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É só para lembrar que o dinheiro existe
Opinião Economia 3 min. 13.10.2020

É só para lembrar que o dinheiro existe

É só para lembrar que o dinheiro existe

Foto: Reuters
Opinião Economia 3 min. 13.10.2020

É só para lembrar que o dinheiro existe

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
"Quando o sábio aponta para a lua, o idiota olha para o dedo". Este provérbio chinês aplica-se como uma luva a (mais) um escândalo financeiro que estourou há poucos dias: os ficheiros FinCEN.

À superfície, estes documentos mostram "atividades suspeitas" sinalizadas e enviadas a uma unidade de combate ao crime financeiro nos EUA; mas na verdade, o que realmente fica exposto é o papel dos bancos no carrossel de dinheiro sujo que faz rodar este planeta apodrecido em que andamos a sobreviver. Ali aparece um total de cerca de dois triliões de euros (mais ou menos dez vezes o PIB de Portugal) em movimentos de dinheiro proveniente do tráfico de drogas, de armas, de organizações criminosas, de fraude fiscal ou de outros passatempos tão ilegais quanto lucrativos.

Ninguém, muito menos no Luxemburgo onde como sempre há vários bancos implicados (Quintet, Banque de Luxembourg, ING, JP Morgan, Ubi Banca, Safra, inclusive a Caisse d’Épargne...), tem o direito de se afirmar surpreso com mais estas revelações. Mas esta é apenas a primeira parte do escândalo, e nem sequer é a mais corrosiva. O mais chocante é o costume: depois de um ou dois dias de (pequenas) reportagens sobre o assunto e consequentes reações ultrajadas da opinião pública e absolutamente silenciosas dos líderes políticos... aparece outro ciclo noticioso (já apareceu), o assunto fica rapidamente em águas de bacalhau (já ficou), e tudo continuará como antes. Sublinhe-se: estes 2500 papéis são apenas os que foram descobertos (há muitos que não o serão), referentes às transações feitas em dólares (faltam as das outras moedas), e só as transferências que os bancos decidiram assinalar (não é difícil de imaginar que o banco assobia para o ar na esmagadora maioria dos casos). Ou seja, apenas a ponta do icebergue de dinheiro sujo deste mundo.

Quem tem poder para lutar é no mínimo conivente e no máximo cúmplice.

Este é um sistema que facilita a vida a cartéis de droga, cleptocratas e organizações terroristas, um sistema que exige todo o tipo de comprovativos e justificações a quem tenha 3000 euros para levantar mas, por recear o que se poderia encontrar com uma simples busca no Google, nem quer verificar a identidade de quem transfere 300 milhões à vontadinha. Em vez de se insurgirem contra isto, os idiotas úteis olham para o dedo e tentam desacreditar o mensageiro (o escândalo foi mais uma vez divulgado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, a mesma associação de 109 media mundiais que também trouxe para a luz os Panama Papers, Luxleaks ou Paradise Papers).


Bancos luxemburgueses facilitaram milhões ao crime
Há um novo escândalo a abalar o mundo financeiro e a banca luxemburguesa não fica de fora com centenas de transações fraudulentas, observadas entre 2000 e 2007.

O pior é que quem tem poder para lutar contra este estado de coisas é no mínimo conivente e no máximo cúmplice. Políticos, muitos deles eleitos com a ajuda de fundos muito duvidosos, remetem-se ao silêncio; agentes especiais são poucos e inofensivos; mecanismos anti-fraude arrastam-se sem meios humanos, financeiros ou soluções. E no entanto, a luta contra a criminalidade económica, a corrupção e a evasão fiscal têm de ser prioridades absolutas na nossa sociedade. Da próxima vez que alguém lhe diga que "não há dinheiro para hospitais ou escolas ou etc", lembre-se: o dinheiro existe. Está é escondido, a circular incessantemente entre bancos, criminosos e paraísos fiscais.

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