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Cinco países da UE no top 10 dos apoios covid do FMI. Será suficiente?
Opinião Economia 5 min. 23.08.2021
Economia

Cinco países da UE no top 10 dos apoios covid do FMI. Será suficiente?

Alemanha
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Cinco países da UE no top 10 dos apoios covid do FMI. Será suficiente?

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Opinião Economia 5 min. 23.08.2021
Economia

Cinco países da UE no top 10 dos apoios covid do FMI. Será suficiente?

Luis REIS RIBEIRO
Luis REIS RIBEIRO
Bruxelas e Fundo Monetário Internacional são consensuais nas previsões. Depois de baterem no fundo em 2020, as grandes economias vão ter retomas divergentes este ano. Estados Unidos devem apagar danos no PIB, Europa, não.

Em julho passado, o departamento de estudos orçamentais e sobre contas públicas do Fundo Monetário Internacional (FMI), área que é chefiada pelo antigo ministro das Finanças português, Vítor Gaspar, atualizou a enorme base de dados que mede o esforço dos governos (de praticamente todos os países do mundo, quase 200) no combate à crise pandémica. 

Nesse ranking global, cinco países da União Europeia surgem como os mais esforçados nos respetivos pacotes de medidas de combate aos efeitos dos confinamentos na economia para tentar travar o vírus. São eles Itália (o primeiro da lista), Alemanha (terceiro lugar), Grécia, República Checa e França. Todos no top 10. Partilham o grupo da 'generosidade' com outros parceiros por esse mundo fora, como Japão, Reino Unido, Estados Unidos, Macau, Singapura. Olhando para todas as economias desenvolvidas, Portugal está muito mais para baixo, surge em 32º lugar num grupo de 47 territórios analisados pelo Fundo. O Luxemburgo surge em 37º. 

A questão que se levanta é se os governos estão a fazer o suficiente e se estão a saber esperar antes de começarem a retirar os apoios. 

De acordo com a lista feita por Vítor Gaspar, a Europa (muitos países de grande dimensão) parece estar a fazer bem. 

Itália é o país mais generoso do mundo desenvolvido, aplicando o equivalente a mais de 46% do seu produto interno bruto (PIB) em medidas de apoio contra a covid. Uma enormidade. Quatro vezes mais do que Portugal.

O FMI contabiliza as chamadas medidas acima da linha, que basicamente são as políticas para o setor da Saúde e as outras fora da área da Saúde, como apoios diretos ao emprego, às empresas, etc. Os esquemas de lay-off estão neste último grupo e costumam ser dos mais valioso ou dispendiosos para os erários públicos.

E depois as medidas abaixo da linha, que são as de natureza financeira, como garantias e bonificações de crédito. Liquidez bancária barata para tentar manter empresas com dificuldades temporárias de navegação à tona, a ver se esta tempestade passa de vez. 

A Alemanha, a maior economia europeia, dedica mais de 41% do PIB a medidas covid. A Grécia 28%. França, a segunda maior nação da UE, canaliza apoios na ordem dos 25%. Espanha, a quarta maior economia da União Europeia, aparece em 11º lugar, com o equivalente a 22% dos recursos para travar os efeitos recessivos da covid na atividade económica.

  'Generosidade': até quando e até onde 

Mas chega o facto de alguns países europeus serem os maiores e mais generosos para que a Europa não se atrase na corrida mundial pós-covid?

As últimas contas de algumas instituições internacionais mostram que há problemas. Pode não chegar, sobretudo porque muitas empresas europeias e muitos bancos e Estados estão demasiado endividados (da crise anterior). Mesmo as boas empresas parece que mais facilmente acedem a crédito do que a capital real. E porque o efeito turismo pode ser mais avassalador do que se pensa.

Portugal e Grécia sofreram (ainda sofrem) duramente esse embate, mas outros países mais ou muito desenvolvidos também. Itália, França e Espanha estão a tentar lidar com o problema da quase interrupção do turismo (ou compasso de espera, se não quisermos) e não está a ser fácil.

Pode não chegar e, embora o discurso oficial dos decisores políticos europeus seja de vamos esperar para ver, os pacotes de estímulos (como o fundo de recuperação) vão surtir resultados, a verdade é que as mais recentes previsões mostram que a zona euro está relativamente apagada no regresso ao novo normal da economia.

Os Estados Unidos sofreram um recuo de 3,5% no PIB em 2020. Na zona euro (19 países) o grau de destruição rondou os 6,5%. 

Em 2021, será ano de recuperação, em princípio. Mas o que nos diz o FMI sobre isso? A retoma da maior economia do mundo, os EUA, pode chegar a 7% este ano. Ou seja, pode chegar para apagar o ano de 2020, de má memória.

E na Europa. A retoma está em curso, mas nunca vai chegar para compensar o que foi perdido no ano passado. O FMI projeta um avanço de apenas 3,6% este ano, o que fica aquém de colmatar o referido colapso de 6,5% em 2020.

E até a Comissão Europeia admite que não chega. No mês passado, assumiu que depois do recuo de 6,5%, o crescimento fica-se pelos 4,8% este ano. É curto.

É insuficiente e mesmo isto resulta de uma revisão em alta à boleia do espírito e das condições menos restritivas do verão.

No entanto, há países que falharam a promoção de crescimento prevista por Bruxelas em julho.

Portugal e Finlândia são as únicas economias europeias que falham a revisão em alta nas perspetivas para este ano, no âmbito das previsões de verão da Comissão Europeia.

Todos os outros países ficaram melhor face à primavera Portugal e Finlândia, não. Também dentro de portas se pode dizer: retoma sim, mas a ritmos cada vez mais desiguais, que deixa milhões de pessoas para trás. 

Este tipo de fosso - no restabelecimento das economias, dos níveis e da qualidade do emprego, da inclusão social contra a desigualdade e a pobreza - preocupa cada vez mais os políticos.

Este tipo de problema pode tornar-se estrutural (se já não for), ferir a democracia e provocar ainda mais fissuras no projeto europeu. Ou reabrir feridas antigas, deixadas pela crise anterior, de inédita violência também.

Se hoje algumas dessas fissuras económico-sociais ainda não se veem bem, daqui a uns anos talvez sejam evidentes. E aí pode ser tarde demais.

*Jornalista do Dinheiro Vivo, Portugal

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