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Editorial. Guerras económicas são brincadeiras perigosas
Editorial Economia 3 min. 30.09.2020

Editorial. Guerras económicas são brincadeiras perigosas

Editorial. Guerras económicas são brincadeiras perigosas

Foto: AFP
Editorial Economia 3 min. 30.09.2020

Editorial. Guerras económicas são brincadeiras perigosas

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Conheça a forma como o Luxemburgo e Portugal estão a ceder à chantagem de Donald Trump e os perigos que isso acarreta para os europeus e para o mundo.

Trump usa o crescendo na guerra comercial com a China como um trunfo eleitoral para solidificar a sua base de fieis. O Presidente dos EUA está convencido há muito da "Teoria do Louco", como forma de ganhar negociações.

Em 1984, aos 30 e poucos anos, declarou ao jornal Washington Post que queria negociar acordos nucleares com os soviéticos. "Levaria uma hora e meia para aprender tudo sobre mísseis", declarou. "E, de todo modo, acho que já sei quase tudo." Segundo Bruce G. Blair, investigador do Programa de Ciência e Segurança Global da Universidade Princeton, Trump, numa receção em 1990, encontrou um negociador americano de armas nucleares e ofereceu-lhe conselhos sobre como fazer um acordo "genial" com seu equivalente soviético. Aconselhou-o a chegar atrasado, encarar o interlocutor, enfiar-lhe o dedo no peito e dizer: "Fuck you!".

Os EUA temem perder a superioridade económica e tecnológica em relação à China. Trump, como um qualquer segurança de discoteca que vende proteção, quer obrigar chineses e europeus a aceitarem violar as regras comerciais e de convivência entre países, sob a ameaça velada do esmagador poderio militar do Pentágono.

Nesse contexto, a administração americana permite-se ameaçar empresas chinesas para que vendam negócios rentáveis, como o TikTok, a concorrentes norte-americanos. É no mesmo sentido que os EUA empreendem uma operação em toda a Europa para impedir a Huawei de concorrer à instalação da rede 5G no velho continente. Trump alega que há problemas de segurança ao dar a empresas chinesas acesso às comunicações. Nessa matéria sabe do que está a falar, como denunciou o antigo espião norte-americano Snowden: há muito que os EUA usam as suas empresas gigantescas de informática e internet para espiar os líderes europeus e as empresas do resto do mundo.

A questão de segurança deve ser resolvida com as empresas, de qualquer que seja o  seu país, que preste o serviço. Isso não pode ser confundido com aceitar a pirataria económica e a chantagem dos EUA .


Justiça dos EUA impede Trump de proibir TikTok
O TikTok, que tem 100 milhões de utilizadores nos EUA e 700 milhões em todo o mundo, é uma das redes sociais com crescimento mais rápido nos últimos anos

Uma ação inqualificável que foram objeto os governantes portugueses e luxemburgueses. Recentemente, o embaixador dos EUA em Portugal, George Glass, declarou ao semanário Expresso que "Portugal tem que escolher agora entre os seus aliados e os chineses", tendo ameaçado com retaliações económicas e em matéria de defesa, caso Portugal fizesse mais negócios com empresas chinesas.

Esse mesmo embaixador, amigo e um dos financiadores de Trump, esteve recentemente no Luxemburgo, numa reunião, em que responsáveis da diplomacia, negócios estrangeiros dos EUA articularam políticas contra a China e de pressão aos governos europeus, com os embaixadores da Casa Branca em países da UE.


China acusa EUA de prejudicar comércio mundial com sanções à Huawei
A China acusou esta terça-feira Washington de prejudicar o comércio mundial com sanções que ameaçam paralisar a gigante de tecnologia Huawei. Pequim garante que irá proteger as empresas chinesas embora não tenha avançado com quaisquer retaliações.

Não é por acaso que, em agosto deste ano, o Governo luxemburguês tenha cedido à chantagem do embaixador dos EUA e dado ordem para a Post anular o contrato para a 5G que tinha negociado com a Huawei. "O Governo luxemburguês acaba de fechar a porta à Huawei, tentando fazer o mínimo de barulho possível", escreveu o jornalista Bernard Thomas no Land, explicando as razões do recuo do Grão-Ducado: "O fabricante de equipamento Huawei tornou-se um dos principais campos de batalha da guerra comercial sino-americana". A 8 de outubro de 2019, o Luxembourg Times publicou uma entrevista, tão espetacular como pouco comentada, com o embaixador americano Randolph Evans. O homem de Trump no Luxemburgo, cujo acesso direto à Casa Branca é por vezes temido, não foi muito diplomático: se o Luxemburgo escolhesse fabricantes de equipamento chinês para 5G, "the consequences could be serious". Tendo em conta o "enorme risco" que a Huawei representaria, os Estados Unidos não hesitariam em reavaliar ,"each and every agreement", revelava Bernard Thomas.


Huawei é pela primeira vez a maior vendedora de ‘smartphones’ do mundo
Apesar da tensão com o governo norte-americano, a gigante chinesa continua a ser líder de mercado.

A cedência dos países europeus à estratégia da "Teoria do Louco" de Trump é duplamente perigosa: por um lado, é uma ajuda à reeleição de um líder pouco confiável na Casa Branca; e por outro lado, uma guerra económica que não respeita as leis do comércio internacional corrói a construção de interesses comuns e faz com que as desavenças se expressem de forma cada vez mais violenta. Se é verdade que "a guerra é a continuação da política por outros meios", como escrevia o militar prussiano Clausewitz, também é verdade que uma guerra nos dias de hoje pode ser o derradeiro ato político da humanidade.

A escalada da guerra comercial é um indício que o conflito pode descambar e ninguém sabe como o travar.

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