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Elevados custos energéticos podem levar fábricas a sair do Luxemburgo
Economia 6 min. 01.11.2022
Inflação

Elevados custos energéticos podem levar fábricas a sair do Luxemburgo

A DuPont de Nemours produz no Luxemburgo desde o início da década de 1960.
Inflação

Elevados custos energéticos podem levar fábricas a sair do Luxemburgo

A DuPont de Nemours produz no Luxemburgo desde o início da década de 1960.
Foto: Guy Jallay/Luxemburger Wort
Economia 6 min. 01.11.2022
Inflação

Elevados custos energéticos podem levar fábricas a sair do Luxemburgo

Marco MENG
Marco MENG
Os preços elevados da energia estão a tornar a produção industrial cada vez mais cara no país, assim como no resto da Europa.

Numa recente previsão sobre a evolução dos custos da energia, o Banco Mundial considerou que os preços elevados, especialmente na Europa, poderiam levar a uma "mudança do modelo industrial". A questão é: a produção sairá da Europa porque é simplesmente demasiado cara neste continente? Será o 'modelo industrial' do futuro será importar de outro lugar e abandonar a produção própria?


Raquel Ribeiro
@Rodrigo Cabrita
O processo de desindustrialização em curso
Há um consenso entre os grandes industriais: a crise energética está a destruir a indústria europeia.

Desde a crise do aço nos anos 80, a indústria luxemburguesa tem vindo a encolher. O setor financeiro tornou-se o motor da economia. No conjunto da zona euro, a percentagem da indústria (excluindo a construção) no desempenho económico caiu de quase 20% para 16,4% entre 1995 e 2021. No Luxemburgo, caiu de 13,2% para apenas 5,3%. Segundo o Eurostat, a indústria gera assim menos rendimentos do que os transportes/logística/comunicação (11,8% em 2020) ou comércio/restaurantes/hotéis com 9,7% em 2020.

Além disso, os preços elevados da energia estão a tornar cada vez mais difícil a viabilidade económica na Europa, de acordo com os avisos de organizações como a associação da indústria siderúrgica Eurofer. Num comunicado emitido na quarta-feira, o organismo evocou a "explosão dos preços da energia, que está a levar a custos de produção insustentáveis". 

Axel Eggert, CEO da Eurofer, afirmou: "O que é ainda mais preocupante neste contexto é o nível ainda elevado das importações de aço para a UE, que distorce a concorrência. Corremos o risco de uma grande destruição da capacidade industrial na Europa se não forem tomadas medidas comerciais de emergência para resolver a situação precária de alguns setores críticos na Europa."

Unidades de produção paradas

Em muitos países da UE, os preços elevados da energia estão a dificultar a vida às fábricas de aço e alumínio, a indústria química e os fabricantes de fertilizantes.   

A siderúrgica luxemburguesa ArcelorMittal encerrou unidades de produção em França, na Polónia, Espanha e Alemanha devido aos elevados preços da eletricidade. A produção está também a ser reduzida no Luxemburgo, numa altura em que a eletricidade é particularmente cara. 

"O aumento exorbitante dos preços da energia está a afetar seriamente a competitividade da produção de aço",  considerou o grupo siderúrgico em setembro. Também o produtor luxemburguês de aço inoxidável Aperam encerrou uma fábrica na Bélgica, onde a sucata de aço inoxidável é normalmente derretida, porque a fusão é atualmente demasiado cara.

Também o fabricante de cimento luxemburguês Cimalux está a sofrer com os preços de energia elevados, que este ano estão a causar a primeira perda na história da empresa. A concorrente alemã Heidelberg Materials terá de encerrar unidades se os preços não baixarem, de acordo com o presidente do grupo, que espera custos adicionais de vários milhares de milhões de euros para 2023.


Energia. ArcelorMittal admite adaptações nas unidades no Luxemburgo
Empresa diz que há atualmente uma quebra na procura de aço.

Fabricantes europeus sob dupla pressão

A DuPont de Nemours Luxembourg, uma das maiores empresas industriais do país com mais de 1.000 empregados, explica: "A DuPont segue de muito perto a situação energética atual na Europa e, em particular, no Luxemburgo. Temos uma rede global de unidades de produção que permanecem plenamente operacionais e não são diretamente afetadas por uma escassez de energia."

No entanto, estão a ser considerados planos de contingência para cada fábrica e cada país onde a empresa opera, que serão ativados, se necessário. "A fábrica de Contern também se preparou para utilizar de fontes de energia alternativas, de modo a que a produção possa continuar e os clientes possam ser abastecidos", disse a empresa, comprometendo-se a analisar "quaisquer mudanças políticas futuras e o seu impacto na [sua] atividade". 

A par com os elevados custos energéticos, as empresas europeias estão também sob pressão para reorganizar os seus processos de produção de uma forma menos poluente e com as emissões mais baixas possíveis.

São precisas soluções a longo prazo

No que diz respeito aos custos energéticos, as empresas com forte consumo de energia estão agora a depositar as suas esperanças num possível preço da eletricidade industrial nivelado ao nível europeu. 

A Comissão Europeia já declarou que o preço do gás natural não deve ser um fator determinante na composição dos preços da eletricidade. "Estas medidas devem ser consideradas como uma prioridade a fim de melhorar a situação o mais rapidamente possível", refere a ArcelorMittal.

O facto de a situação no mercado do gás ter abrandado recentemente, com reservatórios cheios e temperaturas amenas, é pelo menos um sinal de esperança. No entanto, são necessárias soluções a longo prazo. 

Face a esta espiral de preços e salários que se acelerou a partir do outono de 2021, a Federação da Indústria Luxemburguesa (Fedil) adverte também para os efeitos nocivos de uma taxa de inflação muito elevada sobre a atividade da indústria e das empresas. A Fedil não está inteiramente satisfeita com o resultado da reunião tripartida de março, já que considera que deveria ter sido feito mais para encontrar "soluções sustentáveis".


Energia. ArcelorMittal não prevê encerrar produção no Luxemburgo
Garantia é dada no contexto atual. Mas situação nos próximos meses é imprevisível.

Importação de fora da UE mais barata

Se empresas como a DuPont ou a ArcelorMittal, com unidades de produção em todo o mundo, só produzirem onde os preços da energia forem baixos, a economia europeia ficará significativamente enfraquecida. 

Os preços competitivos da energia em geral, e os preços da eletricidade em particular, são decisivos para o futuro da Europa como localização empresarial - até porque a necessidade de eletricidade aumentará no futuro devido à mobilidade elétrica. 

O pesadelo para as indústrias locais é que, dados os elevados preços da energia na Europa, as importações do Extremo Oriente são mais baratas do que as mercadorias fabricadas na Europa, mesmo com tarifas europeias adicionais de proteção.

Questionado sobre isto, o Ministério da Economia explica: "Durante muitos anos, o Luxemburgo tem estado entre os Estados-Membros da UE a apelar a uma abordagem mais estratégica e coordenada para modernizar e diversificar a estrutura industrial europeia." O objetivo é alcançar autonomia estratégica em setores críticos como as matérias-primas ou as tecnologias avançadas. Isto irá reduzir a dependência da UE em relação a países terceiros e preservar, desenvolver e diversificar a estrutura industrial europeia a médio e longo prazo.

Ajudas públicas deverão ser alargadas

"A guerra de agressão russa contra a Ucrânia é mais uma prova de que a base industrial da Europa deve tornar-se ainda mais resistente e competitiva a curto prazo. Especialmente no contexto do aumento dos preços do gás e da energia", realça Franz Fayot, o ministro da Economia.


O setor da indústria é, para já, o mais afetado pelo aumento dos preços dos combustíveis.
Aumento dos preços da energia. Indústria é o setor mais afetado
O preço do gás aplicado à indústria duplicou, ao passo que o da eletricidade triplicou, no espaço de um ano.

Franz Fayot prometeu ainda que o quadro especial de auxílios estatais decidido pela Comissão Europeia para apoiar a economia europeia no contexto da invasão da Ucrânia ("Temporary Crisis Framework") será consideravelmente alargado. 

Este deverá permitir aos Estados-Membros, incluindo o Luxemburgo, apoiar as empresas ainda mais eficazmente e contribuir assim para a manutenção do tecido industrial.

(Este artigo foi originalmente publicado no Luxemburger Wort e adaptado para o Contacto por Maria Monteiro.)

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