o Velho Continente aumentaram desde 2015 de 0,2 para 8,1%. 


Ministro da Energia luxemburguês sugere campanha de poupança à escala europeia
Em reunião com os homólogos dos 27, na segunda-feira, Claude Turmes propôs que a UE estabeleça medidas para poupar energia e, assim, estabilizar os preços.

Em 2020, mais de metade (57,5%) da energia bruta disponível da UE veio de fora da UE. Isto suscita preocupações. Assim, desde maio de 2014, a Comissão Europeia tem vindo a desenvolver uma estratégia de segurança energética para "assegurar um abastecimento energético estável e abundante" em caso de crise. Cada país membro deve "manter reservas de emergência equivalentes a pelo menos 90 dias de importações líquidas ou 61 dias de consumo". Estas reservas devem estar "prontamente disponíveis" para que possam ser "rapidamente distribuídas onde são mais necessárias". 

O Luxemburgo corre sobre petróleo... belga

Segundo o Eurostat, a produção de energia da UE decompõe-se da seguinte forma: 40,8% é renovável, 30,5% provém da energia nuclear (particularmente em França, onde representa 75,2% da produção de energia primária do país), 14,6% de combustíveis fósseis sólidos (sobretudo, carvão e lignito), 7,1% de gás natural, 3,3% de petróleo bruto e 3,7% de outras fontes (solar, biomassa, geotérmica). Estes números devem ser comparados com as fontes da energia utilizada na Europa: 36,3% de produtos petrolíferos, 22,3% de gás natural, 15,5% de energias renováveis e 13,1% de energia nuclear. 

"Frans Timmermans  [vice-presidente da Comissão Europeia desde 2014] quer reduzir as importações de gás russo em dois terços", acrescenta Marc Angel, o eurodeputado que representa o país (o Luxemburgo) que, dada a sua dimensão, foi o maior importador de energia da UE em 2020, juntamente com Malta e a Bélgica. 

De notar também que no Grão-Ducado, 78,9% do consumo interno bruto de energia foi assegurado por combustíveis fósseis importados (60,5% produtos petrolíferos, 17,3% gás natural, 1,1% carvão). Qual é a quota-parte do petróleo russo? Oficialmente 0%. "Esta estatística deve ser vista com pinças", sorri Tilly Metz, eurodeputada d' Os Verdes. A Bélgica importa 46% do seu petróleo bruto da Rússia antes de o refinar. No Grão-Ducado, corremos sobre petróleo... belga.

Se comprássemos apenas produtos de países onde os direitos humanos são respeitados, não compraríamos muito..."

Charles Goerens (Grupo Renovar a Europa)

O afastamento da Rússia significa ter de encontrar outras fontes de abastecimento. Para o eurodeputado Christophe Hansen (Partido Popular Europeu), a UE deveria trabalhar mais sobre os seus próprios recursos e ir buscar aqueles, neste caso gás, que estão localizados no Mar do Norte, sobretudo ao largo da costa da Escócia. "O que seria tão bom como ir aos países do Golfo mendigar, como o Ministro alemão da Energia [Robert Habeck] está a fazer". 

Aos 70 anos, Charles Goerens (do Grupo Renovar a Europa) é mais pragmático: "Se comprássemos apenas produtos de países onde os direitos humanos são respeitados, não compraríamos muito. Claro que não é muito recomendável, claro que temos de reduzir a nossa dependência, mas, por enquanto, a nossa economia tem de continuar a funcionar". 

Tilly Metz lamenta a decisão de Robert Habeck. "Ele virou-se para a Arábia Saudita, e depois? Não devemos ser hipócritas. Compreendo certas críticas, mas temos de nos manter realistas. A Europa deve mostrar solidariedade e ir a outros lugares para encontrar os combustíveis fósseis de que necessita. Dito isto, acredito que estas energias não são soluções sustentáveis. Tal como a energia nuclear".


Hungria acena com ameaça de veto na UE a sanções ao petróleo russo
A Hungria, que depende fortemente da energia russa, tem estado entre os países que mais se têm oposto à expansão das sanções contra a Rússia, na sequência da invasão desta à Ucrânia.

A eurodeputada d'Os Verdes lamenta o relatório intercalar do Centro Comum de Investigação, o serviço científico interno da Comissão Europeia, que afirma que "não existem provas científicas de que os efeitos da energia nuclear na saúde ou no ambiente sejam maiores do que os de outras fontes de produção de eletricidade classificadas pela taxonomia como atividades atenuantes". Em suma, o nuclear não seria mais perigoso do que a energia solar ou eólica. "Para a energia nuclear, é necessário urânio enriquecido. E quem a fornece à Europa? Rússia ou Cazaquistão..."

Tilly Metz congratula-se com o acordo de cooperação assinado pelo Luxemburgo com a Dinamarca com vista, como Claude Turmes, Ministro da Energia e Planeamento Regional, explicou ao jornal empresarial francês La Tribune, a 12 de janeiro, à "criação de uma ilha de energia artificial no Mar do Norte ligada a centenas de turbinas eólicas offshore onde está prevista a instalação de entre 10.000 e 12.000 megawatts de energia eólica. "As energias renováveis não nos levam a outras dependências", sublinha Metz, que acredita que esta questão da independência energética europeia deve também responder à emergência climática. 

Charles Goerens (eurodeputado eleito pelo DP) esta independência energética da Rússia não é suscetível de ser suavizada. "Se Putin decidir fechar as torneiras de gás, como fez com a Polónia, isto pode ter consequências económicas terríveis. As empresas a montante e a jusante das companhias petrolíferas terão dificuldades. Em termos concretos, em toda a Europa, isto resultará em centenas de milhares de pessoas desempregadas..."

(Artigo publicado originalmente na edição francesa do Luxemburger Wort. Tradução para português e edição para o Contacto por Ana Tomás.)

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